2021 terá início turvo, mas acabará em recuperação global

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São Paulo – A economia global ainda enfrentará dificuldades no começo do ano que vem devido aos impactos da pandemia do novo coronavírus, mas o avanço em vacinas melhora as perspectivas para o final de 2021. Enquanto nos Estados Unidos a recuperação será forte, a Europa sentirá os efeitos negativos da separação do Reino Unido e a China, apesar de seu papel importante, não deve ser a protagonista dessa retomada, de acordo com analistas consultados pela Agência CMA.

“A recuperação no terceiro trimestre deste ano foi em geral mais rápida do que a esperada”, disse o economista-chefe do UBS, Arend Kapteyn. “O quarto trimestre será mais sombrio, porém, por causa da alta nos casos do vírus e renovados bloqueios na Europa, certamente o primeiro semestre de 2021 será turvo”, acrescentou.

A segunda onda de casos de covid-19 que atinge o continente europeu levou governos locais a endurecerem restrições, enquanto a doença segue avançando nos Estados Unidos e no mundo, que já registra mais de 64 milhões de infectados, segundo dados da Universidade Johns Hopkins.

Apesar do cenário sombrio, as perspectivas são positivas. A vacina contra covid-19 da Pfizer e da BioNTech obteve aprovação no Reino Unido e aguarda autorização para uso em outros países da Europa e nos Estados Unidos, enquanto vacina da Moderna também mostrou eficácia acima do esperado e está sendo analisada por autoridades reguladoras de saúde.

“Com anúncios recentes de vacinas assumimos que o segundo trimestre de 2021 verá uma aceleração da recuperação no setor privado”, disse Kapteyn. Segundo ele, no ano que vem deve haver uma melhoria simultânea em todos os países nos setores mais afetados pela covid-19, como viagens, turismo e restaurantes.

“O ritmo relativo dessa melhoria provavelmente depende da rapidez com que as vacinas são lançadas e do comportamento das pessoas mudanças quando começam a ver a contagem de vírus diminuir”, disse. “Nossa projeção é de crescimento global de 6,1% em 2021, acima do consenso”.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê queda de 4,4% no Produto Interno Bruto (PIB) global deste ano e alta de 5,2% em 2021, segundo as projeções mais atualizadas, divulgadas em outubro. Já a Comissão Europeia, braço executivo da União Europeia (UE), espera contração de 4,3% na economia global em 2020 e expansão de 4,6% em 2021.

Por sua vez, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) prevê contração de 4,2% no PIB global deste ano e crescimento de 4,2% no ano que vem.

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O economista-chefe do ING na Alemanha, Carsten Brzeski, disse que é preciso distinguir o cenário econômico de curto e de longo prazo. “Primeiramente, vai piorar antes de melhorar. As perspectivas de curto prazo ainda são negativas e a economia global vai passar por um caminho suave, com algumas regiões entrando em recessão”, afirmou.

“A vacina, no entanto, claramente melhora as perspectivas para o segundo trimestre de 2021. Pela primeira vez, é justo dizer que os riscos estão inclinados para o lado positivo”, acrescentou.

O analista-chefe da Nordea, Jan von Gerich, afirmou que “a vacina vai definitivamente contribuir e ser um fator determinante na recuperação, mas é cedo para concluir que vai salvar tudo”.

As vacinas mostraram uma taxa de eficácia maior do que a prevista, lembra o economista da Focus Economics, Oliver Reynolds, o que deve levar à retirada de restrições mais cedo, mas “a rápida fabricação em massa e a distribuição eficaz serão essenciais, assim como a aceitação pública da vacina”.

CHINA

No caminho para a recuperação global, a China tem ocupado um papel de destaque, uma vez que é a maior economia do mundo e foi capaz de lidar com as repercussões negativas da pandemia, que começou na cidade chinesa de Wuhan em dezembro do ano passado.

“A China sempre desempenha um grande papel na determinação da forma do ciclo de negócios global, simplesmente por causa de seu tamanho”, disse o economista sênior da Capital Economics, Simon MacAdam. “Mas, em comparação com 2020, a China ficará em segundo plano na condução da recuperação”, acrescentou ele, referindo-se ao fato de que Pequim não será a responsável sozinha pela retomada mundial.

Ele destacou que a China já reverteu totalmente as consequências econômicas da crise do novo coronavírus, e em breve a tendência de crescimento ganhará força, enquanto o resto do mundo ainda está tentando recuperar o atraso.

Além disso, boa parte da recuperação da China deve-se à demanda externa por suas exportações de bens. “Portanto, a China se beneficiou de uma mudança nos padrões de consumo em outros lugares devido ao novo coronavírus. Uma vacina permitirá que o resto do mundo volte a gastar em serviços domésticos discricionários, e longe dos produtos chineses”.

Para Kapteyn, do UBS, a China deve crescer 8,2% no próximo ano, e será parte da recuperação global, mas a composição do crescimento mudará, com uma rotação da dependência de infraestrutura e imóveis para um crescimento mais impulsionado pelo consumo, conforme o setor de serviços continua a se recuperar.

“Esse crescimento será menos intensivo em commodities, refletindo também uma redução gradual do estímulo governamental. Projetamos que o crescimento do crédito cairá de cerca de 14,0% para 11,0% entre o final de 2020 e o final de 2021”, afirmou o economista. O FMI prevê alta de 1,9% no PIB chinês este ano, e de 8,2% em 2021.

ESTADOS UNIDOS

Nos Estados Unidos, a expectativa é por uma forte recuperação no próximo ano, uma vez que o país deve ser rápido em começar a vacinação contra covid-19, mas o ímpeto da retomada vai depender de estímulos fiscais. O FMI prevê queda de 4,3% para a economia norte-americana este ano, e expansão de 3,1% em 2021.

“Um Congresso dividido limitará o escopo de estímulos fiscais futuros, colocando um freio na recuperação”, disse Reynolds, da Focus Economics. Nas eleições deste ano, os democratas conquistaram a maioria na Câmara dos Deputados, mas o Senado ainda não está definido, com uma votação em segundo turno realizada na Geórgia em 5 de janeiro.

“Se Biden não controlar o Senado, será muito difícil aprovar estímulos em grande escala”, disse Kapteyn, do UBS, acrescentando que, caso os democratas ganhem na Geórgia, a projeção de crescimento do PIB seria mais próxima de 5,5% do que os 3,0% projetados pelo banco, mas por enquanto esse cenário não faz parte da previsão.

“Na área de política externa, entretanto, há poucas restrições legislativas. Esperamos uma abordagem mais multilateral ao comércio – mesmo que as tarifas sobre a China não sejam revertidas, o aumento da previsibilidade reduzirá a incerteza e será bom para os mercados e a economia”.

Da mesma forma, MacAdam, da Capital Economics, destacou que mais previsibilidade no cenário internacional ante a administração do atual presidente Donald Trump é bem-vinda. “Biden provavelmente pode aumentar a confiança do lugar dos Estados Unidos na política global, mas terá mais dificuldade para impulsionar a economia do país diretamente”, disse.

Para Brzeski, do ING, “os Estados Unidos se tornarão mais abertos, mas permanecerão oportunistas, apenas com um tom mais amigável. A Europa poderia se beneficiar com isso, a América do Sul, mas a China não. A guerra contra a tecnologia continuará”.

EUROPA

Com relação à Europa, os analistas destacam que ainda podemos ver alguns picos de casos de covid-19, em especial no período do Natal, levando a atual onda a se arrastar para o início do próximo ano, assim como medidas de contenção. Por outro lado, o lançamento de vacinas está bem encaminhado e deve permitir a retirada de restrições.

“A economia deve se recuperar no primeiro semestre de 2021, mas os níveis de atividade pré-covid-19 provavelmente não serão alcançados até o final de 2022, no mínimo”, disse von Gerich, do Nordea.

Ele destacou ainda que o processo de separação entre o Reino Unido e a UE – o chamado Brexit – terá um impacto negativo na economia europeia no próximo ano. “Quão negativo vai depender da possibilidade de um acordo comercial se fechado nas próximas semanas, mas mesmo que seja alcançado, o comércio enfrentará mais obstáculos do que o Reino Unido membro ser da UE”, disse.

“Não dever ser uma catástrofe, mas é um vento contrário ao crescimento em qualquer caso, em circunstâncias em que toda a ajuda seria bem-vinda”, acrescentou disse von Gerich.

O Reino Unido deixou a UE em janeiro deste ano, mas permanece sob os termos comerciais do bloco até o final do período de transição, em 31 de dezembro, enquanto os dois lados negociam um novo arranjo.

Reynolds, da Focus Economics, afirmou que o impacto será sentido mais fortemente no próprio Reino Unido. “Com ou sem um acordo, deixar o mercado único da UE será um golpe duro para muitas empresas”.

Para ele, países próximos à órbita do Reino Unido, como a Irlanda, sentirão um golpe notável, e certos setores econômicos serão mais afetados, como a indústria pesqueira da UE.

Por fim, Kapteyn, do UBS, disse que um Brexit sem acordo comercial retiraria dois pontos percentuais (pp) adicionais do crescimento do Reino Unido e talvez cerca de 0,5 pp da zona do euro em 2021. “Esses números são normalmente grandes, mas nem tanto em um ano de recuperação de pandemia”, disse.