Surgimento de nova Bolsa, além da B3, divide opiniões

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São Paulo – A possível criação de uma nova Bolsa de valores no Brasil é vista como positiva para parte de agentes do mercado, já que quebraria o monopólio da B3 e poderia levar à redução de taxas cobradas, trazendo mais opções para investidores. No entanto, analistas e gestores alertam que, para dar certo, é preciso que a candidata a ser a nova Bolsa invista muito em tecnologia e tenha uma boa estratégia para fazer frente à B3, seja com taxas agressivas, seja na escolha dos segmentos em que começará a atuar.

O caminho para um concorrente está livre desde o final de dezembro do ano passado, quando a B3 entrou em acordo com a ATS Brasil sobre a taxa que cobrará para a transferência de valores mobiliários, podendo deixar de ser a única a oferecer o serviço com exclusividade. Foi firmado um contrato que estabelece condições e determinou que a taxa de transferência será de 0,26 pontos-base.

A ATS Brasil, que promete ser a nova Bolsa, já namora o mercado de capitais brasileiro há mais de sete anos, sendo que em 2013 fez o pedido formal à Comissão de Valores Mobiliário (CVM) para poder começar a atuar. A empresa é controlada pela Americas Trading Group (ATG), que foi fundada em 2010 por ex-executivos da corretora carioca Ágora, vendida ao banco Bradesco em 2008. A ATG já atua oferecendo serviços para corretoras e gestoras, ligando seus clientes às principais redes de terceiros para roteamento de ordens.

Procurada pela Agência CMA, a companhia não quis adiantar quando pode começar a atuar e quais serão os primeiros negócios que serão realizados em sua plataforma. “O Grupo ATG tem imensa satisfação de contribuir para o desenvolvimento do mercado de capitais no país. Os resultados obtidos pela empresa até o momento são um importante legado para o Brasil”, disse apenas, por meio de nota.

Na avaliação do analista da Mirae Asset Corretora, Pedro Galdi, a entrada de um novo player seria positiva para o mercado brasileiro como um todo e pode estimular redução de taxas. “A competição é sempre positiva, a B3 cobra tarifas muito altas e o Brasil ainda tem um mercado pequeno, ainda com pouca tradição em educação financeira e muito desconhecimento. A ATG vem paquerando o mercado há alguns anos e acredito que pode começar a atuar em um ou dois anos se estiver bem estruturada, tiver feito investimentos em tecnologia”, disse.

O analista de investimentos do banco Daycoval, Enrico Cozzolino, também acredita que a maior concorrência é bem-vinda, ainda mais em um mercado de capitais como o brasileiro, ainda considerado pequeno em relação ao de outros países, mas que tem crescido desde que a renda variável voltou a atrair mais investidores diante de uma Selic mais baixa, incluindo pessoas físicas.

No entanto, acredita que talvez a empresa tenha que atuar em segmentos menos explorados pela B3, para ir aos poucos ganhando mercado e a confiança de novos investidores. “Ela pode atuar em mercados específicos, fazer serviços que a B3 não consegue oferecer. Ela vai precisar de tempo para que consiga se firmar”, disse.

Hoje, a B3, que é resultado da fusão da Bovespa com a BM&F e a Cetip, detém o monopólio de negociação, liquidação e registro de ações, de títulos de renda fixa e de derivativos de moedas, juros e commodities. Além disso, possui uma unidade de financiamentos de veículos. No entanto, haveria nichos a serem melhores explorados, como em negociações de debêntures, ações de pequenas empresas, entre outros.

Já a o CEO da gestora focada em ações Reach Capital, Ricardo Campos, é um pouco mais pessimista sobre a possibilidade de uma nova Bolsa conseguir sobreviver à concorrência com a B3, que está há anos no mercado e tem grande infraestrutura em vários segmentos. “Para atrair investidores, ela teria que dar descontos brutais e pode não se pagar”, disse.

Ele também destaca que que a concorrência provavelmente se daria no “trading”, na área de negociação, e não na custódia e liquidação de ativos, que provavelmente continuaria sendo monopólio da B3. Outro ponto levantado por Campos, é necessidade de mudanças de sistemas e de infraestrutura tecnológica em vários agentes do mercado, como em corretoras, assets e bancos, para conseguirem trabalhar com operações em duas Bolsas ao mesmo tempo.