Novos casos do coronavírus fazem Bolsa cair e dólar subir

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Por Danielle Fonseca e Flavya Pereira

São Paulo – Após conseguir renovar seus recordes históricos ontem, o Ibovespa fechou em queda de 0,96%, aos 118.376,36 pontos, com a confirmação de novos casos do coronavírus nos Estados Unidos e na França hoje, o que traz dúvidas sobre o tamanho do surto e motiva realizações de lucros. O volume total negociado foi de R$ 19,6 bilhões.

Na semana, o índice ficou quase estável, com queda de 0,09%, diante da preocupação com o vírus que se originou na China.

Segundo o economista-chefe da Codepe Corretora, José Costa, o aumento de casos em países como Estados Unidos e França chama a atenção do mercado, além de as medidas drásticas que estão sendo tomadas pela China para impedir a disseminação, como o isolamento de mais cidades, trazer temores de impactos negativos na economia do país.

“Não temos ainda muita noção do tamanho do surto e tudo o que mexe com a China também mexe com os preços de commodities, como minério de ferro e petróleo”, afirmou ainda o economista.

Operadores também lembram que estamos no início do feriado Ano Novo chinês e a situação no país deve continuar a ser observada ao longo do fim de semana. Um operador de uma corretora paulista afirma que o índice chegou a reduzir perdas por alguns instantes diante de notícias de que uma primeira paciente chinesa que foi considerada curada do coronavírus, mas que “permanece muita incerteza”.

O impacto da doença na China afeta ainda os preços de commodities, como do minério de ferro, o que foi sentido pelas ações da CSN (CSNA3 -4,00%), que ficaram entre as maiores quedas do Ibovespa. Ainda entre as maiores perdas ficaram as ações da Via Varejo (VVAR3 -4,35%) e do Iguatemi (IGTA3 – 3,38%).

As ações de bancos, como as do Santander (SANB11 – 1,83%), também pesaram hoje, com investidores realizando lucros depois das fortes altas dos papéis do setor ontem. Já as maiores altas do índice foram da WEG (WEGE3 4,49%), da Ambev (ABEV3 1,82%) e da Hering (HGTX3 1,49%).

Na semana que vem, o economista da Codepe acredita que será preciso continuar a monitorar a situação do coronavírus e seus impactos nos preços de commodities, mas lembra que começa a temporada de balanços corporativos no Brasil, que pode trazer resultados melhores. A semana ainda é de decisão de política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano).

O dólar comercial fechou em alta de 0,47% no mercado à vista, cotado a R$ 4,1870 para venda, em viés de proteção em meio ao avanço do coronavírus na China e em outros países da Ásia. Hoje, o segundo caso foi confirmado nos Estados Unidos, o que elevou o mau humor do mercado refletindo nos países de moedas emergentes.

“[O mercado] reagiu sobretudo à detecção de mais casos do coronavírus fora da China após a calmaria gerada pela OMS [Organização Mundial da Saúde] ontem. Além da confirmação de mais um caso nos Estados Unidos, a notícia de dois casos na França potencializou a aversão ao risco”, comenta o analista de câmbio da Correparti, Ricardo Gomes Filho. Ele acrescenta que o dólar passou a “servir de refúgio” para o investidor temeroso de um alastramento do vírus.

Na semana marcada pelo avanço da doença provocada pelo vírus, a moeda se valorização em 0,55%. A equipe econômica do Bradesco destaca que o número de pessoas infectadas cresceu nos últimos dias – chegando a mais de 900 enquanto 26 morreram – o que pode ser acentuado pelo período de comemorações do ano novo chinês, de hoje até a próxima quinta-feira, quando aumenta muito a circulação de pessoas pelo país.

“Os efeitos, por ora, parecem mais circunscritos à economia chinesa, que deve perder ritmo nos próximos meses, especialmente em segmentos como comércio e turismo. Ainda assim, em episódios de epidemias semelhantes no passado, os efeitos sobre a economia asiática e sobre os mercados foram temporários”, avaliam os analistas do banco.

Na segunda-feira, o mercado seguirá atento aos desdobramentos do coronavírus e sentindo a ausência do mercado chinês em meio ao feriado prolongado, com a liquidez reduzida, o que deverá impactar novamente os mercados emergentes. Na agenda, investidores estarão à espera da decisão de política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) na quarta-feira.

“Por mais que a expectativa seja de manutenção da taxa de juros, o mercado ficará atento ao comunicado onde sempre tem um detalhe, uma informação nas entrelinhas que pode fazer preço”, diz o diretor de câmbio de uma corretora nacional. A equipe do Bradesco reforça que a prévia do Produto Interno Bruto (PIB) norte-americano no último trimestre de 2019 deve mostrar que a economia continua “resiliente”, crescendo em torno de 2%.