Fechamento das fábricas da Ford no Brasil impactará economia e locadoras

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São Paulo - Pátio de montadora em São Bernardo do Campo

São Paulo – O encerramento da produção de veículos pela Ford no Brasil, que fechará três fábricas no País, terá impacto na economia como um todo ao deixar cerca de cinco mil desempregados, mas também deve ter desdobramentos em toda a indústria nacional e afetar empresas como locadoras de veículos.

Ontem, a empresa anunciou que fará a parada imediata nas fábricas nas cidades de Camaçari (BA) e Taubaté (SP), que terão apenas algumas áreas funcionando por alguns meses para apoiar o pós-venda. Já a planta da Troller em Horizonte (CE) continuará a operar apenas até o quarto trimestre de 2021.

Para o sócio da MRD Consulting, Flavio Padovan, que já foi diretor de operações da Ford no Brasil e América do Sul e presidente de marcas como a Jaguar Land Rover, o impacto da saída da Ford do Brasil será gigantesco para a economia brasileira.

“São cinco mil empregos que serão fechados, tem impacto para os fornecedores da Ford na Bahia e para a economia que gira no entorno das fábricas. Tudo isso em uma economia que estava começando a se recuperar”, disse o executivo.

Na sua avaliação, o fechamento das fábricas e término da produção no país, a Ford passa a ser uma empresa pequena no Brasil e importadora da Argentina, do Uruguai, da China e do México. “O câmbio teve um peso importante nessa decisão. Com isso, somado às mudanças do cenário mundial, a Ford decidiu decidir ser uma empresa de nicho e focar onde ela é forte.”

Os analistas do banco Goldman Sachs também acreditam que o anúncio foi consistente com a estratégia da Ford, que já havia comunicado aos investidores possíveis mudanças operacionais e de liderança no segundo semestre do ano passado.

“Especificamente, a Ford planeja alocar capital para suas franquias mais fortes e em oportunidades de alto crescimento”, disseram em comentário enviado a investidores.

CONCORRÊNCIA

Além dos impactos na economia, Padovan destaca os movimentos internacionais na indústria automobilística, com a fusão da Fiat com a Chrysler, Peugeout e Citroen e da ascenção da Tesla nos últimos anos.

“O valor da Tesla sozinha é maior que o das outras montadoras juntas. E há um ano atrás, a própria Ford anunciou uma aliança global em produção com a Volksvagen. Faz muito tempo que a Ford não faz mais parte do primeiro pelotão. E hoje a situação de todas as montadoras está difícil.”

Já sobre a concorrência local, o analista do Credit Suisse, Regis Cardoso, destaca que na produção de veículos brasileira, a Ford representava 7,4% do total, com base nos dados de 2020. Ele lembra que, em dezembro de 2020, a Mercedes-Benz também encerrou operações no País e tinha uma fatia de 0,4% do mercado.

No entanto, no aspecto fornecimento nacional, o analista vê um impacto limitado de médio a longo prazo, já que o setor opera a uma taxa de utilização de 58% e outras empresas têm bastante capacidade ociosa para atender a demanda deixada pela Ford.

USADOS E LOCADORAS

Considerando os carros usados e impactos em frotas de locadoras de veículos, por sua vez, o analista do banco suíço estima que a rede Localiza será mais impactada, já que atualmente cerca de 14% da sua frota atual viria da Ford, frente a 12% da Unidas e 0,5% da Movida.

“A decisão do fabricante de deixar o Brasil também poderia ter uma leitura negativa para as locadoras de veículos, já que a diminuição da produção local e da capacidade sobressalente pode reduzir seu poder de negociação e barganha na compra de carros novos”, disse ainda, em relatório.

Os analistas do Goldman Sachs também destacam possíveis impactos para a Localiza, já que a menor oferta de carros novos pode reduzir os descontos que a rede consegue na compra de carros novos. “No entanto, notamos que os concorrentes da Localiza poderiam enfrentar o mesmo problema e, portanto, não necessariamente mudar a vantagem competitiva da empresa”, disseram.

O banco continua com a recomendação de compra para as ações da Localiza, pois acreditam que a empresa está bem posicionada e pode ter uma retomada de crescimento.

Por fim, a menor demanda interna por autopeças pode impactar negativamente a cadeia de valor automotiva e de empresas de bens de capital, como a Iochpe-Maxion, prevê o Credit Suisse. Porém, a previsão é que o efeito será limitado nesse segmento, já que pode ser compensado por um ganho de market share de players locais ou por veículos importados.

No mercado financeiro, a reação foi positiva, com os papéis da Ford subindo em Nova York com a notícia da saída do Brasil. Ontem, as ações, que são negociadas na Bolsa de Nova York, fecharam em alta de 3,33% e, há pouco, operavam com ganhos de 4,78%.

As ações da Localiza (RENT3) também subiam no pregão de hoje na B3 e tinham alta de 1,47%, às 16h42 (horário de Brasília), depois de terem caído 1,91% ontem.