Especialistas contestam na CPI da covid afrouxar uso de máscaras

A microbiologista e pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP), Natalia Pasternak. (Foto: Jefferson Rudy / Agência Senado)

São Paulo – A proposta do presidente Jair Bolsonaro para afrouxar o uso de máscaras durante a pandemia de covid-19 foi criticada por especialistas durante a reunião da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Senado que apura erros e omissões do governo no combate à pandemia.

Ontem o presidente disse que encomendou ao Ministério da Saúde um estudo para avaliar a possibilidade de autorizar pessoas vacinadas contra a covid-19 ou que contraíram a doença a deixarem de ser obrigadas a usar máscaras – um dos protocolos defendidos por especialistas e pelo próprio ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, para conter a disseminação da doença.

Em transmissão ao vivo, Bolsonaro disse que conversou com Queiroga, e disse que o chefe da pasta “vai fazer estudo de modo que possamos sugerir orientar a desobrigação de uso da máscara para quem já foi vacinado ou para quem já contraiu o vírus. A gente não pode viver numa opressão a vida toda sobre isso aí.”

Hoje, a CPI promove audiência com Natalia Pasternak, microbiologista e pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP), e Cláudio Maierovitch, médico sanitarista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e ex-Presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Ambos foram contra a hipótese de afrouxar o uso de máscaras nos termos defendidos por Bolsonaro.

“O que nós sabemos até agora é que mesmo pessoas que tiveram infecção e mesmo pessoas vacinadas podem voltar a ter infecção, podem voltar a ficar doentes”, disse Maierovitch. “Estudos feitos com vacina verificaram a possibilidade de novo adoecimento, temos muito pouca informação sobre possibilidade de uma nova infecção sem sintomas. Provavelmente essa possibilidade é maior do que a de que uma pessoa fique doente novamente”, afirmou.

“Sabemos que não existe vacina com eficácia de 100%. Eficácias tem sido observadas crescentes quando comparadas com uma gravidade maior da doença. Ou seja, as vacinas parecem mais eficazes para evitar morte, para evitar doença grave, do que para evitar quadros mais leves e também quando se fala de evitar infecções. Enquanto não tivermos proporção muito grande da população já vacinaca, nós temos que continuar com todos estes cuidados, temos que continuar usando as máscaras quando pessoas estiverem próximas ou quando estiverem em lugares fechados.”

Pasternak, que falou em seguida, disse que “o uso de máscaras é essencial enquanto a gente continua observando número de casos e óbitos diários que é preocupante. É essa curva que nós temos que olhar. A gente só via poder deixar de usar as medidas preventivas – as máscaras, distanciamento físico e social – quando uma grande porção da população estiver vacinada e quando a curva nos disser que isso é seguro. Não temos nem que olhar o percentual de vacinados.”

“Nós temos que olhar o efeito desta vacinação na sociedade. São os números da covid que não nos dizer qual o momento que a gente pode começar a relaxar as medidas preventivas. Nenhuma vacina é 100% e a eficácia destas vacinas vai variar de acordo com a taxa de transmissão comunitária também”, acrescentou.

“Costumo dar exemplo sempre do jogo de futebol e do goleiro. Como a gente sabe que um goleiro é um bom goleiro? Olha histórico dele, eficácia do goleiro, a frequência com que ele pega a bola. Se ele tem um bom histórico, uma boa eficácia nos testes clínicos, ele é um bom goleiro. Mas isso não quer dizer que ele é infalível, não quer dizer que ele é invicto, que nunca vai tomar gol.”

“Se a gente olha para um único jogo onde ele tomou um frango e fala ‘ih, esse cara tomou frango’, e fala ‘ele é uma porcaria’. Não, ele é um bom goleiro, mas não é infalível. Se ele tem uma defesa do time que é uma droga, que não serve para nada – que não usa máscara, que não faz distanciamento social, que não faz medida preventiva -, vai ter tanta bola vindo para o gol – vai ter tanto vírus circulando – que a probabilidade de ele errar é maior.”

“Uma boa vacina é como um bom goleiro, pode ser muito boa, mas não é infalível. E se tiver muita bola vindo para o gol, muito vírus circulando, a probabilidade de ela falhar é maior, então a gente precisa reforçar a defesa do time. A gente precisa ter um bom goleiro – boa vacina -, mas precisa ter uma boa defesa do time. Tudo isso em conjunto vai nos levar a um momento no futuro onde a curva da doença vai decair, vai permitir que a gente relaxe o momento da quarentena”, afirmou Pasternak.