Bolsa e dólar recuam diante de incertezas fiscais e políticas

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São Paulo – O Ibovespa fechou em queda pela terceira sessão seguida em mais um dia no qual os investidores fugiram dos ativos locais mais arriscados diante dos persistentes riscos fiscais e políticos. Depois de buscar sem sucesso o nível de 120 mil pontos perto da abertura, o índice firmou-se em queda ainda na primeira hora de pregão.

A alta expectativa dos investidores quanto ao andamento de reformas e privatizações acabou ofuscada pelas sinalizações do governo pretende driblar o teto de gastos para que uma nova rodada de auxílio emergencial saia do forno. Para piorar, os números ruins do varejo brasileiro em dezembro de 2020 pegaram em cheio nas ações de empresas do setor listadas na B3, pesando ainda mais sobre o índice.

Com isso, assim como nos dois pregões anteriores, o Ibovespa novamente oscilou dentro uma estreita faixa diante da indisposição dos investidores de assumir riscos enquanto a situação não se tornar um pouco mais clara. A bolsa brasileira encerrou o dia em queda de 0,86%, aos 118.435,33 pontos.

Enquanto isso, o economista sênior para mercados emergentes da Capital Economics, Edward Glossop, adverte que a recuperação dos fluxos de capital estrangeiro para mercados emergentes começa a perder fôlego.

No último trimestre de 2020, a entrada de investidores estrangeiros nos mercados de ações e bônus no Brasil atingiu o maior nível desde o início de 2015, observa Glossop. No início de 2021, entretanto, o fluxo começou a diminuir e, na avaliação do economista, a expectativa é de que o apetite dos investidores estrangeiros por ativos de economias emergentes se reduza ainda mais no decorrer dos próximos meses.

O dólar comercial fechou em queda de 0,18% no mercado à vista, cotado a R$ 5,3720 para venda, em mais uma sessão de forte volatilidade, influenciado pela entrada de um fluxo investidor estrangeiro ao longo da tarde, calibrando o movimento da moeda norte-americana no exterior e os receios locais com o risco fiscal.

“A quase volta do [pagamento do] auxílio emergencial, sem o Ministério da Economia relatar a fonte de recurso, faz com que os investidores fiquem cautelosos”, reforça o trader da mesa de câmbio da Travelex Bank, Thiago Penteado. O diretor superintendente de câmbio da Correparti, Jefferson Rugik, destaca a volatilidade da moeda na sessão, com alta de mais de 1% na primeira parte dos negócios refletindo a cautela com o cenário fiscal.

“Além da decepção dos investidores com os dados ruins de vendas no varejo em dezembro”, comenta Rugik. O indicador desabou 6,1% no último mês de 2020 ante novembro, no pior resultado para o mês da série histórica – iniciada em 2000 -, apesar de subir 1,2% no acumulado do ano, mas na alta menos intensa em quatro anos.

À tarde, a moeda inverteu o sinal e passou a cair, segundo o diretor da Correparti, influenciado pelo ingresso de investidores estrangeiros. “Vindo, possivelmente, para participar dos IPOs [ofertas públicas de ações] em curso na bolsa brasileira, e na esteira da fragilidade do dólar no exterior”, diz.

Amanhã, com a agenda de indicadores mais fraca e com liquidez reduzida, já que começa o feriado de ano novo na China, o analista da Toro Investimentos, João Vitor Freitas, vê que o comportamento do mercado deverá ser “pelos mesmos motivos” dos últimos dias. “O mercado fica à espera dos desdobramentos em torno do auxílio emergencial, que ganha cada vez mais força para voltar. Também poderemos ver o início de um movimento de proteção às vésperas do feriado de carnaval”, acrescenta.

Apesar de as festividades da data estarem suspensas por conta da pandemia do novo coronavírus, a bolsa brasileira (B3) e os bancos ficarão fechados na segunda e terça-feira da próxima semana. Ambos retornarão às atividades na quarta-feira à tarde.

“Lembrando que, no ano passado, foi na volta do carnaval que o mercado financeiro viveu aquele caos”, lembra o analista da Toro sobre a forte queda de 7,0% do índice Ibovespa na quarta-feira de cinzas, precificando os receios com o avanço do novo coronavírus pelo mundo antes de receber o status de pandemia pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Enquanto aqui, era registrado o primeiro caso de covid-19.

As taxas dos contratos de juros futuros (DIs) fecharam em queda, acompanhando o recuo do dólar. Ao mesmo tempo, os investidores seguem calibrando a expectativa em relação aos rumos da taxa Selic a partir de março, após indicadores econômicos domésticos, e aos riscos fiscais em meio às discussões sobre a retomada do pagamento do auxílio emergencial fora do teto dos gastos.

O DI para janeiro de 2022 fechou a 3,360%, de 3,405% no ajuste anterior; o DI para janeiro de 2023 chegou ao fim da sessão projetando taxa de 4,860%, de 4,985% ontem; o DI para janeiro de 2025 terminou o dia em 6,39%, de 6,46% na véspera; e o DI para janeiro de 2027 encerrou em 7,09%, de 7,11%, na mesma comparação.

Wall Street ensaiou terminar mais uma sessão em recorde, mas o S&P 500 e o Nasdaq deram uma pausa nos ganhos para encerrar o dia em queda em meio a uma troca de posições em papéis de tecnologia. A exceção foi o Dow Jones, que subiu e renovou máxima no fechamento.

Confira abaixo a variação e a pontuação dos índices de ações dos Estados Unidos no fechamento:

Dow Jones: +0,20%, 31.437,80 pontos

Nasdaq Composto: -0,25%, 13.972,50 pontos

S&P 500: -0,03%, 3.909,88 pontos