Bolsa cai mais de 10% e dólar sobe com pânico por coronavírus

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São Paulo – O pânico nos mercados atingiu novos patamares em função da pandemia de coronavírus, derrubando Bolsas em todo o mundo e fazendo Ibovespa fechar em queda de 14,78%, aos 72.582,53 pontos. Trata-se da segunda maior queda percentual da história, ficando atrás apenas da desvalorização de 15,82% de 10 de setembro de 1998, durante a crise da moratória russa.

Já o patamar de fechamento é o menor em quase dois anos, desde 28 de junho de 2018 (71.866,52 pontos). O volume total negociado foi de R$ 30,2 bilhões.

O dia também foi de dois circuit breakers, o que não ocorria desde 6 de outubro de 2008, durante a crise financeira mundial. No entanto, é a primeira vez na história que o mecanismo foi acionado quatro vezes na mesma semana. Na mínima do dia, o índice chegou aos 68.488,29 pontos, recuando 19,59%, ficando a beira de um terceiro circuit breaker.

“Estamos passando por uma das maiores crises de volatilidade no mercado, talvez da história do mercado financeiro no Brasil. Nem em 2008 o mercado americano caiu tão rápido quanto dessa vez”, afirmou o sócio da Criteria Investimentos, Vitor Miziara.

Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump, disse que pode declarar emergência nacional se for necessário, em função da pandemia. Ele também afirmou que soube que o presidente Jair Bolsonaro está sendo monitorado por coronavírus, já que o secretário de comunicação da Presidência, Fábio Wajngarten, foi infectado e estava na comitiva do presidente na viagem aos Estados Unidos. Porém, disse não estar preocupado.

No entanto, as Bolsas chegaram a reduzir levemente as perdas depois que o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) anunciou o aumento de operações compromissadas, conhecidas como repo, e também de compras de títulos do governo (Treasuries).

De acordo com comunicado, ainda hoje o Fed oferecerá US$ 500 bilhões em uma operação de recompra de três meses, que será liquidada amanhã, quando serão ofertados outros US$ 500 bilhões em uma repo de três meses e mais US$ 500 bilhões em uma operação compromissada de um mês para liquidação no mesmo dia.  As operações compromissadas de três meses e um mês, no valor de US$ 500 bilhões, serão oferecidas semanalmente pelo restante do cronograma mensal.

Entre as ações, as quedas foram generalizadas, mas as maiores perdas do Ibovespa foram das companhias aéreas Azul (AZUL4 -31,60%) e Gol (GOLL4 -35,33%), que são diretamente impactadas com a redução da demanda por voos. Hoje, a Azul disse que suspendeu suas projeções para 2020 de olho no potencial impacto do covid-19 e que está tomando medidas para reduzir o impacto, prevendo redução da capacidade internacional entre 20% a 30% em relação ao plano original.

Para analistas, diante da semana sangrenta até o momento e da situação inédita de pandemia é difícil traçar cenários e saber se o Ibovespa pode ter alguma recuperação nos próximos dias. “Difícil pensar em alta do índice com esse fluxo de notícias e saída de investidores. Mas tem investidores querendo comprar, pode ser oportunidade, mas o melhor é parcelar as compras, ter cautela”, disse o analista da Terra Investimentos, Régis Chinchila.

O dólar comercial fechou em alta de 1,25% no mercado à vista, cotado a R$ 4,7790 para venda, em mais uma sessão de pânico generalizado nos ativos globais em meio à escalada do coronavírus, no qual a moeda abriu os negócios acima de R$ 5,00 pela primeira vez na história. Patamar que levou o Banco Central (BC) a atuar no mercado por quatro vezes com venda de dólares no mercado à vista.

“O mercado doméstico experimentou mais um dia caótico e o motivo segue sendo a escalada do coronavírus e as suas ‘sequelas’ sociais e econômicas. Como efeito da pandemia, os investidores promoveram uma verdadeira corrida para os ativos mais seguros, resultando em perdas massivas e de magnitudes históricas no mercado acionário global”, comenta o analista de câmbio da Correparti, Ricardo Gomes Filho.

Ele acrescenta que o câmbio, por sua vez, exibiu “expressiva” valorização ante às outras moedas de países emergentes. A moeda estrangeira abriu os negócios no limite de alta no mercado futuro, acima de R$ 5,00, enquanto o contrato à vista renovou a máxima histórica intraday a R$ 5,0290 (+6,55%).

“Vale lembrar que esse cenário de perdas ocorreu mesmo à despeito do anúncio de programas de estímulo pelas principais economias. Internamente, o BC local se mostrou bastante ativo ao executar sucessivos leilões para tentar amenizar a escalada da moeda”, avalia.

Ao todo, a autoridade monetária ofertou US$ 5,75 bilhões, porém, foram tomados US$ 1,780 bilhão somando as quatro operações. “O problema no mercado cambial não é liquidez de falta de dólar, e sim proteção. O BC ofertou contratos na operação à vista, mas investidores não quiseram pagar com essa cotação mais alta. Poucos aceitaram. O problema não é demanda”, explica o operador de derivativos de um banco nacional.

Já o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) anunciou o aumento das operações compromissadas, conhecidas como repo, com a oferta de US$ 500,0 bilhões em operação de recompra de três meses e de um mês. No momento do anúncio da operação, o contrato futuro do dólar chegou à mínima do dia, a R$ 4,75. A partir disso, passou a oscilar sem direção única.

Amanhã, no último pregão de uma semana conturbada para o mercado financeiro, a agenda de indicadores não destaques, mantendo o noticiário sobre o coronavírus no radar dos investidores. Agentes do mercado comentam que o Banco Central deve atuar no mercado na tentativa de evitar a escalada da moeda no mercado local em meio à forte depreciação cambial nas últimas semanas.