BC monitora risco de gasto imprevisto com pandemia, diz Campos Neto

Roberto Campos Neto, Presidente do Banco Central do Brasil, apresenta o Balanço da Agenda BC#. (Foto: Raphael Ribeiro/ BCB)

São Paulo – O Banco Central (BC) está monitorando o risco de um aumento imprevisto nos gastos públicos decorrente do agravamento da pandemia de covid-19, disse o presidente da instituição, Roberto Campos Neto, durante uma entrevista coletiva.

“Quando nos referimos ao risco [fiscal de curto prazo] seria o risco de nesse meio-termo [entre o agravamento da pandemia de covid-19 a melhora do quadro por causa da vacinação] ter algum novo projeto neste sentido, de aumento de gastos fiscais, que estivesse fora do nosso cenário-base”, disse ele.

Campos Neto ressaltou que a retomada dos pagamentos do auxílio emergencial nos moldes aprovados pelo Congresso está dentro do cenário do Banco Central, sugerindo que gastos adicionais a isto – como um eventual aumento no valor do auxílio emergencial para R$ 600 que ficasse fora do teto de gastos, como pediram vários governadores ontem – estão fora do que a instituição mapeou.

“Entendo que teve uma segunda onda que governo precisava reagir. Foi feita contrapartida em esforço fiscal. Entendemos que a PEC Emergencial [que viabilizou a retomada do auxílio emergencial] tem sim componentes de ganhos institucionais em relação à estrutura fiscal olhando para frente. Era importante fazer um novo gasto, veio acompanhado de uma contraparte, entendemos que isso está dentro do nosso cenário”, afirmou.

“Quando nos referimos a fragilidade fiscal de curto prazo, entendemos que nova onda poderia gerar uma função reação do governo de fazer alguma medida fiscal, medida esta que estaria fora do nosso cenário contemplado hoje”, acrescentou.

Campos Neto negou que a elevação da taxa básica de juros, a Selic, começou com atraso e que a taxa deveria ter iniciado sua trajetória de alta em janeiro, em vez de em março.

“Qualificamos bem que achávamos que entre uma reunião e outra existia conjunto de informações muito importantes, e teve continuação muito grande da subida de commodities lá fora, com contaminação e persistência maior do que imaginávamos”, afirmou.

INFLAÇÃO

O Banco Central (BC) elevou a previsão para a inflação em 2021 em 1,6 ponto porcentual (pp), para 5,0%, e revisou para cima as projeções para os anos seguintes, segundo dados divulgados na edição de março do Relatório Trimestral de Inflação (RTI), divulgado hoje cedo. A previsão de 2021 está 0,25 pp abaixo do teto da meta prevista para o período, de 5,25%.

O BC prevê que no segundo trimestre a inflação brasileira acumulada em 12 meses deve chegar a um pico de 7,8% por causa da fraqueza nos preços em meados de 2020. “No segundo trimestre de 2021, a inflação acumulada em quatro trimestres não considera mais a deflação do segundo trimestre de 2020, mas incorpora ainda a recuperação do trimestre seguinte”, disse o BC no documento.

A instituição também elevou de 8% para 41% a probabilidade estimada de a inflação ultrapassar o teto em 2021.

A previsão para a inflação em 2022 aumentou em 0,1 pp, para 3,5%, ficando no centro da meta definida para o ano que vem, enquanto a projeção de inflação para 2023 teve alta de 0,2 pp, para 3,5%, e ficou 0,25 pp acima do centro da meta para o período.

As projeções divulgadas no RTI são calculadas com base nas previsões do mercado para a taxa básica de juros (Selic) nos períodos a que fazem referência e levando em consideração a taxa de câmbio partindo de R$ 5,70 por dólar e evoluindo segundo a paridade do poder de compra (PPC).

O BC citou vários fatores que levaram à revisão para cima nas projeções de inflação, entre eles as leituras acima das esperadas nos indicadores de preços, a revisão das projeções de curto prazo refletindo as pressões correntes, a desvalorização do real, o aumento do preço das commodities (em particular o petróleo), o crescimento das expectativas de inflação da pesquisa Focus e a revisão para cima nas estimativas para preços administrados.

O contraponto a estes elementos veio da trajetória mais elevada da taxa Selic da pesquisa Focus, da queda do indicador de incerteza econômica em ritmo inferior ao considerado e da alteração da hipótese sobre a bandeira tarifária da energia elétrica para os finais de 2021 e 2022, reduzindo a projeção para o primeiro e aumentando para o segundo.

ECONOMIA

A previsão do Banco Central (BC) para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2021 diminuiu para 3,6% em março, de 3,8% em dezembro, de acordo com a edição mais recente do Relatório Trimestral de Inflação (RTI). Segundo o documento, a revisão na estimativa ocorre “ainda sob incerteza acima da usual sobre o ritmo de crescimento da economia”.

“Ressalte-se que essa perspectiva está condicionada à continuidade do processo de reformas e ajustes necessários na economia brasileira, condição essencial para permitir a recuperação sustentável da economia”, acrescentou.

Segundo o BC, a nova previsão reflete tanto a surpresa positiva no ritmo de crescimento da economia brasileira no último trimestre do ano passado – que aumenta o carregamento estatístico em prol do crescimento da economia neste ano – e o nível relativamente elevado da atividade no início deste ano, quanto a nova e mais grave onda da pandemia de covid-19 no Brasil.

“Em termos de trajetória, a projeção para o PIB é de recuo moderado ao longo do primeiro semestre, seguido de recuperação relevante nos últimos dois trimestres do ano, decorrente da redução esperada na taxa de letalidade da covid-19 e no número de internações, com o avanço da vacinação”, disse o BC.

A instituição também ressaltou que a estimativa baseia-se na manutenção do regime fiscal e no limite de R$ 44 bilhões à nova rodada de auxílio emergencial com pagamentos concentrados no segundo trimestre.

“Supõe-se ainda que o cronograma anunciado de vacinação será seguido sem desvios acentuados e que as novas variantes de atenção do vírus não afetarão de modo significativo os resultados da campanha de vacinação”, acrescentou o BC.

Durante a entrevista coletiva, Campos Neto disse que a redução na previsão de crescimento do Brasil em 2021 foi leve não porque o BC está “super otimista” com a economia neste ano, mas por causa dos resultados mais fortes que se previa no final do ano passado e no início deste ano e por prever que a vacinação da população contra a covid-19 permitirá em algum momento a reabertura da economia.

“Em termos de expectativa, [o Banco Central] é até levemente um pouco mais negativo” que o mercado em relação às perspectivas para a atividade econômica, disse ele, durante uma entrevista coletiva.

“O crescimento do último trimestre [de 2020] foi mais forte que o esperado. Os números de janeiro mostraram força maior que esperada e os de fevereiro também mostram força maior que a esperada, inclusive levando em consideração a redução do auxílio emergencial”, disse Campos Neto.

Ele ressaltou que os dados colhidos até agora sugerem que a desaceleração da atividade econômica que estava prevista em decorrência do fim do auxílio emergencial ficou aquém do esperado.

“Basicamente quando olhamos o IBC-BR, voltou quase tudo. Teve um processo inicial de retomada em ‘V’, com expectativa de que ia suavizar. Isso não ocorreu, a volta foi mais forte que esperado. Temos consumo e investimento crescendo, e acho importante mencionar que outros dados que olhamos corroboram isso”, acrescentou, citando os dados sobre uso de capacidade instalada e a arrecadação.

“Não estamos super otimistas. Está bem qualificado. Estamos um pouco mais pessimistas em relação ao primeiro semestre. No nosso cenário está contemplada a pandemia, a vacinação. Olhamos o cronograma, aplicamos curva de vacinação. Obviamente não é ciência exata, achamos que curva de vacinação vai ter efeito no Brasil semelhante a outros lugares. E portanto economia tem capacidade de reabrir”, afirmou.