Ata do Fed e lado fiscal do Brasil pressionam os mercados

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São Paulo – O Ibovespa fechou em queda de 1,18%, aos 100.853,72 pontos, mostrando uma piora após a divulgação da ata do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), que alertou sobre os riscos ainda trazidos pela pandemia do coronavírus para o ritmo da retomada econômica. Antes da ata, porém, o índice já mostrava um desempenho pior que seus pares no exterior em função do risco fiscal, com investidores ainda receosos de que o governo amplie despesas e possa descumprir o teto de gastos.

“A ata não trouxe uma surpresa negativa a ponto de virar a chave do mercado de vez, mas as Bolsas, principalmente nos Estados Unidos, que estão em máximas históricas, precisam de novidades positivas para continuarem avançando”, disse o sócio da DNAinvest, Leonardo Ramos.

Para Ramos, os mercados também estão muito dependentes da continuidade de estímulos por parte de bancos centrais e qualquer alerta pode ser motivo para correções. “Os mercados estão viciados em estímulos. Se eles cessarem, a dor já começa a voltar”, afirmou.

Os membros do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) do Fed elevaram o tom de alerta para os riscos que a crise causada pela pandemia representa para a economia dos Estados Unidos, com o ritmo de recuperação ainda dependente do curso da covid-19. As Bolsas norte-americanas, que operam em leve alta mais cedo, passaram a cair e fecharam com leve queda.

Já na cena doméstica, a questão fiscal continua no radar e traz mais cautela. Apesar de declarações ontem terem reduzido o temor de saída do ministro da Economia, Paulo Guedes, ainda há algum receio sobre o não cumprimento do teto de gastos, em meio a discussões sobre o orçamento para 2021.

Entre as ações, as do setor financeiro seguem mostrando fraqueza, com destaque para as ações da B3 (B3SA3 -3,80%), entre os que mais pesaram para a queda do índice. Outras ações de peso, como as da Vale (VALE3 -1,06%), ampliaram queda.

Já as maiores perdas do Ibovespa foram das ações da Cogna (COGN3 -5,45%), do IRB Brasil (IRBR3 -4,76%) e da Sabesp (SBSP3 -5,04%). Os papéis da Sabesp refletem declarações do governador de São Paulo, João Dória, que afirmou que a prioridade será a capitalização da companhia, sendo que investidores aguardam que uma privatização ocorresse mais rapidamente.

Na agenda de amanhã, investidores devem ficar atentos a indicadores como os pedidos de seguro-desemprego nos Estados Unidos e o índice de indicadores antecedentes de julho. Já na Europa, o Banco Central Europeu (BCE) divulgará a ata da sua última reunião.

O dólar comercial encerrou a sessão em queda de 1,16%, negociado a R$ 5,5350 para venda, refletindo a preocupação e cautela dos investidores com a recuperação econômica dos Estados Undos nos pós-pandemia. Esse alerta foi feito pela ata da última reunião do Fed. Colaborou para a alta, o risco fiscal do Brasil e o possível estouro do teto de gastos.

“A ata do Fed mostrou a economia americana ainda muito fraca e isso trouxe preocupação. Mas tem também o lado fiscal do Brasil. Estamos ouvindo muita coisa, principalmente o presidente [Jair Bolsonaro] falando sobre cumprir a metande gastos, mas precisa ver na prática se isso vai realmente acontecer. O discurso está bom, mas na prática nada. O presidente está em reeleição, gostou do populismo. Todo mundo tá fazendo hedge em dólar e isso tem pesado muito”, explicou Paulo Petrassi, gestor de investimentos.

Assim que a ata do Fed foi divulgada e os investidores passaram a digerir o conteúdo, o dólar passou a subir, chegando a mais de 1% de alta, e fez com que o Banco Central (BC) se sentisse obrigado a fazer um leilão de swap cambial para conter o avanço da moeda. Inicialmente o efeito foi claro e o dólar perdeu força de alta, passando a subir abaixo de 1%, mas perto do encerramento a moeda norte-americana voltou a subir mais forte.

“A preocupação do investidor com o lado fiscal brasileiro ficou ainda mais evidente com a ata do Fed, já que se a economia dos Estados Unidos está patinando e não consegue seguir firme, imagina o que pode acontecer com a economia brasileira. É evidente que o governo vai estourar o teto de gastos e teremos problemas em 2021 para regularizar essa situação”, explicou um operado de câmbio de uma grande corretora.

Passado o alívio com o renovado apoio do presidente Jair Bolsonaro ao ministro da Economia, Paulo Guedes, as taxas dos contratos de juros futuros (DIs) encerraram a sessão em alta acelerada, pressionadas pelo avanço firme do dólar. O movimento de recolocação de prêmios na curva a termo ganhou força após a divulgação da ata da reunião de julho do Federal Reserve e em meio às preocupações fiscais no Brasil.

Ao final da sessão regular, o DI para janeiro de 2022 ficou com taxa de 2,78%, de 2,69% no ajuste anterior; o DI para janeiro de 2023 terminou projetando taxa de 4,00%, de 3,88% após o ajuste ontem; o DI para janeiro de 2025 encerrou em 5,83%, de 5,68%; e o DI para janeiro de 2027 tinha taxa de 6,85%, de 6,70%, na mesma comparação.

O Fed acendeu a luz de alerta sobre os riscos que a economia dos Estados Unidos enfrenta com a crise do novo coronvírus e apagou os recordes alcançados recentemente pelos índices do mercado de ações dos Estados Unidos, que sucumbiram à pressão da ata de julho do banco central norte-americano e terminaram o dia em queda.

Confira abaixo a variação e a pontuação dos principais índices de ações dos Estados Unidos fechamento:

Dow Jones: -0,31%, 27.692,88 pontos

Nasdaq Composto: -0,57%, 11.146,46 pontos

S&P 500: -0,44%, 3.374,85 pontos