Segunda onde da covid-19 faz Bolsa cair; dólar recua

Foto: Sergio Roberto Bichara / freeimages.com

São Paulo – Após uma semana turbulenta marcada pelo avanço da segunda onda da pandemia de coronavírus em vários países, o Ibovespa fechou o último pregão de outubro em queda de 2,72%, aos 93.952,40 pontos, seguindo as perdas das Bolsas norte-americanas. Wall Street refletiu balanços de grandes empresas de tecnologia e temores de novas medidas de restrição para combater a covid-19.

Também houve cautela à espera da semana que vem, que contará com as eleições presidenciais nos Estados Unidos e uma agenda relevante, lembrando que segunda-feira a B3 ficará fechada em função do feriado de Finados. O volume total negociado foi de R$ 32,4 bilhões.

Com a queda de hoje, o Ibovespa encerrou a semana com perdas de 7,22%, na pior semana desde março, mês no qual foi sentido o maior impacto da primeira onda da pandemia nos mercados. A semana ainda fez o índice reverter os ganhos de outubro e fechar o mês com baixa de 0,69%, no quarto mês consecutivo de queda.

“Ninguém está assumindo risco agora e tem mesmo que esperar para ver o que vai acontecer. Precisamos ver as eleições nos Estados Unidos e se haverá pacote fiscal. A segunda onda de coronavírus também está sendo até pior do que a primeira na Europa e as medidas de bloqueio anunciadas vão impactar a economia da região”, disse o sócio e responsável pela área de produtos da Monte Bravo, Rodrigo Franchini.

O especialista em ações da Levante Investimentos, Eduardo Guimarães, lembra que o Ibovespa chegou a acumular alta de 7,73% em outubro, batendo os 102 mil pontos, mas que a “segunda onda da covid-19 na Europa derrubou as Bolsas” em todo o mundo.

Nesta semana, vários países europeus já adotaram “lockdowns” parciais, caso da França e da Alemanha. No final do dia, nos Estados Unidos, a decisão da cidade de São Francisco de adiar a implementação de mais uma etapa de reabertura econômica aumentou o receio de que outros estados do país também possam retomar medidas de restrição.

Já os dados do terceiro trimestre das empresas de tecnologia não podem ser considerados exatamente negativos, mas a Apple, por exemplo, mostrou forte queda de vendas na China, o que trouxe temores sobre como serão os desempenhos à frente depois de bons resultados do setor durante à pandemia.

Entre as ações, as maiores quedas do Ibovespa foram da B2W (BTOW3 -9,25%), que divulgou seu balanço, da Via Varejo (VVAR3 -5,69%) e da Hering (HGTX3 -6,15%). Na contramão, apenas a Telefônica Brasil (VIVT4 1,11%), IBR Brasil (IRBR3 0,98%), SulAmerica (SULA11 0,54%) e Rumo (SULA11 0,38%) fecharam em alta.

Na semana que vem, todos os holofotes estarão voltados para as eleições norte-americanas. O candidato democrata Joe Biden está mostrando vantagem frente ao presidente Donald Trump, mas o resultado é aguardado com ansiedade e há dúvidas se Trump contestará o resultado caso perca. Além disso, a semana conta com a decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) de política monetária e dados de emprego no país, conhecidos como payroll. Para Franchini, a volatilidade pode continuar diante do cenário de incertezas.

O dólar comercial fechou em queda de 0,45% no mercado à vista, cotado a R$ 5,7390 para venda, em sessão de forte volatilidade no último pregão do mês com a formação de preço da taxa Ptax, intervenção do Banco Central (BC), cautela antes do feriado prolongado e de uma agenda de eventos e indicadores pesada na próxima semana. No exterior, parte das moedas de países emergentes se recuperaram ante a divisa norte-americana, como o peso mexicano, o que influenciou o movimento da moeda no mercado local.

O diretor da Correparti, Ricardo Gomes, destaca a atuação “intempestiva” do Banco Central com a oferta de um leilão de venda de dólares no mercado à vista em dia de disputa para a formação de preço da Ptax, para conter o avanço da moeda que rompeu o nível de R$ 5,80 – maior valor intradiário desde 15 de maio – na primeira parte dos negócios.

“Com um volume que se aproximou dos US$ 800,0 milhões, o que acompanhamos foi um movimento que atendeu aos interesses dos comprados em dólar futuro”, reforça.

Em uma semana bem volátil, a moeda se valorizou em 1,92% em meio ao avanço da segunda onda de contaminação por covid-19 na Europa e nos Estados Unidos, que fez países como Alemanha, França e Espanha a adotarem medidas mais restritivas de distanciamento social para conter a disseminação do novo coronavírus. O que coloca em discussão a retomada da recuperação econômica dessas e das demais economias globais.

Além disso, o tão esperado pacote de estímulo fiscal norte-americano não foi negociado antes das eleições dos Estados Unidos, conforme prometido pelo Congresso do país. Diante dessas incertezas, o dólar fechou outubro com ganhos de 2,15%, engatando o terceiro mês de alta.

“Foi um mês bem nervoso e volátil com a volta do novo coronavírus na Europa. Porém, temos um destaque com a volta do investidor estrangeiro para bolsa, algo que não acontecia há meses”, comenta o diretor da corretora Mirae Asset, Pablo Spyer.

No mês até o dia 28, o saldo estrangeiro ficou positivo em R$ 3,173 bilhões, ante resultado negativo de R$ 2,397 bilhões em setembro. No acumulado do ano, o saldo está negativo em R$ 84,581 bilhões.

Na semana que vem, a volta do feriado local promete com a eleição presidencial nos Estados Unidos, enquanto – excepcionalmente – na quinta-feira, sai a decisão de política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), além de uma agenda de indicadores pesada aqui, na China, Europa e nos Estados Unidos, com o relatório de empregos do país, o payroll, no fim da semana.

“O resultado da eleição pode influenciar a política do Fed ao longo dos meses, mas isso dependerá, em parte, de como os mercados vão reagir”, diz a equipe econômica da Capital Economics.

Quanto a disputa entre o presidente norte-americano, Donald Trump, que tenta a reeleição e o democrata Joe Biden, o analista da Toro Investimentos, João Freitas, o ambiente de cautela se deve com a dúvida de quem ganhará a eleição, tendo Biden como favorito, como apontam pesquisas de intenção de voto. “Acho que o mercado aceitará a vitória de qualquer um dos dois. A questão mesmo é a espera pela aprovação de um pacote de estímulo fiscal”, pondera.

As taxas dos contratos de juros futuros (DIs) encerraram a sessão em alta, apesar da virada do dólar, que caminha para fechar em queda e abaixo de R$ 5,75 após flertar com a faixa de R$ 5,80 durante o pregão, o que ativou mais um leilão de venda de moeda à vista pelo Banco Central. O acúmulo de incertezas no Brasil e no exterior elevaram a cautela entre os investidores, ainda mais diante do fim de semana prolongado pelo feriado nacional.

Ao final da sessão regular, o DI para janeiro de 2022 ficou com taxa de 3,46%, de 3,43% no ajuste anterior; o DI para janeiro de 2023 terminou projetando taxa de 5,05%, de 4,97% após o ajuste ontem; o DI para janeiro de 2025 encerrou em 6,78%, de 6,71%; e o DI para janeiro de 2027 tinha taxa de 7,57%, de 7,50%, na mesma comparação.

Novas notícias envolvendo medidas restritivas para conter o avanço do novo coronavírus pelo mundo alimentaram, mais uma vez, as preocupações com a recuperação da economia global, afastando os investidores de ativos considerados mais arriscados. Com isso, os principais índices do mercado de ações norte-americano terminaram a sessão, a semana e o mês em queda.

Confira abaixo a variação e a pontuação dos principais índices de ações dos Estados Unidos no fechamento:

Dow Jones: -1,40%, 26.501,66 pontos

Nasdaq Composto: -2,81%, 10.911,59 pontos

S&P 500: -1,79%, 3.270,04 pontos