Real tem forte valorização, mas desafios são duros em 2022

Foto de notas de dólar
Foto: Freeimages.com/ Mokra

 

São Paulo, 25 de abril de 2022 – O primeiro trimestre foi de grande valorização do real ante o dólar. Para os próximos meses, contudo, os desafios tendem a ser mais duros: aperto do ciclo monetário nos Estados Unidos, eleições presidenciais brasileiras, preço das commodities e a continuidade do conflito na Ucrânia. Por outro lado, os juros praticados no Brasil ainda são convidativos e a disparada inflacionária deve fazer com que o BC suba a Selic nas próximas três reuniões.

 

O estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno, não acredita que o dólar continue neste patamar. “O espaço para novas apreciações do real é limitado, com um cenário mais desafiador à frente, especialmente com Fed e os problemas fiscais internos”. Rostagno projeta que a moeda termine o ano em R$ 5,20 e em R$ 4,90 ao final de 2023.

 

Já o sócio e fundador da Pronto! Invest, Vanei Nagem, enxerga um cenário mais otimista, com o Brasil seguindo como um destino preferencial entre os emergentes. “A Rússia vai demorar para voltar a atrair investimentos, mesmo no pós-guerra. As sanções vão demorar para cair e os emergentes terão um bom tempo para surfar nisso”, projeta.

 

      Incertezas fiscais e eleições

 

A pressão fiscal é um tema recorrente no Brasil, especialmente em anos eleitorais. “Historicamente os gastos em anos de eleições são maiores, e tudo isso vai desembocar em 2023, independente de quem for eleito”, visualiza Nagem. Rostagno segue a mesma linha, observando que os dois candidatos que lideram as pesquisas – Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva – falam abertamente sobre mudar o teto de gastos, e que isso é visto de modo temerário pelo mercado.

 

Nagem, porém, acredita que o cenário eleitoral já está precificado, com as eleições polarizadas. “Só irá afetar o câmbio se acontecer algo muito diferente”. Já o CFA e fundador da Nousi Finance, Andrey Nousi, pensa diferente: “A tensão política tende a aumentar, o que pode fazer com que o dólar dispare”, observa.

 

O economista-chefe do Banco Alfa, Luis Otavio Leal, aponta que “existe uma tendência mais natural deste dólar chegar mais próximo dos R$ 5,00, principalmente quando nos aproximarmos das eleições, mas os R$ 5,20, R$ 5,30 que trabalhava antes está sob revisão para baixo”. Leal enxerga o dólar a R$ 4,30 como um “exagero”, mas não impossível. “Este dólar, próximo das eleições, pode dar uma esticada, principalmente caso o candidato Jair Bolsonaro continuar com este discurso que talvez não aceite uma derrota por conta de não poder auditar os votos, isso gera um risco institucional”, arremata.

 

     Juros, commodities e Ucrânia

 

A disparada do preço das commodities e alta dos juros foram os pilares que sustentaram este crescimento do real até agora. “O real tem o melhor desempenho entre as emergentes, e isso se explica pelos juros brasileiros, tornando o Brasil atrativo para investimentos seguros como a renda fixa; a alta das commodities subiram bastante, aumentando a demanda brasileira”, avalia Nousi.

 

Mas até quando vai este fôlego do real? Rostagno responde: “Por enquanto a alta das commodities e a inflação ajudam a mascarar os problemas fiscais, mas os problemas estruturais continuam os mesmos”, analisa Rostagno.

 

Outro “vilão” do real e das demais emergentes é o Fed. A próxima reunião do Fomc, em maio, tende a aumentar em 0,5%, dando início a uma série de ajustes que devem ser mais agressivos. O efeito prático disso é a fuga de capitais das economias em desenvolvimento para as desenvolvidas, como os Estados Unidos, um mercado mais sólido e seguro. “Isso faz com que investir nos Estados Unidos seja mais atrativo para os mercados globais”, resume Nousi.

 

Não bastasse isso, a inflação doméstica faz com que o Banco Central tenha de aumentar seguidamente a Selic, o que a princípio é vantajoso para o Brasil. “Infelizmente só aumentamos os juros para segurar a inflação. O governo não tomou nenhuma medida, como enxugar a máquina para cortar gastos, não fez a lição de casa”, lamenta Nagem, que prevê a Selic terminal em 14%, com viés altista. Rostagno acredita que se o aumento dos juros terminar em maio a tendência é o real se desvalorizar.

 

Outro ingrediente neste caldeirão de fatores é o conflito na Ucrânia. “A resolução positiva do cenário de guerra seria prejudicial para o Brasil, já que reduziria a pressão sobre as commodities e nos tornaria menos atrativos”, avalia Nousi.

 

A Tendências Consultoria revisou o dólar de R$ 5,30 para 5,05 ao final de 2022. A nova projeção foi baseada na aproximação dos fundamentos técnicos, após período de descolamento.

 

Os riscos, pondera a Tendências, seguem no radar: intensificação do ciclo monetário nos Estados Unidos, incertezas sobre o conflito na Ucrânia e dúvidas sobre o crescimento chinês. Já no Brasil, o ambiente eleitoral deve ganhar força no segundo semestre, além das preocupações fiscais com o próximo ano.

 

A consultoria pontuou quatro fatores importantes para a valorização do real nestes primeiros meses do ano: fortes juros internos, novo ciclo de alta das commodities, correção dos excessos observados registrados no segundo semestre de 2021 e dólar acomodado no resto do mundo.

 

Câmbio em 2022

 

O dólar comercial abriu 2022 cotado a R$ 5,576. No fechamento da sexta, 22, a moeda estava cotada a R$ 4,806. Importante lembra que na sexta, o dólar foi impulsionado pelas declarações do presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, indicando um ciclo monetário mais apertado nos Estados Unidos. Os ruídos entre o presidente Jair Bolsonaro e o Supremo Tribunal Federal (STF) também ajudaram a elevar a moeda em 4% somente no dia 22.

 

Mesmo assim, o real se fortaleceu 16% no período. O ingresso de recursos externos fez a moeda americana atingir o R$ 4,609 no fechamento do dia 4 de abril, atingindo o menor nível desde o primeiro semestre 2020.

 

Paulo Holland e Pedro de Carvalho / Agência CMA

Edição: Dylan Della Pasqua (dylan@safras.com.br)

 

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