Mercado de ações busca recuperação em 2024 com cenário mais favorável a risco

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São Paulo – Depois de um ano sensível para a bolsa brasileira, o cenário tende a melhorar em 2024, apontam os analistas do mercado financeiro. Após um início de ano pessimista com a mudança de governo e o rombo bilionário da Americanas, que impactou o mercado de crédito, 2023 vai terminar com a inflação em queda e crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) acima do esperado, pontos que reforçam a tendência de um próximo exercício mais positivo para as ações locais.

A expectativa de início do ciclo de corte de juros nos Estados Unidos também anima os investidores e já começa a aumentar o fluxo de investimento estrangeiro para a B3. O potencial de crescimento é grande, já que, olhando para o histórico, a bolsa brasileira ainda está negociando abaixo das médias históricas.

Confira a seguir as análises sobre o desempenho das ações em 2023 e as perspectivas para este mercado em 2024:

Bruna Sene, analista da Nova Futura Investimentos, lembra que o mercado de renda variável sentiu fortemente a volatilidade durante esse ano e as ações passaram por um movimento de rotação setorial em um cenário desafiador, pressionado por discussões sobre juros e inflação no mundo, principalmente Estados Unidos, pela fraqueza da economia chinesa e pela questão fiscal brasileira.

Por outro lado, a Petrobras foi a estrela da B3 e se destacou como uma das maiores altas do Ibovespa em 2023, acumulando mais de 70% de valorização ao longo do ano. A companhia apresentou um desempenho mais consistente e navegou em uma tendência de alta que permeou todo 2023. No início do ano, havia preocupações quanto à possível interferência política na Petrobras, no entanto, essas apreensões foram atenuadas pelas novas políticas de preços e dividendos anunciadas, juntamente com a condução da nova gestão da companhia, que recebeu aprovação do mercado, afirma.

Ela avalia que a Petrobras ainda mantém a paridade internacional em sua política de preços, mas de forma menos volátil. Em relação aos dividendos, o que animou o mercado foi a manutenção de um percentual de distribuição de 45% e a opção pela distribuição trimestral.

Em fevereiro, apenas 11 ações encerraram em território positivo no Ibovespa. E o movimento inverso também se deu, quando a Vale se recuperava foi o momento de queda do setor de consumo. Agora é o período de maior apetite ao risco, a gente vê as ações metálicas e ligadas ao consumo subindo. Mas por muito tempo, a gente teve essas rotações, explica a analista.

As ações das empresas varejistas, parte de consumo cíclico da Bolsa, viveram altos e baixos ao longo do ano. Os setores financeiro e imobiliário também recuaram. O Ibovespa foi de 122 mil pontos no final de julho para mínima de 111 mil pontos em outubro, compensado pela Vale, que iniciou um movimento de recuperação com os estímulos à economia chinesa e o preço do minério de ferro em patamares elevados, favorecendo as margens da companhia.

A analista ressalta que, diante dessa volatilidade, cada mês tinha de adotar uma postura diferente para construir um portfólio. Em alguns meses a gente conseguiu adicionar um pouco mais de risco, colocar um pouco dos setores mais cíclicos e, em outros, teve de tirar essa parte mais cíclica e focar mais nas ações defensivas, como as metálicas, energia elétrica, seguro, comunicação. Foi um ano que a gente teve de fazer um vai e vem muitas vezes porque alguns setores específicos mudaram fortemente de direção e muitas vezes durante o ano, principalmente por conta das questões relacionadas aos juros.

Entre as ações que tiveram as maiores quedas de 2023 estão Casas Bahia, Minerva, Pão de Açúcar e Alpargatas. Já Petrobras, Yduqs, Ultrapar, CSN Mineração e Cyrela foram destaques positivos.

Para a analista da Nova Futura, é sempre importante acompanhar o timing específico de cada ação escolhida, ter um portfólio equilibrado e ajuste com o perfil de risco de cada investidor. Estamos em um momento de tendência de alta, rompendo o topo histórico, mas é sempre importante ter um pé no chão, ressalta.

Na sua avaliação, a Petrobras continua apresentando um valuation atrativo e esses eventos na gestão superaram as expectativas do mercado, mas a queda do petróleo pode impactar as ações da estatal daqui para frente. Eu teria mais cautela com o papel e pensaria em outras [ações] que podem surfar melhor o ambiente macro; não compraria Petrobras agora, mas, se tivesse Petro na carteira, manteria, pontua.

Outras ações que podem surfar em um movimento de recuperação em 2024 são Lojas Renner, entre as varejistas, as incorporadoras Cyrela, Ezetc, Direcional, Bradesco, Itaú e Banco do Brasil e BTG Pactual (financeiro), ações mais cíclicas, Vale, CSN e Usiminas. E para manter o portfólio equilibrado, manter papéis mais defensivos (como energia, saneamento e telecomunicações), com destaque para a Vivo.

Para Apolo Duarte, planejador financeiro CFP, sócio e head da mesa de renda variável da AVG Capital, o ano de 2023 foi marcado por extremos, com o investidor muito pessimista com o Brasil, reflexo do início do novo governo Lula e das incertezas globais. Mas, conforme o ano foi passando, o país foi avançando nas pautas políticas importantes, o controle da inflação começou a fazer efeito e as incertezas globais diminuíram.

“Durante o ano tivemos uma grande incerteza política em relação às pautas fiscais, que acabaram fechando melhor do que se esperava. Os resultados das empresas não foram bons durante boa parte do ano, muitas também influenciadas pelo cenário macro adverso com juros altos, crescimento fraco e alto grau de endividamento das famílias. Mas no fim do ano, vemos a maioria das empresas do Ibovespa performando muito bem”, comenta Duarte. Ele também credita a mudança do cenário na bolsa brasileira após o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) sinalizar que os EUA tinham chegado no topo da taxa de juros. O investidor externo esperou até a concretização desse fato para olhar para o mercado do Brasil, e o resultado é um Ibovespa ultrapassando os 131 mil pontos, destaca.

Para Apolo Duarte, planejador financeiro, sócio e head da mesa de renda variável da AVG Capital. Crédito: Divulgação.

“Olhando para o histórico da bolsa brasileira, ainda há um grande potencial de crescimento pela frente, pois ainda está negociando abaixo das médias históricas, mesmo após a alta recente. Então é razoável pensar que ela poderia pelo menos voltar para a média”, avalia o planejador financeiro da AVG Capital. Ele acredita que o momento pode ser o início de um novo ciclo de alta na bolsa, que é tão esperado faz alguns anos. Contudo, pondera Duarte, é importante manter o olhar no cenário externo, acompanhar a evolução dos resultados das empresas, cenário político/fiscal interno e o macro melhorar para que isso se concretize”, complementa.

Para 2024, o especialista da AVG Capital aponta que uma melhora do cenário interno e global pode beneficiar a maior parte das empresas. Até o setor de consumo, que ainda está muito aquém dos seus múltiplos históricos, pode ter uma retomada caso essas condições favoráveis se concretizem.

O estrategista-chefe da RB Investimentos, Gustavo Cruz, lembra que o desempenho da bolsa brasileira foi muito negativo ao longo de todo ano, mas houve uma melhora significativa no último bimestre seguindo o calendário de juros no Brasil e, principalmente, nos Estados Unidos. Ele ressaltou que boa parte dos setores conseguiu resultados positivos neste final de ano, com exceção do varejo, especialmente o online. Os destaques positivos ficaram com bancos, papel e celulose, boa parte dos frigoríficos, construção e educação.

Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos. Crédito: Divulgação.O setor de construção, por exemplo, foi impulsionado pela queda dos juros, além da retomada forte do programa Minha Casa, Minha Vida, com o aumento no subsídio do governo, redução da taxa de juros e alta no valor máximo do imóvel, para até R$ 350 mil, além da atualização nas faixas de renda. As empresas de educação também cresceram na esteira dos programas do governo federal, e os bancos trouxeram números mais controlados em suas taxas de inadimplência, especialmente no segundo semestre, diminuindo o endividamento e facilitando seus balanços, destaca Cruz.

O estrategista-chefe da RB ressalta que apesar do aumento tímido nos negócios neste fim de ano, o saldo em 2023 é negativo com o resgate de fundos de ações. Para 2024, ele acredita que o setor de educação e construção continuarão fortes e que o varejo deve reagir com a melhora da renda das famílias e com juros menores

A Warren Investimentos avalia que, depois de um ano sensível para a bolsa, o cenário tende a melhorar em 2024 impulsionada pelo cenário macroeconômico mais favorável. A gestora projeta que o Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, deve chegar a 136.784 pontos em junho e, ao final do ano, 143.294 pontos. Para 2025, a Warren prevê que o índice alcance 150.113 pontos.

Entre os setores para ficar de olho no ano que vem, a Warren indica: financeiro, varejo, construção civil, automotivo e frigoríficos. “Ações desses setores tendem a ganhar uma maior preferência em relação às de commodities”, comenta Frederico Nobre, Head de Análise de Investimentos da Warren.

“Vai dar para ‘pisar mais no acelerador’ com small caps e empresas de setores cíclicos que tendem a performar melhor”, acrescenta Nobre.

O baixo otimismo da Warren com relação às commodities tem um motivo específico: a China. O país é o maior importador global de commodities e vive uma desaceleração em sua economia. Com uma menor demanda, os preços dos ativos podem ser afetados.

Além da desaceleração chinesa, o investidor deve ficar de olho em outros dois fatores que podem impactar a bolsa: o aperto monetário dos EUA, ou seja, a manutenção da alta de juros por um período maior, e a possível piora do cenário fiscal brasileiro, capaz de desacelerar a de queda de juros.

Para Andre Fernandes, head de renda variável e sócio da A7 Capital, os setores que mais se destacaram em 2023 foram o financeiro e o de commodities. Apesar da confusão com a Americanas S.A, o setor financeiro se saiu bem em 2023. Com uma perspectiva de corte de juros no Brasil, que acaba deixando o custo do passivo dos bancos mais barato, e um aumento na demanda por crédito devido a uma taxa mais atraente, acredito que os grandes destaques foram Itaú e Banco do Brasil, que conseguiram manter uma boa rentabilidade em seus balanços e uma inadimplência controlada, comenta.

Já o setor de commodities chamou a atenção, segundo Fernandes, por conta de empresas de exploração de petróleo como Petrobrás e PRIO, que tiveram ótimos balanços: Anunciando recordes de produção de petróleo, o setor agro também se beneficiou com safras recordes, diz.

CMA Entrevista

No último programa de 2023, a editora de Empresas e Ações da Agência CMA conversou com João Daronco, analista da Suno Research, sobre investimento em ações da Bolsa brasileira. Ele fez um balanço de 2023 e comentou as perspectivas para 2024.

João Daronco, analista da Suno Research,

Veja a entrevista no link abaixo:

0:08 / 14:43 CMA Entrevista: Balanço de 2023 e perspectivas para o investimento em ações em 2023

Texto de Cynara Escobar, Emerson Lopes e Soraia Budaibes / Agência CMA

Edição: Cynara Escobar / Agência CMA

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