Galípolo faz ponte entre governo e Banco Central

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São Paulo- A primeira quinzena de maio ganhou mais um ingrediente na luta do governo contra a política monetária do Banco Central. A indicação do então secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Gabriel Galípolo, para assumir a diretoria de política monetária do BC mexeu com os mercados.

A escolha de Gabriel Galípolo para ocupar a diretoria de Política Monetária do Banco Central, mostra que governo tenta uma aproximação maior com o BC, desgastada ultimamente por críticas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva aos juros altos.

Para a economista-chefe da Veedha Investimentos, Camila Abdelmalack, a indicação de Galípolo já era algo esperado e precificado pelo mercado. Ela entende que, a princípio, o ex-secretário pode no máximo ser uma voz dissonante entre o colegiado do Copom. Além disso, a economista entende que a escolha de Galípolo para assumir a presidência do BC, ao final de 2024, é algo factível.

Abdelmalack, contudo, acredita que Galípolo pode ser um elemento apaziguador. “Ele pode até ser um interlocutor da necessidade de enfatizar a importância da meta de inflação no sentido que isso é que é o mecanismo para pautar as decisões sobre os juros”, avalia.

Independentemente de quem fosse nomeado, a economista da Veedha considera que os juros não começariam a sofrer cortes ainda neste semestre, já que a inflação não está totalmente ancorada. “A indicação do Galípolo não é condição suficiente para um corte de juros”, opina.

“O Galípolo é a ponte que o governo está tentando montar com o Banco Central, ele vem com essa agenda de deixar mais clara para dentro do BC as percepções que o governo tem em relação à política monetária e política fiscal”, disse Luciano Costa, economista-chefe e sócio da Monte Bravo Investimentos.

Mas, em um primeiro momento com a atual estrutura do Comitê de Política Monetária (COPOM), Galípolo pode ser uma voz dissonante dentro da instituição.

“A gente imagina que o Galípolo vai se inserir como uma voz que possa destoar do consenso do Comitê, ele não vai ter ainda condições de mudar as decisões porque a maioria faz parte do corpo do Banco Central que era antes dessas nomeações. No curto prazo deve expressar bastante a percepção do governo, mas os efeitos de uma mudança de postura rápida do BC são minimizados até pelo tamanho do Comitê e pelo corpo técnico que é muito robusto; eles [os membros do BC] não aceitariam uma intervenção tão clara”, afirmou.

Nem mesmo a tão esperada redução na taxa básica de juros (Selic) pode vir com a nomeação do novo diretor de Política Monetária. “Não podemos vislumbrar corte de juros na próxima reunião [20 e 21 de junho], são dois novos diretores [Gabriel Galípolo e Aílton Aquino, para diretoria de Fiscalização], ainda não vão ser maioria dentro do comitê, provavelmente vão trazer aspectos novos para a decisão e, isso vai ficar expresso em comentários e vão começar a aparecer dentro do statement (documento). O consenso vai ser pela política econômica que está sendo feita agora”, reforçou o economista-chefe da Monte Bravo Investimentos.

Tanto Galípolo quanto Aquino devem passar por sabatina na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado (CAE), antes de assumirem o cargo, o que pode acontecer antes da próxima reunião do Copom.

O atual secretário-executivo do Ministério da Fazenda e braço direito do ministro da pasta, Fernando Haddad, é mestre em Economia Política pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e já trabalhou no setor público e privado. E, segundo Haddad, foi Roberto Campos Neto quem mencionou pela primeira vez o nome de Galípolo para o Banco Central. O economista-chefe e sócio da Monte Bravo Investimentos ressaltou que Campos Neto “estaria favorável a eventual entrada dele [para a diretoria de Política Monetária], Galípolo tem um perfil mais moderado e capacidade para assumir o cargo dada toda a experiência pregressa no mercado financeiro”.

Apesar de ser conhecido pelo mercado financeiro, foi presidente do Banco Fator entre 2017 e 2021, a escolha de Galípolo não soou bem, principalmente, no mercado de juros e câmbio. Na segunda-feira (8), dia da indicação, aumentou a inclinação da curva de juros futuros e o dólar subiu.

“O mercado vê a entrada de Galípolo como um aumento de interferência no BC e de incerteza”, disse o economista-chefe da Monte Bravo Investimentos. A postura do Banco Central deve ser observada ao longo do tempo, mas ele acredita que a mudança maior virá com as outras trocas. O governo ainda pode indicar mais dois nomes até 31 de dezembro que substituirão Fernanda Guardado, diretora de Assuntos Internacionais e de Gestão de Riscos Corporativos e de Mauricio Moura, diretor de Relacionamento, Cidadania e Supervisão de Conduta, além de outros dois no próximo ano, incluindo o presidente do BC].

A indicação de Galípolo a uma diretoria do BC posiciona o número dois da Fazenda como um potencial sucessor de Campos Neto. “Ele pode pleitear o posto de presidente do Banco Central até pela importância com que veio para este governo e tem notícias de que o próprio Campos Neto estaria a favor; ele tem formação e background”, enfatizou.

 

Com Paulo Holland e edição de Dylan Della Pasqua/ Agência CMA