Fed deve manter juros estáveis por anos antes de voltar a elevar taxa

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Por Cristiana Euclydes

São Paulo – O Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) deve manter a taxa básica de juros do país inalterada na faixa entre 1,50% e 1,75% na próxima reunião de política monetária e pelos próximos anos, e o passo seguinte será uma alta, de acordo com analistas consultados pela Agência CMA.

Prédio do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) em Washington. Foto: Divulgação/ Federal Reserve

Em outubro, o comitê de política monetária do Fed cortou a taxa de juros pela terceira vez este ano, citando “implicações dos desenvolvimentos globais para as perspectivas econômicas e das pressões inflacionárias reduzidas”, mas sinalizou que deve mantê-las inalteradas daqui para frente.

O presidente do Fed, Jerome, Powell, disse em coletiva de imprensa após a decisão que a atual postura de política monetária é apropriada, ainda que não siga um curso predeterminado, e que o banco central pode agir caso ocorra uma mudança no cenário. Outras autoridades do Fed repetiram a mensagem depois da reunião.

Para o economista da Capital Economics, Michael Pearce, comentários sobre a posição adequada da política monetária e a redução nos riscos à economia norte-americana devem levar o Fed a manter os juros inalterados por pelo menos até o final de 2021.

“A linguagem menos dovish [propensa ao afrouxamento monetário] do Fed, contra um cenário de diminuição de riscos, é o motivo pelo qual pensamos que o Fed acabou de cortar as taxas de juros”, disse Pearce.

Segundo o economista da Capital Economics, “o Fed não vai querer repetir o erro de aumentar as taxas prematuramente, principalmente em um ano eleitoral, mesmo que a taxa de inflação retorne à meta mais rapidamente do que o esperado”. As eleições presidenciais norte-americanas estão marcadas para novembro de 2020.

Da mesma forma, o estrategista sênior do Rabobank, Phillip Marey, não espera novos cortes de juros tão cedo. Segundo ele, o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) deixou claro que a política monetária está bem calibrada após os três cortes preventivos para evitar riscos causados pela desaceleração da economia global fraco, incertezas comerciais e inflação fraca.

Marey destacou que a ata da reunião de outubro do Fomc “mostrou que será necessária uma reavaliação material das perspectivas econômicas para mudar a visão do Fed”. Além disso, na reunião que começa hoje, o Fomc deve atualizar seu gráfico de pontos, uma compilação das previsões de cada membro para a taxa de juros, que não projetou o corte de juros de outubro.

Os analistas do UBS também esperam que o Fed mantenha os juros nesta reunião, e preveem que o gráfico de pontos mostre que a mediana da taxa de juros permanecerá no nível atual até 2020, ainda que entre cinco e sete membros do Fomc esperem de uma a três altas no ano que vem.

Para 2021, segundo o banco, é provável que Powell deseje manter as taxas constantes e terá a maioria dos presidentes das unidades do Fed com ele. Ainda assim, “nossa expectativa é que esses pontos fiquem aquém de uma mediana, implicando um aumento da taxa em 2021. Acreditamos que os pontos implicarão outro aumento da taxa em 2022”.

Com relação ao comunicado de política monetária, os analistas do UBS esperam revisões mínimas na linguagem. “Esperamos que o comunicado se esforce para reforçar a noção de que a política está suspensa por enquanto”, concluíram.

ECONOMIA E INFLAÇÃO

A reunião do Fomc desta semana também trará as projeções dos membros para o crescimento da economia norte-americana, para a taxa de inflação e desemprego para os próximos anos. Segundo os analistas consultados pela CMA, os riscos às perspectivas econômicas estão diminuindo.

“É verdade que as perspectivas de um acordo comercial da primeira fase com a China diminuíram nos últimos dias, mas ainda parece mais provável do que não que as tarifas sobre o restante das importações da China, programadas para serem impostas em algumas semanas, sejam adiadas”, disse Pearce, da Capital Economics.

Segundo ele, as chances de que a economia norte-americana entre em recessão nos próximos 12 meses caíram para 10%, ante um pico de mais de 20% há alguns meses, de acordo com um modelo da Capital Economics. “Uma ressalva aqui é que, se as negociações comerciais desmoronarem completamente e as tarifas subirem, essa probabilidade deve começar a subir novamente”.

Já os analistas do UBS afirmaram, em relatório, contar com um pouco de cautela residual para a economia no curto prazo. “Acreditamos que Powell vá reiterar que os ganhos contínuos de emprego e os gastos dos consumidores apoiam a economia, ao mesmo tempo em que reconheça que cresceram os riscos de gastos fracos em investimentos e crescimento global”.

Segundo eles, “o Fomc provavelmente projeta uma expansão de quase 2% no próximo ano e não antecipa cortes de juros”. Por fim, os analistas preveem que, até 2022, o Fomc acreditará que um mercado de trabalho cada vez mais aquecido não apenas manterá a inflação persistentemente na meta de 2% ao ano, mas começará a pressioná-la acima desse objetivo.

IOER

O Fed pode considerar uma alta na taxa de juros sobre o excesso de reservas (IOER, na sigla em inglês) na reunião desta semana, uma vez que a taxa efetiva de juros está na parte inferior da meta e próxima da IOER, de acordo com Marey, do Rabobank. O Fomc cortou a IOER de 1,8% para 1,55% em outubro.

“Para que a taxa efetiva de juros volte ao ponto médio do intervalo da meta (1,625%), a IOER deve ser elevada em aproximadamente 0,075 pp. Portanto, um aumento técnico entre 0,05 pp e 0,10 pp na taxa IOER faria o truque”, e lavaria a taxa de 1,55% para 1,60% ou 1,65%, explicou o estrategista.

Segundo ele, com uma alta de 0,10 pp, “o Fed anteciparia uma pressão descendente adicional sobre a taxa efetiva de juros proveniente da contínua expansão do balanço”.

Marey explicou que, anteriormente, a redução do balanço de ativos do Fed desempenhou um papel importante no aumento da taxa efetiva de juros dentro da meta. Agora, porém, que o Fed está expandindo seu balanço novamente para estabilizar o mercado de recompra, o contrário está acontecendo.

Segundo analistas do UBS, “dada a intensificação das operações compromissadas e as compras em andamento das letras do Tesouro, Powell terá que falar dos problemas do mercado monetário. Achamos que ele adotará um tom confiante, enquanto afirma que o Fed continua atento ao mercado”.

Eles acrescentaram que Powell não deve abordar a possibilidade da instalação de operações compromissadas permanentes. “Mas, se questionado diretamente, ele provavelmente dirá que eles estão prestando atenção e considerando todas as opções”.