Cautela dita ritmo dos mercados com medo fiscal e dados externos

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São Paulo – O Ibovespa fechou em leve alta de 0,05%, aos 101.521,29 pontos, com investidores ainda preocupados com a questão fiscal, apesar da manutenção do veto presidencial que impede reajustes a servidores públicos até 2021. O índice também refletiu as perdas de ações ligadas a commodities, como as siderúrgicas, enquanto, no exterior, o mercado segue avaliando o ritmo da recuperação global após indicadores de atividade divulgados.

O volume total negociado foi de R$ 24,2 bilhões. Com o resultado de hoje, o índice encerrou a semana com avanço de 0,16%, depois de forte volatilidade com ruídos políticos e receio de descumprimento do teto de gastos.

A Câmara dos Deputados reverteu a decisão do Senado e manteve o veto presidencial sobre o reajuste salarial dos servidores públicos em 2021, o que trouxe alívio para o mercado, com a Bolsa já mostrando melhora no final do pregão de ontem. Porém, o mercado segue cauteloso monitorando outros riscos de descumprimento do teto de gastos e a capacidade de articulação política do governo.

“Por mais que o Guedes [Paulo, ministro da Economia] e o próprio Bolsonaro [Jair, presidente] tenham reforçado o compromisso fiscal, o mercado não está acreditando e depois da derrota do veto no Senado, não dá para confiar 100% de que reformas e outras questões vão passar no Congresso”, disse o diretor de investimentos da SRM Asset, Vicente Matheus Zuffo.

Além do receio fiscal, a desvalorização dos preços de commodities como o minério de ferro e petróleo também pesam sobre o Ibovespa hoje, já que refletem em ações com grande participação no índice. É o caso da Gerdau (GGBR4 -2,91%) e da CSN (CSNA3 -2,23%), que ficaram entre as maiores perdas do Ibovespa.

No exterior, as Bolsas norte-americanas fecharam em leve alta e mostram resiliência após os índices dos gerentes de compras (PMIs, na sigla em inglês) sobre a atividade industrial e de serviços virem melhores do que o esperado pelo mercado. Na Europa, por sua vez, os mercados acionários encerraram em queda após PMIs fracos na zona do euro e em meio ao aumento de casos de coronavírus em algumas regiões.

Para a próxima semana, o analista da Mirae Asset, Pedro Galdi, destaca que o mercado deve ficar atento à agenda econômica, que terá como destaques o Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre dos Estados Unidos e da Alemanha e indicadores domésticos de inflação.

“A expectativa de entendimento entre republicanos e democratas para o novo pacote de estímulo também ficará no radar. Temos que ficar de olho no avanço do covid-19 no mundo, que se mostra um fator de grande preocupação para a retomada da economia mundial. Qualquer informe sobre estes temas terá força para influenciar o mercado financeiro global”, alertou ainda em relatório.

O dólar comercial resistiu mais um dia de leilão da moeda no mercado à vista e encerrou a sessão em alta de 0,91%, negociado a R$ 5,6080 para venda. A cautela do investidor predominou nesta sexta-feira, após dados econômicos globais mais fracos que o previsto por analistas, principalmente na Europa.

“Quando vemos dados negativos na Europa e Estados Unidos não tem como não pensar ‘lá que as economias se recuperam mais rapidamente estão patinando, imagina só o que virá para o Brasil’ e isso tira o humor de qualquer investidor. Para piorar, aqui estamos passando ainda por um momento de crise política”, explicou um operador de câmbio de uma grande corretora.

Hoje, Banco Central (BC) colocou no mercado US$ 650,0 milhões no leilão de dólar à vista realizado entre 12h55 e 13h00. A taxa de corte na operação foi de 5,5930 e foram aceitas 10 propostas. A data de liquidação da operação será 25 de agosto. “Essa operação teve efeito bem pequeno sob o preço do dólar”, acrescentou o operado de câmbio.

Em relatório, o analista da Mirae Asset Corretora, Pedro Galdi, destacou que os mercados refletem os índices PMI divulgados pela manhã mais fracos, como o PMI composto de agosto em 51,6, contra 54,9 no mês anterior e projeções de 54,7. Já o PMI serviços ficou em 50,1 (previsão 54,6) e o PMI indústria em 51,7 (previsão 53,0), que servem de alerta para as dificuldades de retomada da economia na região.

“Aqui a Câmara manteve ontem o apoio ao governo do veto ao reajuste de salário para servidores e deve influenciar positivamente”, explicou o especialista.

As taxas dos contratos de juros futuros (DIs) encerraram a sessão com leves oscilações e sem um viés definido, após passar boa parte da sessão sendo negociadas entre margens estreitas. A movimentação limitada na curva a termo reflete a cautela dos investidores com o cenário político local, apesar da vitória do governo na Câmara, que manteve o veto presidencial sobre o reajuste dos servidores públicos, com o desconforto com a questão fiscal no Brasil inibindo os negócios.

Ao final da sessão regular, o DI para janeiro de 2022 tinha taxa de 2,80%, de 2,79% no ajuste anterior; o DI para janeiro de 2023 projetava taxa de 3,96%, de 3,99% após o ajuste ontem; o DI para janeiro de 2025 estava em 5,76%, de 5,80%; e o DI para janeiro de 2027 tinha taxa de 6,79%, de 6,82%, na mesma comparação.

Mais uma vez coube às gigantes de tecnologia a tarefa de impulsionar Wall Street nesta sexta-feira, com S&P 500 e Nasdaq renovando máximas no fechamento com os fortes ganhos da Apple. Os índices do mercado de ações norte-americano também receberam algum fôlego de indicadores, o que ajudou no encerramento da semana em tom mais positivo.

Confira abaixo a variação e a pontuação dos principais índices de ações dos Estados Unidos no fechamento:

Dow Jones: +0,69%, 27.930,33 pontos

Nasdaq Composto: +0,42%, 11.311,80 pontos

S&P 500: +0,34%, 3.397,16 pontos