Bolsa recua e dólar sobe sob efeito de payroll e falas de Haddad

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Mercado Gráfico Percentual
Foto: Svilen Milev / freeimages.com

São Paulo -A Bolsa fechou em queda em um dia de forte aversão ao risco na combinação de um relatório de emprego nos Estados Unidos (payroll, sigla em inglês) frustrante e a piora veio com as falas do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, sobre a publicação do decreto que regulamenta a alteração da meta de inflação, e sobre a Medida Provisória (MP) do PIS/Cofins. Na semana, Ibovespa caiu 1,09%.

A meta de inflação passa do modelo ano-calendário para meta contínua. Em relação à MP, o ministro disse que a resistência da indústria é “calor do momento”.

Mais cedo, nos Estados Unidos foram criadas 272 mil vagas de trabalho em maio contra expectativa de 185 mil. O salário médio por hora trabalhada sobe 4,1% em maio em base anual e o mercado previa +3,9%, e em maio cresceu 0,4% e o mercado previa alta de 0,3%.

Já a taxa de desemprego subiu 4% no mês passado contra a previsão dos analistas de 3,9%. Em abril, a abertura de vagas foi revisada de 175 mil para 165 mil.

O principal índice da B3 caiu 1,73%, aos 120.767,19 pontos. O Ibovespa futuro com vencimento em junho perdeu 1,87%, aos 120.810 pontos. O giro financeiro foi de R$ 21,6 bilhões. Em Nova York, as bolsas fecharam em queda.

Nicolas Farto, sócio e head de renda variável da Vértiq Invest, disse que o mercado não gostou das falas do ministro da Fazenda sobre meta fiscal.

“Na realidade, não vejo nada de diferente na declaração do Haddad [disse que o governo vai publicar agora em junho o decreto da meta de inflação contínua] do que já tinha dito. Pode ser que o tom que está falando não tenha pegado bem, ainda mais com o payroll frustrando”.

Rodrigo Moliterno, head de renda variável da Veedha, disse o mau humor acentuado no mercado é devido às falas do ministro da Fazenda, Fernando Haddad.

“O payroll pela manhã desestabilizou um pouco o mercado, mas depois começou a entender que precisava encontrar outros drives para olhar em relação aos juros lá fora. Mas agora à tarde, em coletiva, o Haddad [ministro da Fazenda, Fernando Haddad] começou a falar sobre a MP do PIS/Cofins, que desde terça-feira já vem incomodando muito o mercado, principalmente alguns setores como de proteína, exportadores, óleo e gás. Disse que o mercado tem que entender que a gente precisa de recursos. O governo tenta arrecadar de qq forma e vai aumentando o rombo fiscal”.

Rafael Schmidt, sócio da One Investimentos, o dado do payroll impactou negativamente aqui e a chance de corte de juros pelo Fed ficou para o final do ano.

“O mercado reagiu negativamente ao dado do payroll acima do esperado. A expectativa era que viesse abaixo por conta dos outros dados de emprego divulgados esta semana, como Jolts e ADP. O mercado estava mais propenso a risco depois de ontem com o corte de juros pelo banco central europeu (BCE) e do Canadá. Mas quando olhamos os dados, os salários aumentaram e por outro lado o desemprego subiu, o que mostra que o mercado de trabalho não está tão pujante assim. Não necessariamente um payroll muito abaixo da expectativa teria sido positivo porque mostra um enfraquecimento da economia, risco maior de recessão. A combinação de geração de emprego e dado de inflação abaixo do esperado, o peso para o Fed fica na inflação. A probabilidade de corte de juros em setembro ficou pra trás, deve ser novembro ou dezembro”.

O sócio da One Investimentos citou dado do payroll reflete nas empresas de crescimento listadas na Bolsa. O Indice Small caps cai mais que o Ibovespa.

Ubirajara Silva, gestor de renda variável independente, disse que o número mais forte do payroll que o mercado esperava gerou uma reação bem negativa nos mercados.

“O mercado norte-americano estava precificando duas reduções [de juros] e já não precifica nenhum corte antes de dezembro, isso provou uma reação negativa aqui e o Ibovespa está devolvendo praticamente toda a alta de ontem. Vemos a treasury subindo e os DIs acompanhando o movimento. O número assustou bastante os investidores e o Brasil que já vinha em um cenário mais sensível acaba sofrendo mais que os países desenvolvidos. O mercado está bem under em Brasil, os gringos estão vendendo de forma bem agressiva no mês e ano”.

O dólar fechou em alta de 1,43%, cotado a R$ 5,2349. A moeda começou a subir após a divulgação do payroll, no início da manhã, e o movimento ganhou ainda mais força após as falas do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, sobre a medida provisória (MP) do PIS/Cofins.

Rodrigo Moliterno, head de renda variável da Veedha, disse que o mau humor acentuado no mercado é devido “às falas do Haddad sobre a MP do PIS/Cofins, já estava um mal estar na terça-feira e hoje tentou arrumar e só piorou. Isso só mostra que esse governo não tem uma política e vai aumentando o rombo fiscal”.

O sócio da Pronto! Invest Vanei Nagem, entende que o patamar do dólar, a curto prazo, deve ficar entre R$ 5,25 e R$ 5,30, além de ver que as chances de dois cortes nos juros estadunidenses, em 2024, cada vez menores.

Nicolas Borsoi, economista-chefe da Nova Futura Investimentos, disse que há divergências dentro do relatório de emprego dos Estados Unidos e a probabilidade dé de cortar juros só em dezembro.

“Há três meses o payroll dá argumentos para os dois lados, criação de empregos favorece a visão que mercado de trabalho está aquecido e que o Fed não vai conseguir cortar [os juros] como o mercado espera, por outro lado a gente olha a taxa de desemprego está em alta, mas o mercado reduziu a probabilidade de mais cortes em 2024. Os salários voltaram a subir e gente tem uma discussão pro Fed hoje que é o quanto o mercado de trabalho contamina o salário e a inflação. Nos últimos meses os salários estavam tranquilos e dessa vez não aconteceu. O que importa mais é o salário. Com este payroll, o Fed só deve cortar no final do ano”.

O relatório de emprego (payroll) mostrou que foram criadas 272 mil vagas em maio ante projeções de 185 mil, enquanto o salário médio por hora saltou 4,1%, acima das projeções de +3,9%. O desemprego, contudo, ficou levemente abaixo do esperado (4,0% ante expectativas de 3,9%).

Para o analista da Potenza Capital Bruno Komura, “o número veio bem forte, e mostra o mercado de trabalho aquecido, apesar do desemprego. Isso jogou um balde de água fria”.

Komura, porém, entende que um corte dos juros nos Estados Unidos, em 2024, ainda segue no radar do mercado.

As taxas dos contratos futuros de Depósitos Interfinanceiros (DIs) fecham em firme alta, seguindo os Treasuries (títulos do Tesouro norte-americano) que reagiram aos dados de emprego dos Estados Unidos divulgados pela manhã, bem acima do esperado pelos analistas – e trazendo mais demanda para os títulos da dívida norte-americana.

Por volta das 16h40 (horário de Brasília), o DI para janeiro de 2025 tinha taxa de 10,555%, de 10,455% no ajuste anterior; o DI para janeiro de 2026 projetava taxa de 11,175% de 10,875%, o DI para janeiro de 2027 ia a 11,540%, de 11,195%, e o DI para janeiro de 2028 com taxa de 11,780% de 11,550 na mesma comparação.

Os principais índices do mercado de ações dos Estados Unidos fecharam o pregão ligeiramente em queda, ainda que registrassem ganhos semanais, após o relatório em maio mostrar um crescimento de contratação muito mais forte do que o esperado.

Confira abaixo a variação e a pontuação dos índices de ações dos Estados Unidos após o fechamento:

Dow Jones: -0,19%, 38.810,85 pontos
Nasdaq 100: -0,23%, 17.133,13 pontos
S&P 500: -0,11%, 5.347,03 pontos

 

Com Paulo Holland, e Camila Brunelli e Darlan de Azevedo / Agência Safras News