Bolsa fecha em queda refletindo resiliência da economia americana e peso das blue chips; dólar recua

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Mercado Gráfico Percentual
Foto: Svilen Milev / freeimages.com

São Paulo- A Bolsa fechou em queda de mais de 1%, no patamar dos 131 mil pontos, com a percepção do mercado de que os dados mais fortes do mercado de trabalho nos Estados Unidos possam influenciar nas expectativas de corte de juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano).

O recuo das ações da Vale, Petrobras e bancos, todos de peso relevante no índice, favoreceu o movimento negativo.

A Vale (VALE3), ação com peso de mais de 14% do índice, caiu 1,34%. Petrobras (PETR3 e PETR4) que passou boa parte da sessão em alta, fechou em queda (ON, -1,62% e PN, -0,84%) e bancos caíram em bloco.

Os destaques de alta ficaram para Assai (ON,+2,08% ); Braskem (BRKM5 +0,82%) e Ambev (ON, +0,36% ).

“O Assai trata-se de um ajuste de posição, é uma companhia com grande perspectiva de crescimento. Braskem já tinha caído demais e está se recuperando, com uma questão muito atrelada a Maceió. Mas as coisas já estão sendo solucionadas. E, a Ambev é uma empresa resiliente nesses sentidos de queda, então há uma movimentação também positiva e está em um preço convidativo para a compra”, disse Dierson Richetti, especialista em mercado de capitais e sócio da GT Capital.

Em relação às quedas do índice, as ações que mais sofreram foram as dos segmentos de varejo e construção com a alta dos juros.

“Alpagartas (PN, -6,46%), MRV (ON, – 6,12%), Pão de Açúcar (ON, -3,88%), Casas Bahia (ON, -5,56%) e Soma (ON,-3,18%) são empresas que estão correlacionadas e sofrem com juros altos. A MRV e as construtoras caíram muito numa tendência dessa desaceleração da economia. A gente está num ciclo de baixa de juros e isso favorece as construtoras. Mas o PMI de serviços [recuou 50,5 em dezembro, menor patamar dos últimos três meses, após atingir 51,2 pontos em novembro] mostrou que está havendo uma desaceleração”, disse o especialista em mercado de capitais e sócio da GT Capital.

O segmento de vestuário também foi penalizado pelo fim do programa de desoneração da folha de pagamentos dos setores têxteis e de confecções, disse Alexsandro Nishimura, economista e sócio da Nomos.

Mais cedo, os Estados Unidos criaram 164 mil vagas em dezembro no setor privado enquanto o mercado previa 130 mil postos de trabalho. Os dados são do relatório da Authomatic Data Processing (ADP). Os números mostram que o mercado de trabalho ainda está aquecido.

Os pedidos de seguro-desemprego nos Estados Unidos caíram 18 mil, para 202 mil na semana encerrada em 30 de dezembro, após ter alcançado 220 mil na semana anterior (dado revisado), segundo estatísticas do Departamento do Trabalho ajustadas por fatores sazonais. Os analistas previam 219 mil solicitações.

O índice dos gerentes de compras de serviços (PMI, sigla em inglês) dos Estados Unidos subiu 51,4 pontos contra previsão de 51,3 pontos.

O principal índice da B3 caiu 1,21%, aos 131.225.91 pontos. O Ibovespa futuro de vencimento em fevereiro perdeu 1,46%, aos 132.590 pontos. O giro financeiro foi de R$ 21,5 bilhões. Em Nova York, os índices fecharam mistos.

Felipe Leão, especialista da Valor Investimentos, disse que a bolsa sente o peso do cenário com os dados mais fortes nos Estados Unidos e alta das treasuries.

“O ADP e o PMI de serviços vieram acima do esperado e a queda dos pedidos de auxílio-desemprego pressionam as bolsas, os títulos do Tesouro norte-americano de 2 e 10 anos chegaram a bater as máximas com a percepção que o Fed pode demorar mais em baixar os juros destaque para Petrobras que acompanhando a cotação do petróleo, após mostrar um salto nos estoques de gasolina dos EUA[ caíram em 5,5 milhões de barris de petróleo contra previsão de queda de 2,7 milhões]; Vale recuando e exerce forte pressão no Ibovespa”.

Segundo Helder Wakabayashi, analista da Toro Investimentos, apesar dos dados mais fortes nos Estados Unidos “não sinaliza uma piora do cenário. Depois de fortes altas, hoje pode ser um dia em que o mercado realizou um pouco desses lucros. Avalio dessa forma porque o dólar caiu. Vale, Petrobras e bancos tiveram peso para a queda, todos estavam com movimento recente de alta forte”.

Diego Faust, operador de renda variável da Manchester Investimentos, disse que a queda do Ibovespa está relacionada ao exterior.

“Os dados do mercado de trabalho nos Estados Unidos mostraram resiliência-o relatório ADP veio com força e os pedidos de seguro-desemprego abaixo do esperado; ontem a ata do Fed deu uma certa segurada na euforia do mercado que apostava que o corte nas taxas começaria em março, na bolsa de Chicago foi reduzida a expectativa de 90% para 70% a chance de isso acontecer em março; o documento mostrou que o Fed vai ficar na dependência de dados para tomar decisões”.

O dólar comercial fechou em queda de 0,17%, cotado a R$ 4,9063. A moeda refletiu, ao longo da sessão, os dados norte-americanos divulgados pela manhã. As atenções, contudo, estão voltadas para o payroll de dezembro, um dos principais termômetros do emprego nos Estados Unidos.

Para o sócio da Ethimos Investimentos Lucas Brigato, “depois de um início de pregão indicando dólar pra cima, moeda se acomodou e opera no negativo. Apesar do ADP bem acima, a inflação vem se mantendo controlada, o que deixa o cenário menos difícil. Tudo indica que o maior impacto seja amanhã mesmo, com payroll”.

O relatório mostrou a criação de 164 mil vagas em dezembro ante projeções de 130 mil. Já o pedido de seguro-desemprego caíram a 202 mil no mesmo período, abaixo das projeções de 219 mil.

Brigato entende que os indicadores de hoje mostram que o payroll pode vir acima das expectativas, indicando a permanência de juros altos por mais tempo, e esfria a expectativa de que os cortes comecem em março: “O dólar até que está comportado, a bolsa que sentiu mais”, opina.

As taxas dos contratos futuros de Depósitos Interfinanceiros (DI) fecham em alta, seguindo os Treasuries (títulos do Tesouro norte-americano). O movimento é motivado tanto pela ata da última reunião do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) divulgada ontem, quanto pelos dados fortes da economia norte- americana de hoje de manhã. Ambos sinalizam que a probabilidade de cortes das taxas em março é menor. Os investidores ainda aguardam pelo resultado do Payroll, amanhã.

O DI para janeiro de 2025 tinha taxa de 10,050% de 10,030% no ajuste anterior; o DI para janeiro de 2026 projetava taxa de 9,685% de 9,640%, o DI para janeiro de 2027 ia a 9,805%, de 9,760%, e o DI para janeiro de 2028 com taxa de 10,040% de 9,980% na mesma comparação.

Os principais índices de ações do mercado dos Estados Unidos fecharam o pregão em campo misto, com Wall Street com dificuldades se recuperar da queda no início do ano em meio às incertezas sobre os próximos passos do Federal Reserve (Fed, o banco central americano).

Confira abaixo a variação e a pontuação dos índices de ações dos Estados Unidos após o fechamento:

Dow Jones: +0,03%, 37.440,34 pontos
Nasdaq 100: -0,56%, 14.510,3 pontos
S&P 500: -0,34%, 4.688,68 pontos

 

Com Paulo Holland, Camila Brunelli e Darlan de Azevedo / Agência CMA