Bolsa cai com impacto da quebra de banco nos EUA e payroll e IPCA acima do esperado; dólar dispara

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São Paulo – Em uma sessão bastante movimentada, a Bolsa fechou seguindo o pessimismo em Nova York com os investidores refletindo a quebra do Silicon Valley Bank (SVB)-banco fornecedor de crédito para startups- e o temor da contaminação global. As ações do setor bancário caíram forte por aqui.

Somado a isso, o relatório de emprego (payroll, sigla em inglês) dos Estados Unidos de fevereiro mostrou dados mistos e, por aqui, a inflação medida pelo Indice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de fevereiro ficou acima das expectativas do mercado. Lá fora, paira a dúvida se o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) seguirá duro na próxima reunião dos dias 21 e 22, ainda falta a divulgação da inflação ao consumidor na semana que vem, na terça-feira (14). E aqui ficam as incertezas em relação à redução da Selic no curto prazo.

Outro ponto importante na sessão de hoje foi o anúncio feito pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, de um acordo que o governo fechou de R$ 26,9 bilhões com os estados para repor as perdas com ICMS.

As ações do Bradesco (BBDC4 e BBDC3) caíram 2,63% e 2,86%; Itaú (ITUB4) cedeu 2,39% e Santander (SANB11) registrou queda de 1,80%. Os papéis da Arezzo (ARZZ3) e Via (VIIA3) perderam 11,58% e 6,18%

O principal índice da B3 caiu 1,38%, aos 103.618,20 pontos. O Ibovespa futuro perdia 1,28%, aos 104.530 pontos. O giro financeiro era de R$ 24,4 bilhões. Na semana, o índice fechou em queda de 0,24%. Em Nova York, as bolsas operavam em baixa.

As ações do Bradesco (BBDC3 e BBDC4) caíam 2,88% e 3,22%. Itaú (ITUB4) perdia 2,91% e Santander (SANB11) tinha queda de 1,80%.

Felipe Leão, especialista da Valor Investimentos, disse que a Bolsa cai forte refletindo o mau humor das bolsas em Nova York. “O mercado piorou bastante lá fora com a declaração insolvência e quebra do [banco] Silicon Valley Bank (SVB) que precisava de um aumento de capital US$ 2 bilhões para cumprir suas obrigações e o FDIC [instituição que fornece garantia de depósitos para o mercado financeiro, corresponde aqui ao FGC-fundo garantidor de crédito] assumiu as operações do banco e isso contamina os outros mercados e o Ibovespa sentiu; apenas duas ações estão positivas existe uma preocupação no mercado de crédito depois da insolvência”.

Mais cedo, foi divulgado o Indice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que subiu 0,84% e a previsão era de 0,78%. Nos Estados Unidos, foram criadas 311 mil vagas de emprego em fevereiro e o mercado previa 200 mil postos de trabalho. Já a taxa de desemprego subiu 3,6% e os analistas esperavam 3,4%. O salário médio por hora no setor privado registrou alta de 0,24%.

Felipe Moura, sócio e gestor da Finacap, disse que o payroll “veio acima do esperado e reforça o discurso do Powell que vai ter mais elevações nos juros americanos e cenário de recessão vem ganhando cada vez mais corpo nas projeções dos investidores. O IPCA veio levemente acima, com um efeito sazonal em gastos em educação, mas nota trajetória de menos volatilidade. Aqui caminha para redução de juros e traz alívio para a Bolsa, principalmente as ações mais alavancadas que têm encargos com dívida muito elevada”.

Nicolas Farto, sócio e head de renda variável da Vértiq Invest, comentou que “apesar de o payroll ter vindo acima do esperado, veio com desaceleração se comparado com a última leitura em janeiro de 500 mil vagas, taxa de desemprego aumentou e ajuda, porque o mercado de trabalho está em queda e o custo do trabalhador suavizou; a interpretação está sendo mais positiva e as apostas para ao aumento de juros voltaram para 0,25 pp. Mas vamos ter outros indicadores para avaliarmos antes da reunião do Fed.”

Matheus Spiess, analista da Empiricus, disse que o dia é ruim para o Ibovespa com o IPCA acima do esperado “faz os juros futuros voltarem a subir e as cíclicas domésticas caírem; a Via e Arezzo reportaram resultado que não agradaram o mercado e Magalu surfando a questão negativa nos juros; os dados do payroll vieram mistos com a geração de emprego melhor, mas a taxa de desemprego veio pior e os ganhos salariais também, sem grande definição, o que deixa o mercado de olho no CPI [inflação ao consumidor] da semana que vem”.

Fabrizio Velloni, economista-chefe da Frente Corretora, disse que “o payroll veio alto alto, mas vem demostrando desaceleração, tanto que as bolsas estão subindo nos Estados Unidos, mas aqui, o Ibovespa aqui pressionado pelo IPCA acelerado, corta por vez a ideia de ter redução de juros. O segmento de serviços puxando forte, principalmente educação. Vemos empresas ligadas a crédito, como as varejistas, trabalhando com a realidade de juros mais forte.”

O dólar comercial fechou em alta de 1,32%, cotado a R$ 5,2080. Isso é reflexo do temor do mercado que o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) aperte o ciclo contracionista, possibilidade que ganhou força após a divulgação do payroll (folha de pagamento) na manhã de hoje. Na semana, a moeda norte-americana teve valorização de 0,17%.

O payroll mostrou que foram criados, em fevereiro, 311 mil postos de trabalho nos Estados Unidos ante projeção de 200 mil. O desemprego também ficou acima do esperado (3,6% contra 3,4%) e o salário médio por hora, no setor privado, subiu 0,24%, indo a US$ 33,09, abaixo da previsão de +0,4%.

De acordo com o sócio fundador da Pronto! Invest, Vanei Nagem, “o dólar tem se comportado muito bem, em um contexto inflacionário. Parece o mundo está sofrendo mais do que aqui”.

Nagem entende que um pacote fiscal que agrade o mercado pode ser muito benéfico para o real, que tem espaço para cair.

Para a economista-chefe da Veedha Investimentos, Camila Abdelmalack, “o payroll veio mais forte, mas o mercado olhou para o desemprego e o ganho salarial. Já tínhamos um mercado com juros mais elevados, a taxa de desemprego foi importante para aliviar”.

Abdelmalack também entende que o Indice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de fevereiro ante janeiro (0,84%), que veio acima das expectativas (0,78%) mostra um cenário inflacionário desafiador e que a Selic (taxa básica de juros) não deve começar a cair tão cedo. A economista também acredita que o real só irá se valorizar quando houver uma descompressão fiscal doméstica.

As taxas dos contratos futuros de Depósitos Interfinanceiros (DI) fecharam em alta, em ajuste de posições dos agentes financeiros provocado pelos dados acima do consenso pelo IPCA.

O DI para janeiro de 2024 tinha taxa de 13,150% de 13,025% no ajuste anterior; o DI para janeiro de 2025 projetava taxa de 12,360%, 12,220%, o DI para janeiro de 2026 ia a 12,450%, de 12,350%, e o DI para janeiro de 2027 com taxa de 12,650% de 12,570% na mesma comparação. No mercado de câmbio, o dólar operava em alta, cotado a R$ 5,2130 para
venda.

Os principais índices do mercado de ações dos Estados Unidos fecharam o pregão em campo negativo, já que o credor especializado em tecnologia Silicon Valley Bank foi fechado após perdas em sua carteira de títulos, a maior falência de um banco desde a crise financeira global que abalou o setor bancário.

Confira abaixo a variação e a pontuação dos índices de ações dos Estados Unidos após o fechamento:

Dow Jones: -1,07%, 31.909,64 pontos
Nasdaq Composto: -1,76%, 11.138,9 pontos
S&P 500: -1,44%, 3.861,59 pontos

Na semana:

Dow Jones: -4,44%
Nasdaq Composto: -4,71%
S&P 500: -4,55%

Com Paulo Holland, Pedro do Val de Carvalho Gil e Julio Viana / Agência CMA.