BCE segue a mesma linha do Fed e reafirma acomodação com pico de preços

A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde / Foto: Martin Lamberts/BCE

São Paulo – A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, disse que a aceleração recente na inflação da zona do euro se deu devido a fatores temporários e que o banco central deve agir com base em dados mais permanentes. Ontem, o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), Jerome Powell, afirmou o mesmo, reforçando o compromisso com a acomodação monetária.

“Não podemos recalibrar instrumentos monetários por mudanças temporárias na taxa de inflação, por variações que não são de longa duração”, disse Lagarde, em depoimento à Comissão dos Assuntos Econômicos e Monetários do Parlamento Europeu.

Da mesma forma, “se a recuperação acelerar de forma massiva com impacto na inflação, também teremos que considerar isso”, afirmou.

“Temos que analisar fatores que impactaram o nível de inflação para garantir que não foquemos em fatores temporários, transitórios e técnicos que não refletem a inflação real”, disse. “Precisamos ver além de altas de inflação temporárias”.

A inflação acelerou para 0,9% em janeiro e fevereiro em base anual, após a queda de 0,3% em dezembro, segundo Lagarde devido ao avanço de preços de energia, ao fim da redução temporária do imposto sobre valor agregado da Alemanha e a pesos mais fortes do que o usual no índice de preços ao consumidor harmonizado.

“Precisamos que meta de inflação seja alcançada de forma robusta e em base sólida”. Ela reiterou que o BCE prevê inflação de 1,5% este ano, de 1,2% em 2022 e de 1,5% em 2023. “Claramente não é nossa meta de inflação”, disse. Segundo ela, “não podemos ser complacentes”.

Ela disse que o BCE age para “conter efeitos negativos da pandemia na inflação”, e que monitora com cuidado efeitos secundários, bem como os critérios de proporcionalidade, e calibra suas medidas.

Lagarde disse ainda que o BCE espera uma recuperação da economia na segunda metade deste ano, e que avanços nos juros projetados por títulos de dívida pública podem prejudicar esta retomada.

“Quando confrontados com alta de juros de títulos, devemos nos questionar se isso preserva as condições de financiamento ou se leva a riscos de aperto”, disse ela. O banco anunciou na semana passada que iria acelerar o ritmo de compras de ativos para preservar as condições favoráveis.

“Vimos um movimento indesejado dos juros de títulos, que pode ter um impacto negativo da recuperação econômica, que nem aconteceu ainda, e esta é a razão do nosso compromisso de aumentar as compras nos próximos meses”, disse.

“O BCE vem tentado impedir que as taxas de juros estejam a frente de nossa recuperação”, acrescentou. Segundo Lagarde, se necessário, o BCE adotará mais medidas, e vai reavaliar a situação regularmente e manter a flexibilidade entre classes de ativos, e entre jurisdições. “Estaremos lá”, disse.

“Em algum momento, quando a economia se recuperar, de forma sólida, nossa política vai evoluir, mas no momento, temos juros baixos, muitos programas de compras, incluindo o PEPP relacionado a circunstâncias atípicas”, e temos as orientações futuras, entre outras ferramentas. “Nas atuais circunstâncias, vemos muita incerteza no horizonte”, concluiu.