Apesar de recuperação do PIB em 2021, ano que vem preocupa grandes bancos

Em evento da Febraban, bancos como Itaú, Bradesco e Santander afirmam que o PIB pode crescer pouco em 2022 e que há desafios, como a inflação

São Paulo – Apesar de previsões mais otimistas sobre o crescimento do PIB do Brasil este ano, reiterada pelo grandes bancos brasileiros, algumas instituições mostram preocupação com a continuidade dessa recuperação em 2022, ressaltando que a pandemia afetou os diversos setores da economia de formas diferentes e que há desafios como o aumento da inflação e a manutenção da agenda de privatizações e reformas.

Entre os mais otimistas, está o BTG Pactual, que prevê que o PIB pode crescer acima de 6% este ano, mostrando uma recuperação da economia melhor do que o previsto anteriormente no pós-pandemia, segundo o diretor-presidente do banco, Roberto Sallouti.

Para Sallouti, foi positivo não ocorrer um exagero na dose em relação ao aumento de gastos durante a pandemia, o que ajuda na recuperação junto com o avanço da vacinação contra a covid-19. Além disso, ressalta fatores positivos que vem ocorrendo em um cenário de juros baixos, como uma “explosão do mercado de capitais” no Brasil.

“Passado um ano da pandemia, tirando todo o desastre humanitário, que não tem preço, a crise financeira econômica foi menos pior do que se imaginava. Acho que o PIB vai ser acima de 6% e houve um gasto fiscal extraordinário com o apoio de toda a sociedade, mas não se exagerou na dose”, disse durante o Ciab Febraban, evento do setor bancário, ao lado de outros presidentes de bancos brasileiros.

O diretor- presidente do Itaú Unibanco, Milton Maluhy Filho, porém, é mais cauteloso e disse ainda não prever um PIB acima de 6%, mas de 5%, e destacou que esse crescimento não é uniforme, além de ser mais conservador em relação a expectativas para o ano que vem.

“O País reagiu rápido em entender as dificuldades trazidas pela pandemia, como expandir os gastos, o que foi fundamental para a retomada, mas a percepção é que o crescimento do PIB não é uniforme na economia. Setores ligados a commodities estão indo bem, mas outros estão sofrendo muito, como os de serviços, o pequeno empresário, e é nosso papel ajudá-los”, afirmou.

Na avaliação de Maluhy, a recuperação é em “V” até o momento, mas o maior desafio é manter um crescimento sustentável de longo prazo, citando que prevê uma alta do PIB entre 1,8% e 2% em 2022 e que acredita que as reformas devem ser “prioridade máxima” este ano. No ano que vem, quando ocorrem as eleições presidenciais, já se espera dificuldades para aprovação de temas mais complexos no Congresso.

Na mesma linha do Itaú, o diretor-presidente do Santander, Sérgio Rial, disse que o possível crescimento de 6% está sendo muito ajudado pelo ciclo positivo de commodities, com preços subindo após a pandemia, e pela preponderância do setor agrícola no PIB brasileiro.

“Vários negócios, como pequenos restaurantes, desapareceram durante a pandemia, e essas companhias têm que recomeçar e aproveitar essa retomada. Temos papel de como fomentar esse micro empreendedor”, afirmou.

INFLAÇÃO

O executivo do Santander ainda afirmou, durante o evento, que o crescimento pode ser de 6%, mas com uma série de restrições do lado da oferta, como a inflação, que ainda precisa ser enfrentada.

O diretor-presidente do Bradesco, Octavio de Lazari Júnior, é outro que ressaltou que a “inflação tem q ser controlada” porque corrói principalmente os salários dos mais pobres, também destacando que podem ocorrer dificuldades no ano que vem.

“As expectativas para 2022 não são boas, é de crescimento de PIB muito baixo, mas têm como ser revertidas e os bancos estão bem preparado para isso”, afirmou.

Entre os fatores que acredita que podem ajudar a reverter as expectativas cita privatizações e reformas. “É condição ‘sine qua non’ que o governo consiga fazer privatizações e já tivemos algumas de muito sucesso, como a Cedae, no Rio. A Eletrobras também está no caminho para isso. Essas privatizações trazem capital estrangeiro, têm potencialidade muito grande”, disse.

Engrossando o coro sobre a agenda de reformas, está o presidente do Banco do Brasil, Fausto de Andrade Ribeiro, que disse que a continuidade dessa agenda, junto com a vacinação é fundamental para a recuperação da economia. Para ele, também é preciso que o crédito continue chegando a quem precisa.

MERCADO DE CAPITAIS

Mais otimista do que os colegas dos maiores bancos privados em relação a 2022, o diretor-presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, disse esperar um crescimento maior do que o esperado no ano que vem, já que na sua avaliação “existem uma série de questões que não estão sendo precificadas ainda”.

Entre os fatores positivos cita o potencial de crescimento do mercado de capitais, com maior participação do varejo em ofertas e mais empresas fazendo ofertas públicas iniciais de ações (IPOs, na sigla em inglês). “Pode ocorrer uma revolução no Brasil, que poderia em vez de fazer 40 IPOs por ano, fazer mil, isso sim mudaria estruturalmente o crescimento do PIB”, disse.