100 dias de Biden são marcados por luta contra pandemia e estímulos

Fogos de artifício iluminam o céu sobre a Casa Branca em 20 de janeiro de 2021 em homenagem à posse de Joe Biden como presidente dos Estados Unidos / Foto: Casa Branca

São Paulo – Ao assumir a Casa Branca, em 20 de janeiro, Joe Biden fez uma série de promessas que seriam cumpridas em seus primeiros 100 dias de governo. Esse marco foi caracterizado pelo combate ao novo coronavírus e por estímulos para conter os efeitos da pandemia sobre a economia norte-americana.

Embora não haja nada na lei dos Estados Unidos estipulando o que deve ser feito nos 100 primeiros dias de governo, historicamente, presidentes, Congresso e a imprensa norte-americana analisam os primeiros 100 dias de uma governo como uma referência de progresso, para definir o tom das prioridades da administração e para julgar seu sucesso até agora.

Ao percorrer metade desse caminho, nos 50 dias de governo, Biden sancionou um pacote de US$ 1,9 trilhão projetado para domar a pior crise de saúde em um século e para preparar o caminho para uma reforma da economia dos Estados Unidos. Para isso, ele conseguiu superar a oposição republicana unânime no Congresso, onde os democratas dominam a Câmara dos Deputados, mas detêm uma estreita maioria no Senado.

“O processo de vacinação acelerado junto com o pacote de estímulo são os responsáveis pelo vigor na recuperação da economia norte-americana, que sente os efeitos do relaxamento das medidas de contenção, com aumento nos gastos dos consumidores”, disse a diretora executiva da IHS Markit, Sara Johnson.

“A economia dos Estados Unidos está esquentando – o crescimento de 2021 será o mais rápido desde 1984”, acrescentou ela, prevendo uma expansão de 6,2% neste ano.

Antes do pacote de alívio ao novo coronavírus ser sancionado, Biden assinou alguns decretos para mitigar os efeitos da pandemia e dobrou a meta inicial de administrar 100 milhões de doses de vacina contra a covid-19, conseguindo imunizar as 200 milhões de pessoas nos Estados Unidos com pelo menos uma dose semanas antes dos 100 dias de governo.

O chefe da Casa Branca também devolveu os Estados Unidos à Organização Mundial da Saúde (OMS), mas observou que trabalharia para fortalecer e reformar a agência das Nações Unidas. A OMS foi alvo de intensas críticas da administração de Donald Trump pelo que considerou fracassos em evitar a propagação da pandemia.

Biden também assinou outra série decretos, incluindo reversões de algumas das políticas de seu antecessor, Donald Trump, além de devolver os Estados Unidos ao Acordo do Clima de Paris, colocando o país devolva ao centro das negociações para conter as mudanças climáticas.

“As novas metas de emissões anunciadas na semana passada por Biden estão claramente projetadas para mostrar que os Estados Unidos não estão apenas de volta ao jogo ambiental, mas querem liderar e encorajar países como China e Índia a seguir o mesmo caminho”, disse o economista chefe internacional da ING, James Knightley.

Na chamada Cúpula de Líderes sobre o Clima, realizada pela primeira vez pelos Estados Unidos, Biden disse que seu país reduzirá as emissões de gases de efeito estufa pela metade até 2030 em relação aos níveis de 2005 e atingirá a neutralidade nas emissões líquidas até 2050.

Além do meio ambiente, o presidente norte-americano também tem acelerado os esforços com relação à justiça racial. Ele montou um gabinete que é o mais diverso da história dos Estados Unidos, incluindo a primeira mulher, a primeira afro-americana e a primeira vice-presidente asiático-americana, bem como a primeira nativa norte-americana e as primeiras secretárias abertamente homossexuais, a primeira secretária do Tesouro, a primeira secretária de defesa afro-americana e o primeiro imigrante a chefiar o Departamento de Segurança Interna.

A história é diferente, porém, quando se trata de imigração, um assunto que as pesquisas mostram ser a maior vulnerabilidade de Biden neste momento. A ampla reforma da imigração de Biden ainda precisa ganhar força, já que os republicanos martelam o governo por causa do fluxo de jovens imigrantes na fronteira com o México.

Além disso, um grande projeto de lei de direitos de voto continua paralisado junto com uma reforma do policiamento há muito prometida em um momento no qual os espasmos de violência armada renovam cada vez mais os pedidos de controle de armas nos Estados Unidos.

Na política externa, o presidente norte-americano está retomando a uma abordagem mais multilateral, refazendo laços com aliados e construindo pontes com países estratégicos, especialmente para a contenção das ambições chinesas no cenário internacional.

“Sob o governo de Biden, a política externa e comercial permanecerá focada em enfrentar o desafio da China como principal rival dos Estados Unidos. No entanto, Biden está retomando  uma abordagem multilateral”, afirmou o estrategista sênior do Rabobank para os Estados Unidos, Philip Marey.

O primeiro encontro presencial de Biden com um líder estrangeiro começou com o primeiro-ministro japonês, Yoshihide Suga. A cúpula ressaltou a crença de Biden de que as crises do país não são apenas um ponto de inflexão para os Estados Unidos – mas para o mundo. Biden enquadrou seu esforço de revitalização doméstica como parte de um conflito global entre autoritarismo e democracia.

“Na defesa de um Pacífico livre e aberto, os interesses japoneses e norte-americanos se alinham muito bem, mas a economia do Japão está muito mais integrada com a da China do que com a economia dos Estados Unidos e o Japão geralmente tenta manter as relações econômicas fora dos holofotes”, disse o economista sênior da Mizuho, Colin Asher.

O BALANDO DOS 100 DIAS

Além de ser uma data para avaliar o desempenho do presidente norte-americano, dados mostram que os primeiros 100 dias também são pesados em ações legislativas e decretos.

De acordo com GovTrack, sete leis foram promulgadas no atual Congresso, o que é baixo se comparado ao número de leis aprovadas em administrações anteriores. De acordo com uma análise do FiveThirtyEight, Barack Obama assinou 14 leis, George W. Bush assinou sete e Bill Clinton assinou 22 em seus primeiros 100 dias. Isso se compara a 76 para Franklin Roosevelt e 53 para Harry Truman.

Ainda segundo o levantamento, Biden assinou mais reversões das ações de um governo anterior nos primeiros 100 dias do que qualquer presidente na história dos Estados Unidos. Ele também assinou o maior número de decretos, que não exigem aprovação no Congresso, mas são tênues porque podem ser retiradas por um futuro presidente.

100 DIAS A DIANTE

Se Biden pode firmar um novo contrato social para enfrentar os desafios mais urgentes do século 21 – desigualdade cada vez maior, um clima cada vez mais quente e um autoritarismo crescente – é uma questão que não pode ser respondida em seu centésimo dia no cargo, mas os próximos 100 dias devem ser reveladores.

O presidente norte-americano tem grandes ambições domésticas, começando com um plano de infraestrutura de US$ 2,3 trilhões, seguido por um plano igualmente grande para melhorar o cuidado infantil e a educação, a ser pago por aumentos de impostos altamente contestados.

Este terceiro plano foi apresentado ontem por Biden em um discurso ao Congresso e está avaliado em US$ 1,8 trilhão, incluindo propostas voltadas para famílias, que incluem melhorias em acesso a creches, educação e licenças familiares remuneradas.

“Estávamos esperando que o pacote que o cuidado infantil e educação se situasse entre US$ 1,0 trilhão e US$ 2,0 trilhões, no meio dessa faixa, e que também seja financiado por um controverso aumento de impostos”, disse o analista chefe do Danske Bank, Mikael Olai Milhøj.

Milhøj lembra que na campanha presidencial, Biden já havia alertado sobre o aumento de impostos para norte-americanos de renda mais elevada e também para empresas. “Biden propôs aumentar a taxa máxima de imposto de renda de 37,0% para 39,6% – o nível antes dos cortes de impostos de Trump -, revogar a dedução de receita de repasse para quem ganha mais e aumentar a tributação sobre os ganhos de capital para os mais riscos para 39,6% dos atuais 20,0%”, afirmou.

DENTRO E FORA

Biden prevê concluir uma espécie de redefinição da direção da economia dos Estados Unidos e do papel que o governo desempenha em alimentá-la, um ponto considerado essencial para melhorar a posição do país para enfrentar adversários estrangeiros.

China, Rússia, Irã, Coreia do Norte e o Talibã, no Afeganistão, estão prontos para testar o presidente norte-americano. A China está fazendo movimentos em torno de Taiwan e no Mar do Sul da China. Embora tenha recuado um pouco nos últimos dias, a Rússia continua adotando uma postura ameaçadora em relação à Ucrânia.

O Irã aumentou o nível de enriquecimento de urânio, dando nova importância às negociações sobre a reativação de um acordo nuclear com os Estados Unidos. Já o líder norte-coreano Kim Jong Un disparou alguns mísseis de teste para provar que não poderá ser ignorado.

“Biden é mais intervencionista geopolítico do que Trump, o que poderia acabar com o otimismo estrutural”, disse o estrategista chefe global da Nordea, Andreas Steno Larsen.

Ele lembra ainda que menos de 24 horas após a posse de Biden, a Arábia Saudita – um aliado dos Estados Unidos no Oriente Médio – viu seus primeiros atentados suicidas em três anos. “Também vimos como a administração de Biden imediatamente pediu a um porta-aviões para patrulhar o Mar do Sul da China”, afirmou Larsen.

Apesar dos desafios externos, Biden precisa se preocupar com sinais incômodos em novas pesquisas, sugerindo que uma fatia significativa dos norte-americanos, embora geralmente feliz com seu desempenho, deseja que ele encontre maneiras de trabalhar com os republicanos, como prometeu que faria em sua campanha. Portanto, a agenda doméstica segue compacta, porém dominante.

“Nos próximos dois anos as diferenças dentro do Partido Democrata emergirão para o primeiro plano, ao invés das diferenças entre o Partido Democrata e o Partido Republicano como nos últimos quatro anos”, disse Marey, do Rabobank.

“Quantos dos planos de Biden serão realizados não depende mais dos republicanos do Senado após as eleições na Geórgia, mas dos democratas centristas do Senado. Nesse sentido, o estilo de Biden pode ser mais reminiscente daquele de um primeiro-ministro tentando manter unida uma coalizão ampla e instável, que vai de centristas a socialistas democráticos”, acrescentou.