Quais as perspectivas para as ações de commodities nos próximos meses e quais setores devem se destacar mais em 2024

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São Paulo – O Brasil é uma grande potência em commodities, com forte avanço registrado nas últimas décadas. No entanto, algumas previsões não são favoráveis para este importante setor, principalmente para as commodities agrícolas. Mas, mesmo com cenário mais desafiador no curto prazo, os analistas mantêm a recomendação positiva para as empresas brasileiras de commodities, especialmente para investimento de longo prazo. Entre as razões apontadas estão o preço descontado das ações, as relevantes exportações globais de alimentos, minério de ferro e petróleo e novas frentes de crescimento, como por exemplo, reservas de minerais críticos para a transição energética.

É o que mostra um relatório de 37 páginas do BTG Pactual, enviado para seus clientes em 28 de fevereiro, no qual seus principais analistas elencam as razões pelas quais o Brasil deveria ser um ganhador no novo contexto global. A ampla análise cita, por exemplo, que as ações brasileiras estão baratas ante a de pares globais e crescentes exportações de alimentos, recursos minerais e petróleo do Brasil, que levaram literalmente o seu excedente comercial a um nível totalmente novo de aproximadamente US$100 bilhões em 2023.”

O BTG também destaca o Brasil como um importante ator na agenda de sustentabilidade e biocombustíveis, que já representam 21% dos combustíveis para transportes, todos produzidos a custos super competitivos”; além de maior exportador líquido de alimentos do mundo: “O Brasil é também um importante interveniente alimentar e facilmente o maior exportador líquido de alimentos do mundo em 2022, as suas exportações líquidas de alimentos foram de US$ 123 bilhões, cerca de três vezes mais do que o segundo país. Também tem mais terra arável disponível e facilmente a percentagem mais baixa (16%) de terra cultivada/terra arável disponível de qualquer grande país. À medida que cresce a demanda pela produção global de alimentos, o Brasil está soberbamente posicionado para atender a essas necessidades.”

O relatório também destaca o Brasil como sétimo maior exportador de petróleo do mundo e subindo no ranking: “O Brasil também é um grande exportador de combustíveis fósseis e o sétimo maior exportador de petróleo do mundo. Com o aumento da produção nos próximos anos, deverá subir na classificação. De acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE), o Brasil deverá apresentar o segundo maior crescimento na produção de petróleo em 2022-29, tornando-se o quinto maior produtor até 2030.”

Segundo maior exportador de minério de ferro do mundo: “O Brasil possui alguns dos maiores e mais variados recursos minerais do mundo, alguns críticos para a transição energética. É a quinta jurisdição em mineração, a segunda em minério de ferro e a maior produtora de nióbio. Também é grande em cobre (1,6% da produção global) e lítio (quinto lugar globalmente).”

DESAFIOS PARA O BRASIL

O Brasil é uma grande potência em commodities, com forte avanço registrado nas últimas décadas, ao mesmo tempo em que a indústria de transformação recuou, mesmo mantendo participação relevante no Produto Interno Bruto (PIB), de 11%, enquanto a agropecuária e a indústria extrativa mineral, que reúne a mineração e o petróleo, representam atualmente 7,7% e 5,5%, respectivamente, segundo o IBGE. Em 2023, a atividade Agropecuária cresceu 15,1% na comparação com 2022, influenciando o desempenho do PIB do país, que fechou o ano passado em alta de 2,9%, totalizando R$ 10,9 trilhões. Outra influência positiva no resultado do PIB de 2023 foi o desempenho das Indústrias Extrativas. A atividade teve alta de 8,7% devido ao aumento da extração de petróleo e gás natural e de minério de ferro.

No entanto, algumas previsões não são favoráveis para este importante setor, principalmente para as commodities agrícolas, o que reflete na expectativa de desaceleração da economia – o PIB deve subir 1,78% em 2024. A produção brasileira de grãos na safra 2023/24 deverá atingir 295,6 milhões de toneladas, volume que representa uma queda de 7,6% no resultado obtido no ciclo anterior, ou seja, 24,2 milhões de toneladas a menos a serem colhidas, segundo projeção da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) divulgada em 12 de março. A queda é reflexo, principalmente, das instabilidades climáticas que provocaram perdas significativas na produtividade das culturas, sobretudo na da soja.

Por outro lado, o Indice de Commodities do Banco Central (IC-Br) voltou a crescer em fevereiro, informou o órgão no dia 7 de março. No mês, a alta foi de 4,26%, de 345,47 pontos em janeiro para 360,19 pontos em fevereiro, segundo o BC. Em janeiro, o indicador havia subido 0,79% ante dezembro. No acumulado do ano, o IC-Br tem alta de 5,08%, porém, em 12 meses, ainda acumula queda de 3,88%. Em 2023, o indicador acumulou uma redução de 12,28%. O índice havia fechado em 2022 com recuo de 1,56%, após um salto de 50,72% em 2021.

Em relação ao desempenho na Bolsa, um relatório publicado em 11 de março pelo Itaú BBA aponta que as ações de Commodities tiveram o pior desempenho nos últimos 30 dias, impulsionadas pelo setor de Petróleo e Gás, enquanto as ações dos setores Financeiro e Doméstico superaram o índice Ibovespa. Os dados estão no relatório “Monitor de dados de mercado as commodities eram retardatárias, impulsionados pelo Petróleo e Gás”, assinado por analistas de time de estratégia do banco de investimentos, Daniel Gewehr, Matheus Marques e Victor Cunha.

O QUE DIZEM OS ANALISTAS

Para Alexandre Pletes, head de renda variável da Faz Capital, em entrevista à Agência CMA, sendo o Brasil uma grande potência em commodities e tendo avançado fortemente nas últimas décadas, uma alocação estrutural faz parte de um portfólio na bolsa brasileira. No entanto, deve-se atentar aos ciclos. Vimos recentemente os preços de algumas commodities, cedendo bastante, como é o caso do minério, soja e milho. Por outro lado, observamos força no algodão, açúcar e petróleo. Desta forma, ainda temos espaço para cias desses setores. É bom observar, que VALE3, mesmo com o minério lateralizado e com demanda relativamente abaixo das expectativas, negocia a valuation bastante descontado.

Alexandre Pletes, head de renda variável da Faz Capital. Foto: divulgação.

Como a decisão da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e Aliados (Opep+) de manter os cortes na produção de petróleo até o final do segundo trimestre pode afetar positiva e negativamente as commodities brasileiras, influenciando as ações de empresas como Cosan, Petrobras e PetroRio?

RESPOSTA: Diretamente, vemos que o preço do petróleo perto dos U$ 80,00 beneficia diretamente as empresas produtoras, que conseguem manter as margens operacionais elevadas. Para Cosan, o efeito é mais complexo de mensurar, pois envolve a concentração de etanol na mistura, bem como os preços no mercado internacional.

A produção de aço bruto da China caiu 6,9% em janeiro deste ano em relação ao mesmo mês de 2023, chegando a 77,2 milhões de toneladas. Apesar da retomada lenta do gigante asiático, ainda é recomendável investir em empresas como Vale, Gerdau, CSN e Usiminas? Qual a perspectiva para as empresas deste setor de commodities no Brasil?

RESPOSTA: Essas empresas são destaques do segmento, com atuação mundial. Acreditamos que dois fatores serão contribuidores para as cias. 1º) os estímulos do governo Chinês tendem a apresentar efeitos mais claros no segundo semestre de 2024 e 2025, desta forma, uma retomada econômica por lá é altamente impactante para elas; e 2º) Pós Covid, observa-se um movimento de regionalização das cadeias de produção, isso demandará grandes investimentos em infraestrutura, principalmente na Europa e EUA, o que é benéfico para esses players.

No setor da pecuária, segundo cálculos do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), o consumo de carne bovina in natura deve crescer este ano cerca de 1,8%. Além disso, com o dólar na casa de R$ 5, a carne brasileira continua competitiva e dá fôlego ao crescimento das exportações. Por outro lado, a perspectiva é de uma queda de 0,77% na produção e de 0,9% no abate, no Brasil, e um recuo de 6% na produção de carne bovina nos EUA. Como este cenário pode afetar positivamente ou negativamente as ações de companhias como BRF, JBS, Minerva e Marfrig?

RESPOSTA: Vemos que o ciclo de queda de juros leva essas empresas a reduzirem a alavancagem, tendo em vista o custo da dívida menor. Além disso, a disponibilidade de boi no Brasil permanece alta. Outro fator é a queda no preço da commodity, especialmente pelo custo dos insumos. Tudo isso deve favorecer as exportações nos países de atuação desses players. Devemos ver um impacto positivo para JBS. Minerva e Marfrig. Para BRF, o custo do milho baixo, faz com que o resultado operacional melhore, e as expectativas de lucro nos próximos trimestre se mantenham, a exemplo do 4T23. O mercado doméstico permanece aquecido para a companhia.

Por fim, como o investidor deve analisar empresas e ações de commodities? Em quais pontos ele deve prestar mais atenção, prospectando retornos a médio e longo prazo, diante dos nomes que estão disponíveis na bolsa brasileira?

RESPOSTA: São inúmeras as empresas atuantes no Brasil, e cada segmento possui suas peculiaridades. Contudo, os fatores importantes, que valem para todas, são boa geração de caixa livre, variação cambial e, claro, a commodity em si.

Confira outras entrevistas sobre o tema no CMA Entrevista:

Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, explica que toda a precificação está relacionada à demanda, que por sua vez, está relacionada à ciclos. Com isso, a recomendação é diversificar os investimentos, já que a tendência aponta mais para uma estabilidade em um ciclo de cautela, considerando que a China é importante para todas as commodities brasileiras.

Confira a entrevista aqui:

Como investir em ações de empresas de commodities e quais as perspectivas para os próximos meses

Na segunda entrevista da Agência CMA sobre o tema, o analista da Toro Investimentos, Lucas Serra, recomenda ao investidor da Vale, por exemplo, avaliar os aspectos que impactam a oferta e a demanda do minério de ferro, como a economia chinesa, custos e a transição energética. O endividamento das empresas também merece atenção.

Confira a entrevista aqui:

Como investir em ações de empresas de commodities,quais as perspectivas para o próximos meses parte2

PESO DAS COMMODITIES, VALE E PETROBRAS NA BOLSA

Como reflexo de uma economia fortemente dependente das commodities, a Bolsa possui mais de 50 ações de segmentos como: (i) Agrícola; (ii) Mineração, metalurgia e siderurgia; (iii) Petróleo, gás e combustíveis; (iv) Proteína animal; (v) Papel e Celulose, e outras. Só no Ibovespa, o índice de ações mais negociadas da B3, são mais de 20 empresas, duas delas com forte peso: os papéis da mineradora Vale (VALE3), que representam mais de 14% do volume negociado, e os da Petrobras (PETR4;PETR3) com aproximadamente 11,5% do índice. Ou seja, juntas, elas detêm mais de 25% de participação no índice.

Por isso, quando Petrobras e Vale caem, elas puxam o valor de mercado da B3 para o terreno negativo sem elas, as empresas crescem, aponta o CEO da Elos Ayta e consultor financeiro, Einar Rivero.

No dia 8 de março, a Petrobras teve uma queda significativa no valor de mercado após a divulgação do seu balanço do ano de 2023 e a confirmação de que os dividendos extraordinários não seriam distribuídos aos seus acionistas. Naquele dia, a Petrobras perdeu R$ 55,3 bilhões em valor de mercado. Nos seis pregões desde então, a empresa registrou cinco dias de perda de valor de mercado e um dia de recuperação. Em 12 de março, a empresa teve uma valorização de R$ 14,6 bilhões. O marcante é que, nesse mesmo dia, a Vale perdeu R$ 13,4 bilhões devido à saída de um dos membros do conselho de administração, comenta Rivero.

Uma análise mostra que entre 7 de março e 15 de março, o valor de mercado de todas as empresas listadas na B3, sem considerar Petrobras e Vale, registrou uma valorização de R$ 27,1 bilhões. No mesmo período, a Vale perdeu R$ 29,0 bilhões e a Petrobras R$ 56,5 bilhões. Se consolidarmos todos os valores de mercado das empresas listadas na B3, incluindo Petrobras e Vale, a queda é de R$ 58,4 bilhões, calcula o consultor.

Com Emerson Lopes/ Agência CMA

Edição: Dylan Della Pasqua / Agência CMA

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