Ministro da Fazenda atribui elevação da perspectiva do Brasil pela S&P à melhora no ambiente político

1069
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, durante cerimônia de posse da ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, no Palácio do Planalto.

São Paulo – O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse que tem a confiança do presidente Lula, mas que sem a compreensão dos presidentes da Câmara e do Senado, Arthur Lira e Rodrigo Pacheco, e do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e Supremo Tribunal Federal (STF), a economia não terá resultado esperado para o crescimento do país.

“É preciso harmonizar os três poderes”, afirmou o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, em entrevista a jornalistas para comentar a elevação da perspectiva do rating soberano do Brasil para positiva, de estável, pela agência de classificação de risco de crédito S&P, na porta do ministério, em Brasília. A agência de rating afirmou o rating soberano de longo prazo do país em moeda estrangeira em BB-“, que ainda é um grau especulativo, abaixo da classificação de investimento.

Haddad ressaltou que a nota da S&P mencionou a nova regra fiscal, a reforma tributária, as medidas de reoneração, de corte de gasto tributário e que considera “importante que uma agência externa consiga observar esses avanços”. “É preciso harmonizar os três poderes. A nota da S&P mencionou todas as nossas ações, é um viés positivo. Mas ainda temos muito trabalho, é só o começo.”

O ministro agradeceu os representantes do Congresso “que se sensibilizaram com a agenda da Fazenda”. “Se não, não teríamos nada disso.”

Na avaliação de Haddad, se os três poderes se alinharem em prol das metas estipuladas pelo governo Lula para o país, o resultado será ainda mais positivo para a economia brasileira. “Se mantivermos o nível de trabalho das duas casas e do judiciário, vamos no caminho certo. Mas o Brasil precisa crescer. Já é uma mudança de viés, de rota. Falta o Banco Central se somar a esse esforço. Na hora em que estivermos todos alinhados, teremos bons resultados.”

Também foi lembrado que a agência mencionou a independência do Banco Central. Haddad disse acreditar “na harmonia entre políticas fiscal e monetária”.

O ministro também avalia que a mudança reflete uma maior convergência entre os poderes. “Há seis meses, ninguém esperava estarmos na situação em que estamos hoje. Temos uma oportunidade de ouro de fazer a diferença.”

Haddad disse que o Banco Central tem se mostrado mais sensível às demandas da Fazenda, insistiu que acredita que a harmonia pode ser maior e defendeu o direito de divergir da atual orientação de austeridade fiscal. “Agradeço a autoridade monetária, que tem se mostrado sensível. Mas questionar a autonomia da autoridade monetária não pode ser um tabu. Todos se manifestam e concorrem para fazer o país crescer.”

O ministro se irritou ao ser questionado sobre o atual nível de inflação ainda longe da meta. “Se a pergunta sobre a inflação fosse feita ao presidente do BC da Europa, do FED, seria diferente por que eles estão muito diferentes de nós, com inflação muito acima da meta do que nós. E as taxas de juros são muito mais modestas. Então, não cabe esse tipo de pergunta, não é disso que estamos tratando. Todos nós somos contra a inflação, chegou a dois dígitos no passado recente, isso é indesejável. Nosso regime de metas foi criado há mais de 20 anos. Ninguém pensa em mudar o regime de metas, ele pode ser aperfeiçoado. O arcabou está consolidado na sociedade brasileira, mas há uma ciência na condução desse processo. O mundo inteiro está discutindo exatamente isso. Isso não põe em risco nem o regime de metas, nem a autoridade monetária. Mas há várias opiniões a respeito desse tema [das metas de inflação] que precisam ser respeitadas. Divergir faz parte da democracia.”

Ele citou a reunião de Lula com empresários do Instituto do Desenvolvimento do Varejo (IDV) e disse que 70% da pauta da reunião foi sobre crédito. “A questão dos juros ocupou mais da metade da reunião.”

Ele disse acreditar no crescimento de 2% do PIB brasileiro e que o país retomará o grau de investimento. “É inadmissível o Brasil não ter grau de investimento. Um país do tamanho do Brasil, com as riquezas que tem, começando pelo seu povo. Um país que tem mais de R$ 300 bilhões em reservas cambiais, voltou a acumular reservas cambiais, não deve um dólar no exterior, é credor internacional, tem inflação menor que Europa e Estados Unidos. E não tem grau de investimento? Mas é um processo. Primeiro vem a sinalização positiva. Com a reforma tributária, vai subir mais degrau. Têm 4 países da América Latina que têm grau de investimento em situação pior que a nossa. O Brasil terá grau de investimento.”

Haddad disse que conversou com as agência Moody’s e S&P sobre o Brasil ainda não tem retomado o grau de investimento – Brasil foi rebaixado em 2015.

Para o ministro, o ambiente político no Brasil se degradou nos últimos anos e agora está melhorando. “O Brasil passou por um processo de degradação política, o ambiente político se deteriorou nos últimos anos. Houve desarmonia entre poderes do qual estamos saindo. Por isso eu insisto na questão institucional.”