ENTREVISTA: Possível antecipação de retirada de estímulos prejudicará emergentes

São Paulo – Uma eventual antecipação da retirada das medidas de estímulo pelos principais bancos centrais do mundo será prejudicial para as economias emergentes. A advertência foi feita por Renan Sujii, sócio e estrategista de Investimentos RIMS3 Capital, em entrevista concedida hoje à Agência CMA.

“As economias emergentes como Brasil, Turquia e Rússia, por exemplo, têm situação fiscal bem mais frágil. Com um processo de retomada de alta de juros, isso deve gerar uma fuga de capitais para os Estados Unidos”, explicou Sujii ao ser questionado sobre uma possível retirada de medidas de estímulo pelo Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano).

Na ata de sua mais recente reunião de política monetária, o Fed sinalizou a intenção de manter a taxa básica de juro próxima de zero pelo menos até 2023, mas alguns diretores da entidade já se mostram abertos a discutir uma possível redução de seu programa de compra de ativos num futuro próximo.

“Neste caso, isto tenderia também a modificar um pouco a forma como tem funcionado a economia norte-americana”, prossegue Sujii. Segundo ele, a economia dos EUA tem funcionado de maneira um pouco artificial e é preciso avaliar como ela vai funcionar a partir da retirada das medidas de estímulo.

Outro possível prejuízo às economias emergentes pode derivar de uma possível retração nos preços das commodities. “Houve uma forte alta nos preços das commodities nos últimos meses e uma eventual retirada de estímulos pode influenciar também a cotação das commodities”, concluiu.

Além dos EUA, diversas outras economias do centro do sistema já estão preparando uma transição de política monetária. A discussão sobre a elevação das taxas de juros também já começou em bancos centrais como os da Nova Zelândia, do Canadá, da Inglaterra. A questão é como vai acontecer esse processo, levando em conta o gradualismo e a comunicação com o mercado.

“Esta é uma das grandes pautas econômicas para os próximos meses”, enfatiza Sujii. “Houve uma injeção de liquidez sem precedentes por causa da pandemia. Isso pode levar a um superaquecimento da economia”, explica ele. “Um ano depois, a gente vê algumas distorções, como pessoas deixando de procurar emprego por causa do auxílio emergencial nos EUA”, exemplifica Sujii.

Selic – É preciso observar com muita atenção as comunicações do Banco Central (BC) para tentar antecipar até onde irá o aperto monetário iniciado em março. A recomendação foi feita por Renan Sujii, sócio e estrategista de Investimentos RIMS3 Capital, na entrevista concedida hoje à Agência CMA.

“A intenção do Copom com o aperto monetário iniciado em março foi buscar um choque com o objetivo de obter uma taxa terminal mais baixa”, observa ele. “A ideia desse choque no início do ciclo era ancorar as expectativas do mercado.”

A taxa Selic encontrava-se no piso histórico de 2,00% ao ano até março, quando o BC elevou a taxa básica de juro e deu início ao primeiro ciclo de aperto monetário em cinco anos. Segundo a mais recente edição da pesquisa Focus, a Selic deve encerrar 2021 em torno de 5,50%.

Sujii ressalva que a autoridade monetária não está em busca de uma taxa neutra, estimada em aproximadamente 6,50% ao ano. “O Banco Central fala em ajuste parcial. Isto quer dizer que ele não quer chegar à taxa neutra”, explica ele.

Renan Sujii acredita que, caso esse ajuste parcial não seja suficiente, as primeiras indicações de qualquer mudança na condução da política monetária estarão presentes nas comunicações do Banco Central, que, para ele, até o momento têm sido claras.

O economista observa ainda que o que está em jogo no momento é tentar trazer a inflação de 2022 para dentro da meta, pois a inflação deste ano já sofreu um comprometimento importante diante da retomada da economia.

Ações, câmbio e juros – O ciclo de aperto monetário iniciado pelo Banco Central em março tem o potencial de afastar um pouco os investidores da renda variável. A avaliação foi feita por Renan Sujii, sócio e estrategista de Investimentos RIMS3 Capital, na entrevista concedida hoje à Agência CMA.

Para ele, a situação tende a influenciar mais o investidor doméstico por causa do custo de oportunidade. “Antes, com o juro a 2% ao ano, esse investidor tinha um estímulo maior para buscar rentabilidade em ações”, explica. “Agora, com o juro em alta, as ações perdem um pouco do brilho e o investidor começa a ter um estímulo a arriscar menos em ações e buscar a renda fixa”, diz Renan.

De qualquer modo, Sujii acredita que a expectativa de retomada da economia no segundo semestre deve ajudar o mercado acionário brasileiro a manter-se atraente.

Em relação ao mercado de câmbio, ele observa que o dólar tem mostrado uma grande amplitude de oscilação. Para ele, a alta de juros no Brasil tende levar a uma depreciação da moeda norte-americana em relação ao real. Em contrapartida, uma eventual elevação dos juros nos EUA mais adiante pode levar investidores estrangeiros a tirarem dinheiro do Brasil.

Sobre o mercado de renda fixa, os investidores precisam levar em conta principalmente quais são suas necessidades, qual a finalidade do investimento e qual é seu apetite por risco. As opções vão de investimentos como Tesouro Selic, Tesouro IPCA e Tesouro Pré-Fixado e debêntures incentivadas.

“As debêntures incentivadas surgem para financiar projetos de infraestrutura, tentando fechar um gargalo histórico e têm isenção de impostos”, exemplifica ele, lembrando que a maior parte dos investimentos têm tributação sobre os ganhos de capital.

Os títulos verdes, com padrões mais avançados de preocupação ambiental, social e de governança, os chamados ESGs, também têm sido um importante mecanismo de captação para as empresas e estão chegando agora para os investidores.

Ele também recomenda aos investidores que prestem atenção na marcação a mercado dos títulos, o que pode resultar tanto em ganhos mais altos que os esperados quanto em perdas caso estes sejam resgatados antes do vencimento.

“A pessoa pode um dia abrir o extrato e ver uma rentabilidade abaixo do que foi contratado. Isso é efeito da marcação a mercado. Até você ter o vencimento da aplicação, corre-se o risco de mercado. Isso depende do comportamento das taxas de juro de mercado. Muitas vezes temos a oportunidade de vender acima do que foi contratado ou o risco de vender abaixo”, explica Sujii.