Decisão tardia em corte de juros nos Estados Unidos pode comprometer a trajetória da redução da Selic e ativos de risco

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Símbolo do Fed em dólar // Crédito: Pexels/Karolina Grabowska

São Paulo, 27 de fevereiro de 2024 – O banco central norte-americano tem sido cuidadoso em promover o início do ciclo de redução das taxas na maior economia do mundo mais cedo que espera o mercado com o temor de a inflação voltar a acelerar. E se tardar na decisão pode afetar a trajetória de redução de juros por aqui e ativos de risco. O mercado trabalhava com uma contração na reunião de março, dias 19 e 20, mas agora as apostas para junho cresceram.

 

“Se o ciclo de corte de juros nos EUA demorar ainda mais para acontecer, o Banco Central (BC) pode começar a acender um novo sinal de alerta. Isso ocorreria não necessariamente pela persistência da taxa, mas sim pela dinâmica de resiliência inflacionária nos EUA, o que consequentemente poderia afetar o fluxo de capital estrangeiro e o custo de boa parte dos produtos no Brasil”, disse Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.

 

Alguns dirigentes do Fed, em declarações recentes, disseram que não é necessário ter pressa para a redução das taxas -atualmente entre 5,25% e 5,50%-, mas que deve ocorrer em 2024. É prematuro afirmar que a inflação está convergindo para a meta. Essa semana será divulgado o PCE, dado de inflação acompanhado de perto pelo bc dos Estados Unidos e o mercado deve observado com lupa. A autoridade monetária reforçou em todos as falas que continuará de olho nos dados econômicos para tomar a decisão.

 

Em se tratando de Bolsa, o impacto seria na lucratividade das companhias.

 

“As empresas, especialmente aquelas sensíveis a juros, como o setor de consumo, podem já ter precificado uma Selic terminal entre 9% e 10%. No entanto, se o Federal Reserve adiar o corte de juros ou se o Banco Central alterar sua política monetária, isso pode afetar as expectativas de lucratividade dessas empresas”.

 

Uma política monetária mais restritiva no Brasil pode reduzir o consumo das pessoas, afeta o desempenho dessas empresas e, consequentemente, o resultado financeiro (receita) e a margem de lucro. Com isso, reflete a percepção de valor do negócio pelo mercado.

 

O analista da Ouro Preto Investimentos lembrou que a expectativa de novas quedas de 0,50 ponto percentual na Selic [como já sinalizou o presidente do BC, Roberto Campos Neto] nas próximas reuniões reflete a necessidade de estimular a economia brasileira em um contexto de recuperação pós-pandemia, e a dinâmica inflacionária local convergindo para a meta do mercado.

 

Outro ponto na decisão tardia do Fed levaria ao fortalecimento do dólar e a pressão inflacionária aumentaria no Brasil devido ao custo alto das importações. Diante desse cenário, a tendência do BC seria de mais cautela para redução da Selic, equilibrando a necessidade de controle inflacionário com o estímulo à atividade econômica, explicou.

 

As decisões de política monetária nos Estados Unidos influenciam os fluxos de capital globais e as expectativas de inflação. As economias de países emergentes seriam diretamente atingidas e limitaria o espaço para cortes agressivos na Selic.

 

Adiamento de corte dos juros nos EUA deve impactar câmbio a curto prazo

 

Com a Selic precificada, a grande questão que move atualmente o mercado é quando o Fed irá começar o corte na taxa básica de juros. No começo de janeiro, as apostas dominantes eram para março. Semanas depois, maio começou a ganhar força. Os canhões, agora, estão voltados para junho ou até mesmo que comece apenas no segundo semestre. E como isso pode afetar o desempenho do real?

 

O economista-chefe da Nova Futura Investimentos, Nicolas Borsoi, explica que no curto prazo o dólar deve ganhar força. “O câmbio se move muito pela perspectiva de política monetária, ainda mais em um ano onde o grande vetor do mercado é a política monetária norte-americana”.

 

Borsoi entende que a moeda brasileira inevitavelmente irá sofrer, e que em um horizonte mais longo outros fatores como a queda das commodities e desaceleração econômica global também podem desvalorizar o real.

 

Outro ponto que impacta diretamente o câmbio, são os juros domésticos. Borsoi entende que o Copom tende a ficar mais cauteloso, evitando que o real se prejudique, mas pondera: “Para o BC mudar a política de cortes, teria que acontecer um evento muito significativo, caótico. A política monetária interna está mais preocupada com a inflação de serviços do que com o movimento do Fed”, contextualiza.

 

Economia robusta dos EUA deve impactar magnitude dos cortes de juros no Brasil

 

Apesar da ansiedade dos agentes financeiros pelo início do ciclo de cortes de juros por parte do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), os dados mais recentes mostram uma economia resiliente, robusta e com baixo desemprego. Diante de uma política monetária ‘data dependente’, as chances de cortes vão ficando cada vez mais longínquas.

 

Na leitura do economista-chefe da Valor Investimentos, Piter Carvalho, o Fed só deve cogitar o corte de juros no segundo semestre. “Diante dos dados recentes pode até adiar um pouco mais.Falávamos em junho, mas talvez jogue até para julho”, projeta. Até janeiro, o mercado estimava corte já na reunião de março do Fomc, o que ja começava a se desenhar  pouco plausível, segundo Carvalho.

 

“O Fed só vai começar a baixar os juros quando tiver confiança que a inflação está caindo, que ela vai seguir o rumo de queda”, avalia ele, que completa que os dados mais recentes, os de fevereiro, “não ajudaram” – o CPI veio mais alto que o esperado.

 

“O que a gente vê, é principalmente  inflação dos serviços mais forte. O Fed demorou para subir os juros e agora ele não quer errar sendo muito ansioso ao fazer os cortes.”

 

Com o Fed hesitando, o Copom também adotou uma postura mais conservadora,cortando 0,50 bps por reunião.  “Conseguiu manter a consistência, e foi cortando aos poucos porque tinha muita gordura para queimar. Agora estamos em um passinho de tartaruga, esperando a corrida começar”, diz. “Se o Fed tivesse cortado juros desde o começo do ano, poderíamos ter até um corte de 0,75 bps por parte do Copom, aumentar a velocidade”, supõe

 

A demora em subir e a atual dificuldade para cortar os juros nos Estados Unidos pode atrasar a retomada do crescimento aqui no Brasil, uma vez que as curvas DI são guiadas pela curva de juros de lá. “Hoje a curva de juros norte- americana é a mãe de todas as curvas de juros. Ir na contramão do Fed – cortar juros aqui enquanto o Fed sobe – seria um dos maiores erros. Isso porque o Brasil não é uma ilha, então tudo que acontece lá vai influenciar aqui – não só o Brasil, mas o mundo todo.”

 

Carvalho lembrou que o BC brasileiro foi um dos primeiros a subir os juros, mas acabou subindo além da conta. “Estamos tentando chegar em um equilíbrio, ainda, para depois passar a cortar”, ressalva. “Fatalmente, nossos juros devem ter subido perto de 10% a 11% mais ou menos. Com relação a cortes, acredito que o BC pode ir até 8 ou 8,5%.”

 

A estimativa do economista é de 9% na Selic Terminal, ao fim do ciclo de cortes do Copom. “Dá para parar perto de até 8%. Se tivesse cortes de até 8% com Fed cortando lá também, seria ideal para a economia brasileira.” Carvalho, no entanto, não pode estimar o mês em que se dará o fim de ciclo de cortes do BC.

 

“Vai depender do Fed e como vai ser o ritmo de cortes de lá, quando ser´o fim do ciclo.”

E conclui: “O pós pandemia é um novo mundo, as teorias do passado tem de ser adaptadas para esse novo cenário. vai ser uma década bem diferente.”

 

Soraia Budaibes, Paulo Holland e Camila Brunelli / Agência CMA

 

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