Conflito no Oriente Médio traz cenário desafiador ao mercado. Petróleo e possível entrada do Irã centram atenções

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Foto: Troy Stoi/ freeimages.com

São Paulo, 24 de outubro de 2023 – A guerra entre Israel e o grupo extremista Hamas, iniciada no último dia 07, em que foram ceifadas muitas vidas, gera comoção internacional e tensão no mercado financeiro com o temor de uma escalada devido à possibilidade de entrada de novos atores, mas as ações ligadas ao petróleo são favorecidas. 

Caio Henrique Soares Rodrigues, especialista em investimentos da Atika Investimentos, disse que no curto prazo o cenário continua sendo muito desafiador.  

 

“O mercado tende a ser altamente sensível a eventos geopolíticos, como a evolução dos conflitos armados. A incerteza gerada por confrontos pode resultar em volatilidade nos preços das ações e dos ativos financeiros. Em situações de tensão, os investidores frequentemente buscam refúgio em ativos considerados mais seguros, como ouro, treasuries [títulos do Tesouro norte-americano] e ativos que se beneficiem do cenário como petróleo. Com o aumento da commodity, empresas como Petrobras, 3RPetroleum e Petrorio se favorecem, o que pode atenuar o impacto negativo no Ibovespa”.

 

 

Já nos médio e longo prazos, o impacto na Bolsa depende da evolução do conflito e seus aspectos políticos. “Se houver progresso em direção a uma solução pacífica, os mercados financeiros podem se estabilizar e voltar a olhar para o problema do controle de inflação global. No entanto, se o conflito se prolongar ou se intensificar, a incerteza pode continuar afetando o desempenho na nossa bolsa e nas globais”, completou.

 

A grande preocupação do mercado de uma expansão do conflito é a entrada do Irã. Se isso ocorrer, o país poderia fechar o estreito de Ormuz- entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã-, por onde passam mais de 30% da produção mundial de petróleo e a commodity dispararia. 

 

Atualmente essa alta do petróleo está beneficiando as junior oils- Petrorio, 3RPetrolium e Petrorecôncavo- devido à correlação direta que elas têm com o a cotação do petróleo tipo Brent no mercado internacional-chegou a saltar mais de US$ 90 o barril.  

 

“Com essa restrição de produção eminente, o mercado passa a colocar prêmio, projetando uma maior margem para os papéis. Acredito que seja um movimento pontual, onde elas podem já estar bem precificadas dentro do risco do cenário atual”, disse Rodrigues.

 

Diante dessa boa performance das ações de empresas ligadas ao setor de petróleo, os investidores podem querer tê-las em seu portfólio. O especialista em investimentos da Atika Investimentos disse que a primeira ideia é comprar a commodity, mas também existe o risco de a Arábia Saudita retomar a produção do petróleo, o que pode gerar um novo impacto. 

 

Segundo Rodrigues, com esse cenário de conflito, as ações mais prejudicadas são “as que possuem dívidas e empresas de crescimento, que dependem de juros menores para poder crescer. Além de setores relacionados ao turismo e transporte por conta do custo alto do petróleo”.

 

Para o fim do ano, com o conflito no Oriente Médio, o grau de tensão no mercado deverá ser maior que o projetado. “É claro que todas as projeções que estávamos fazendo para a bolsa vão ter de ser refeitas com a deterioração do cenário global, vai gerar uma inflação maior, vemos o petróleo subindo de maneira abrupta. Vermos os fundos de investimentos indo cada vez mais para os treasuries [títulos do Tesouro norte-americano, os mais seguros do mundo- T-10 chegou a ultrapassar os 5%], mercado mais cauteloso”, adverte. 

 

Antes da guerra, muitos analistas projetavam que o Ibovespa terminasse o ano no patamar entre 120 mil pontos e 130 mil pontos. 

 

Juros

 

Muito tem se especulado se a guerra entre Israel e Hamás vai escalar ou não e se outros países do mundo vão tomar algum partido, algum lado. O nome mais citado é o do Irã, que controla uma relevante rota para o comércio do petróleo – atualmente, a principal preocupação. Maior restrição de oferta de petróleo impacta o preço do combustível, que mexe com a inflação a nível global.  Desde o dia 9 de outubro – o primeiro útil depois do início do conflito – o petróleo tem subido.

 

“Como se tratam de grupos extremistas, você acaba naturalmente virando alvo da oposição, digamos assim. Se o Irã, Iraque e outros países da OPEP [Organização dos Países Exportadores de Petróleo] passam a se posicionar – porque ficam pressionados – , começam a virar alvo e entra em guerra, vai passar pelo petróleo, não tem jeito”, analisa Renan Suehasu, especialista em mercados de capitais  e sócio da A7 Capital.

 

Suehasu lembra que os Estados Unidos e a Europa já vem há um tempo tentando controlar pressões inflacionárias e destaca que essa dificuldade tende a piorar se o preço do barril do petróleo estiver elevado por causa da guerra. “O petróleo tem um impacto muito grande na inflação, uma vez que impacta transportes, setor de logística e produtos – serviços não muito”, explica. ” A alta do combustível vai contaminando a cadeia como um todo”.

 

Com as pressões inflacionárias sofridas pelos países desenvolvidos, os bancos centrais se vêem impelidos a aumentar a taxa de juros, atraindo “investidores globais que não querem correr risco em troca de um retorno razoável”, conforme o sócio da A7.

 

O mercado está sempre tentando se antecipar aos movimentos e, de olho nessa dificuldade de controlar inflação, e com mais o fator guerra na região do petróleo, naturalmente os operadores colocam no preço essa hipótese da alta adicional.

 

Assim, os juros projetados dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos vêm operando com altas relevantes nas últimas semanas, impactando os DI aqui. “Sobe os juros lá, e para o Brasil ficar atrativo também, acaba subindo as taxas aqui”, explica.

 

“Se os países da OPEP começarem a se posicionar de algum dos lados da guerra, as atenções, concentração dos esforços ficam voltados para a indústria bélica, por exemplo para conseguir solucionar o conflito – e a produção vai ser impactada”.

 

Há outros problemas que não só na produção, mas também nos caminhos de logística. ‘”Além da incerteza gerada – em que também se adiciona mais prêmio – , sem a previsibilidade, se corre mais risco e mais juros – por isso a alta”, diz,

 

“Quando tem essas tensões, sobe tudo de uma vez, mas as vezes o mercado percebe que exagera e corrige, o que gera uma volatilidade maior”, conclui.

 

Câmbio

 

O conflito que envolve Israel e o Hamas é cercado por dúvidas, seja por sua duração, participação de novos personagens e o impacto que pode gerar no mercado. O economista da G5 Partners, Luis Otávio Leal, faz uma metáfora. “A gente está pilotando o avião com a visibilidade de um palmo”. Leal entende que a situação é de “equilíbrio instável”, e que a moeda brasileira, até o momento, não apresentou variações significativas.

 

Para ele, o mercado ainda não precificou o conflito, e o pior pode estar a caminho, caso o Irã entre na guerra. “Se ele (o Irã) continuar assim, e não fizer nenhum movimento prático, a história vai entrar para a conta de desastres humanitários, sem impacto para o mercado”, avalia.

 

Leal entende que, no momento, a valorização das commodities devido aos sinais positivos vindos da China, causam mais impacto no dólar que a tensão no Oriente Médio, mas que a situação pode mudar rapidamente caso o Irã passe do blefe para a ação.

 

Camila Brunelli, Paulo Holland e Soraia Budaibes

 

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