Bolsa fecha em queda com payroll surpreendente e recua 3,37% na semana

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São Paulo – A Bolsa fechou em queda pelo terceiro dia seguido com peso do exterior por conta dos dados de emprego (payroll, sigla em inglês) surpreendentes nos Estados Unidos- 517 mil vagas em janeiro enquanto o mercado previa 186 mil-em uma semana em que o banco central norte-americano elevou a taxa de juros em 0,25 ponto porcentual (pp) e sinalizou que o ciclo de alta ainda será mantido. Na semana, o Ibovespa acumulou queda de 3,37%.

E, no Brasil, também teve decisão de juros esta semana. O Comitê de Política Monetária (Copom) manteve a Selic em 13,75% ao ano (aa), mas o comunicado foi mais duro.

Com os juros altos, os papéis da economia doméstica sofreram na sessão de hoje. Magazine Luiza (MGLU3) caiu 1,61%, MRV (MRVE3) perdeu 5,73%. Os papéis das commodities como Vale (VALE3), que tinham se recuperado na sessão de hoje, voltaram a cair. Vale fechou em baixa de 0,21%.

À exceção ficou para a Petrobras (PETR3 e PETR4), que subiu 1,19% e 1,10%, com os investidores aprovando os nomes indicados para a diretoria da estatal.

O principal índice da B3 caiu 1,46%, aos 108.523,47 pontos. O Ibovespa futuro com vencimento em fevereiro cedeu 1,32%, aos 108.930 pontos. O giro financeiro era de R$ 24,7 bilhões. Em Nova York, as bolsas fecharam em queda.

Felipe Leão, especialista da Valor Investimentos, disse que o Ibovespa cai com o relatório de emprego mais forte.

“O payroll quase três vezes acima do esperado derrubou as bolsas lá fora e respingou aqui, reforçando que o Fed não deve cortar os juros este ano; o aumento de juros penaliza alguns papéis ligados ao consumo doméstico, como setor tecnologia e educação, exportadoras se beneficiam com alta do dólar”. Yduqs (YDUQQ3) e Locaweb (LWSA3) eram destaque de queda de 12,79% e 9,10%.

Rafael Schmidt, operador de renda variável da One Investimentos, disse que a Bolsa opera de lado em meio ao relatório de emprego nos Estados Unidos forte e recuperação das commodities.

“Com números da economia norte-americana pujante, é difícil a gente esperar dados da inflação mais fracos daqui pra frente, dessa forma o mercado entende que os preços menos controlados vão obrigar o Fed manter juros altos por mais tempo do que era esperado ou de que chegue a uma taxa terminal mais alta do que vem sendo precificado e isso não é bom para ativo de risco porque juros altos atrapalha Bolsa; os setores da economia real como varejo, consumo e construção civil estão sendo prejudicados com o cenário de juros altos e ajudam a empurrar o índice para baixo, já as commodities tanto metálicas como petrolíferas estão segurando o Ibovespa “.

Em relação às falas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Schmidt disse que “estamos tendo menos ruídos que no início do ano, se tiver uma sinalização mais forte depois do mandato do Campos Neto [Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central] de que o BC pode perder autonomia isso já é uma mudança de cenário, mas só uma fala do Lula o mercado não vai precificar”.

Ontem, Lula concedeu uma entrevista ao jornalista Kennedy de Alencar questionando a autonomia do BC.

O dólar fechou em alta de 2,0%, cotado a R$ 5,1470. A moeda refletiu durante toda a sessão o payroll (folha de pagamento, um dos principais termômetros do emprego nos Estados Unidos) muito acima do esperado, além das falas duras do presidente Lula. Na semana, o dólar teve valorização de 0,66%.

Para o sócio fundador da Pronto! Invest Vanei Nagem, “o mercado lá fora está bem turbulento e aqui está igual. Ninguém esperava um payroll tão forte, além da declaração do Lula, que foi mais contundente. Percebemos que existe alguma rixa entre ele e o (presidente do Banco Central, Roberto) Campos Neto”.

Para o economista-chefe da Nova Futura Investimentos, Nicolas Borsoi, “o mercado insiste em brigar com o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano). Eu acho que o (presidente do Fed, Jerome) Powell não foi dovish (suave, menos propenso ao aumento dos juros), e ele colocou na mesa que vai continuar subindo os juros”.

“O payroll de hoje esmagou as expectativas, e fortalece a visão do Fed que ele precisa continuar com a alta de juros. Começamos a ver a tese de final de ciclo perdendo força”, avalia Borsoi. Foram criados 517 mil postos de trabalho em janeiro, muito acima das projeções (186 mil).

Borsoi entende que as declarações do presidente não são construtivas, e vê uma cisão entre a alas política e econômica do Governo, que tem reflexo no real: “Estamos muito atrasados em termos cambiais, não conseguimos engrenar devido aos problemas domésticos”, opina.

De acordo com o boletim da Ajax Asset, “lá fora, juros dos Treasury Bonds (título do Tesouro dos Estados Unidos) recuam moderadamente o que desfavorece o dólar. Por aqui, comentários de Lula sobre juros, metas de inflação e autonomia do Banco Central (BC) tendem a elevar as incertezas em torno do cenário de inflação, o que resultará em maiores juros”.

“Eu acho que eles os presidentes da Câmara e do Senado imaginavam que, fazendo o Banco Central autônomo, a economia voltaria a crescer, os juros abaixariam e tudo ia ser maravilhoso. O Brasil precisa voltar a crescer. Não existe nenhuma razão para a taxa de juros estar em 13,75%, O que está na pauta é a questão da taxa de juros”, disse Lula à Rede TV.

As taxas dos contratos futuros de Depósitos Interfinanceiros (DI) fecharam em alta após declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre a autonomia do Banco Central e o nível das metas de inflação. O DI para janeiro de 2024 tinha taxa de 13,815% de 13,645% no ajuste anterior; o DI para janeiro de 2025 projetava taxa de 13,250%, de 12,990%, o DI para janeiro de 2026 ia a 13,130%, de 12,825%, e o DI para janeiro de 2027 com taxa de 13,155% de 12,840% na mesma comparação. No mercado de câmbio, o dólar operava em alta, cotado a R$ 5,1360 para venda.

Os principais índices do mercado de ações norte-americanos fecharam a sessão em queda, depois que o relatório de empregos para janeiro veio muito acima das previsões, acabando com o otimismo em Wall Street de uma pausa nos aumentos dos juros. Ainda assim, o S&P registrou seu quarto ganho semanal em cinco semanas.

Confira abaixo a variação e a pontuação dos índices de ações dos Estados Unidos após o fechamento:

Dow Jones: -0,38%, 33.926,01 pontos
Nasdaq 100: -1,59%, 12.007,0 pontos
S&P 500: -1,03%, 4.136,48 pontos

Com Paulo Holland, Pedro do Val de Carvalho Gil e Darlan de Azevedo / Agência CMA.