Bolsa fecha em forte queda, interrompendo a sequência de 5 altas, por temor à inflação global; dólar sobe

94

São Paulo- A Bolsa interrompe a sequência de cinco altas seguidas e fecha em queda de 2,33%, em um dia de forte aversão ao risco com os investidores temerosos à escalada da inflação mundial e como os bancos centrais vão agir para conter esse movimento de alta. A desaceleração da economia chinesa também fica no radar do mercado.

Somado ao contexto global, por aqui as ações das varejistas são um fator de atenção dos investidores com a expectativa de menor retomada para o setor e o reflexo na economia doméstica.

Em um pregão de forte queda, a maioria dos papéis recuou. O destaque ficou para o Banco Inter (BIDI11), banco digital de varejo, que perdeu 8,61%. A ação da construtora MRV (MRVE), que pertence ao mesmo dono do Banco Inter, desvalorizou 5,51%.

O principal índice da B3 caiu 2,33%, aos 106.247,15 pontos. O Ibovespa futuro com vencimento em junho perdeu 2,70%, aos 107.045 pontos. O giro financeiro foi de R$ 29,5 bilhões. Em Nova York, as bolsas registravam forte baixa.

Virgílio Lage, especialista da Valor Investimentos, comentou que a sessão mais pessimista de hoje está atrelada “às falas mais dura de Powell da véspera e uma piora da inflação na Europa e lá os bancos centrais não estão enxergando o sentido de urgência de modificar os juros”.

O especialista da Valor Investimentos acrescentou que por aqui o desempenho das varejistas também prejudica o mercado acionário. “As varejistas estão com perspectivas mais baixas de retomada do que previam. Acreditavam em uma melhora em seis meses e agora passaram para um ano”.

E reforçou “se o varejo está indo muito mal é o start de uma crise; tem uma perspectiva de piora da economia porque as pessoas começam a cortar recursos”.

Mais cedo, Felipe Moura, analista de investimentos da Finacap, disse que o pregão é de aversão ao risco, principalmente no exterior, ainda com a repercussão das falas de Powell. “O presidente do Fed acabou sendo mais rígido no comunicado, ontem, afirmando que os juros só vão parar de subir quando a inflação estiver caminhando para a meta de 2% e deixou o investidor mais avesso”.

Outro ponto destacado por Moura foi a inflação no Reino Unido-maior alta em 12 meses nos últimos 40 anos. “Os mercados estão se adaptando aos movimentos dos bancos centrais em relação ao aperto monetário. Eles estão um pouco mais atrás da curva de elevação dos juros do que a gente-começamos no ano passado e os EUA passaram a fazer agora”.

Aqui já se especula que “estamos no final do ciclo e o aumento virá em menor magnitude, encerrando a Selic em 13,25%”, afirmou Moura. Em um evento, mais cedo, Bruno Serra, diretor de Política Monetária do Banco Central (BC, disse que o fim da alta do ciclo é prematuro.

O analista da Finacap também chamou a atenção para a retomada hoje da votação para julgar a privatização da Eletrobras. “Os investidores estão colocando bastante otimismo na aprovação, o que levaria a Eletrobras a fazer o processo de capitalização e seria a forma do governo sair do controle. Isso vai ser bom para os papéis da empresa”.

Mais cedo, um analista do mercado financeiro disse que os investidores “não se convencem de que os juros norte-americanos subam apenas 0,50 ponto porcentual (pp) na próxima reunião”.

O dólar fechou em alta de 0,87%, cotado a R$ 4,9840. A moeda refletiu o temor com a desaceleração econômica global, capitaneada pelos Estados Unidos, mas também foi um movimento de correção ante à brusca queda de ontem. O fluxo estrangeiro, por outro, continua dando suporte ao real.

Segundo o sócio fundador da Pronto! Invest, Vanei Nagem, “a desaceleração americana mostra traços mais fortes de uma recessão global. O temor é que além dos juros venham mais medidas para segurar a economia de lá”.

Nagem, contudo, acredita que o intenso fluxo estrangeiro na bolsa ainda serve de suporte ao real: “O dólar era para estar acima dos 3%, poderia ser pior. Ainda existe uma certa resistência para quebrar os R$ 5,00”, opina.

De acordo com o economista-chefe da Infinity Asset, Jason Vieira, “o exterior está pesado, e o dólar puxa lá fora. O movimento é uma correção de ontem”. O economista acredita que o aumento de 0,5% nas duas próximas reuniões do Federal Reserve (Fed) de fato já está precificado, mas agora pairam dúvidas de quanto tempo este ciclo irá durar.

Para o head de tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt, “o movimento não deve ser como ontem. O mercado está volátil, mas a China ainda exerce efeito positivo com as commodities, especialmente soja, milho e minério de ferro”.

Weigt avalia que além do país asiático, os juros continuam tornando o Brasil atrativo, mas alerta: “O auge da inflação está passando, e agora o medo é o crescimento global ser afetado, o que pode atingir as commodities e o real”, chama a atenção.

As taxas dos contratos futuros de Depósitos Interfinanceiros (DI) fecharam de lado com o mercado ainda digerindo fala de Jerome Powell, presidente do Federal Reserve, em que ele admite que “continuará insistindo” em apertar a política monetária até ficar claro que a inflação está arrefecendo.

O DI para janeiro de 2023 tinha taxa de 13,330% de 13,370% no ajuste anterior; o DI para janeiro de 2024 projetava taxa de 12,990%, de 13,055%, o DI para janeiro de 2025 ia a 12,380%, de 12,455% antes, e o DI para janeiro de 2027 com taxa de 12,170% de 12,230%, na mesma comparação.

Os principais índices do mercado de ações dos Estados Unidos fecharam a sessão em forte queda, com a Nasdaq e o S&P caindo acima dos 4%, após o balanço de mais uma grande varejista norte-americana divulgar um balanço trimestral em que alerta para o aumento dos custos, confirmando os temores de uma inflação persistente.

Confira abaixo a variação e a pontuação dos índices de ações dos Estados Unidos após o fechamento:

Dow Jones: -3,57%, 31.490,07 pontos
Nasdaq Composto: -4,73%, 11.418,2 pontos
S&P 500: -4,03%, 3.923,68 pontos