Bolsa fecha em forte queda e dólar sobe com temor à inflação e em véspera de Copom

São Paulo- A Bolsa fechou em queda de 2,11%, aos 106.419,53 pontos, em um dia em que as atenções do investidor ficaram por conta do resultado pior que o esperado pelo mercado do Indice de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15), uma prévia da inflação oficial do País. O indicador avançou 1,20% em outubro ante setembro e os analistas previam alta de 0,98%. No final da sessão teve uma pressão vendedora e a maioria das ações do índice encerrou em baixa.

Atrelado a isso, os investidores também ficaram com foco na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), que decide amanhã (27) sobre a taxa de juros do País (Selic). O mercado aposta em uma elevação entre 1,25 ponto porcentual (pp) e 1,5pp para a Selic.

Para Viviane Vieira, operadora de renda variável da B.Side Investimentos, o pessimismo na sessão de hoje é por conta da inflação, apesar que a Bolsa já vem em um movimento de retração desde a semana passada, e ontem o alívio veio devido à falta de notícia no fim de semana que pudesse impactar o mercado. “Não estamos conseguindo acompanhar o exterior que está batendo recordes, mas se estivesse ruim lá fora a Bolsa estaria muito pior”, ressaltou.

A operadora de renda variável da B.Side Investimentos disse que “a insegurança em relação ao Brasil continua com a inflação mais forte, o risco fiscal com o teto de gastos e o impasse da PEC dos precatórios”, mas acredita que com os balanços corporativos bons os ânimos dos investidores poderão melhorar.

Bruno Komura, analista da Ouro Preto Investimentos, afirmou que no pregão desta terça-feira a Bolsa reflete o IPCA-15 acima das expectativas do mercado. “Com o indicador de hoje, vemos que a inflação não chegou no pico, e ainda tem poder para surpreender para cima”.

Komura destacou que um dos principais fatores para essa alta é a Petrobras subindo o valor dos combustíveis. “Por mais que seja bom para a empresa acaba impactando a economia como um todo por pressiona a inflação”.

Ele comentou que o Banco Central (BC) tem sinal verde para seguir em um ritmo mais acelerado para aumentar os juros e “acaba impactando as ações com múltiplos mais altos, que dependem muito de crescimento”. O movimento de aceleração da inflação não está restrito ao Brasil, “observamos uma pressão inflacionária global”, enfatizou.

Leonardo Santana, especialista em ações da Top Gain, acrescentou que a Bolsa tem novamente um dia de estresse com os dados altos do IPCA-15 indicando preocupação com inflação, à véspera de decisão do Copom que pode forçar o Banco Central (BC) a elevar mais a Selic. “Após Paulo Guedes [ministro da Economia] ter pressionado o BC para correr atrás da curva de juros e agora o IPCA-15 acima do esperado, o mercado está precificando entre 1,25 ponto porcentual (pp) a 2 pp de alta para a taxa de juros básica do País”. Atualmente a Selic está em 6,25% ao ano (aa).

A expectativa de juros mais altos faz as ações ligadas a viagens, comércio e setor imobiliário caírem. Os papéis da Azul (AZUL 4) baixaram 8,37% e CVC Brasil (CVCB3) perderam 6,83%, por exemplo. As ações do setor financeiro, Vale e Petrobras tiveram forte desvalorização.

Mais cedo foi divulgado o resultado de empregos formais da economia Caged, que abriu criou 313.902 empregos formais em setembro, uma piora em relação ao mês de agosto deste ano -368.091-e em comparação com setembro do ano passado-319.151. O resultado foi de 1.780.161 contratações e 1.466.259 demissões.

Para o especialista em ações da Top Gain, a Bolsa “trabalha mais pesada por conta dos números piores do Caged mostrando a dificuldade em gerar empregos”. A Top Gain previa a geração de 367 mil empregos formais.

O dólar comercial fechou em R$ 5,5730, com alta de 0,34%. A moeda norte-americana subiu durante toda a sessão, impulsionada pela alta do Indice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) – 1,20% em outubro ante setembro -, incertezas fiscais, e da expectativa para o aumento agressivo da Selic (taxa básica de juros), a ser divulgada amanhã.

De acordo com o economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Newton Rosa, “a aversão ao risco e a alta da inflação refletem no dólar. Mesmo com a Selic revisada para cima, o dólar continua valorizado. A percepção de risco no mercado brasileiro aumentou muito”.

Rosa não titubeia quanto às consequências do arroubo fiscal: “O teto foi praticamente demolido, então o trabalho para segurar a inflação vai ser muito grande”, prevê. O economista sublinha que a inflação para 2022 já está muito mais próxima do teto que do centro da meta, e agora o desafio do Banco Central (BC) é evitar que isso comece a refletir em 2023.

Segundo o CEO da Top Gain, Alison Correia, “tem-se a ideia equivocada de que aumentar os juros controla o dólar”. O executivo considera que o Banco Central (BC) está corrigindo um erro na política monetária: “Eles pressionam a taxa de juros antes da hora, sem tomar em conta a recuperaçã pós-pandemia”, analisa.

Correia não enxerga que a moeda norte-americana arrefeça tão cedo: “Faz dois anos que não vemos o dólar perder o fôlego, não temos parâmetro para isso”, constata. Ele ainda de maneira positiva a continuidade do ministro da Economia, Paulo Guedes, embora este tenha se mostrado cada vez mais frágil: “Ele não consegue nem segurar a sua equipe econômica”, constata.

Como exemplo, Correia cita a Argentina: “Eles têm uma taxa de juros por volta de 60%, mas ainda assim os investidores fogem de lá”, contextualiza, comparando com a situação brasileira, alegando que é difícil imaginar um grande aporte de investimentos no país.

As taxas dos contratos futuros de Depósitos Interfinanceiros (DI) fecharam em alta após resultado do IPCA-15, chamado de ‘prévia da inflação’, vir “bem pior” do que o esperado pelo mercado, o que deve pressionar ainda mais a reunião do Copom por um ajuste mais duro na taxa Selic.

Ao final da sessão regular, o DI para janeiro de 2022 tinha taxa de 8,500% de 8,308% no ajuste anterior; o DI para janeiro de 2023 projetava taxa de 11,590%, de 11,130%; o DI para janeiro de 2025 ia a 11,920%, de 11,640% antes, e o DI para janeiro de 2027 com taxa de 11,960% de 11,810%, na mesma comparação.

Os principais índices do mercado de ações norte-americano fecharam o dia em alta, depois de atingirem novos recordes, embalados pelos resultados trimestrais mais fortes das empresas e também por dados que mostraram uma recuperação na confiança do consumidor nos Estados Unidos.

Confira abaixo a variação e a pontuação dos principais índices de ações dos Estados Unidos no fechamento:

Dow Jones: +0,04%, 35.756,88 pontos
Nasdaq Composto: +0,06%, 15.235,70 pontos
S&P 500: +0,18%, 4.574,79 pontos