Biden usa coletiva solo para convencer o mundo sobre mensagem forte a Putin

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, no Salão Oval da Casa Branca / Foto: Casa Branca

São Paulo – Ao contrário do que tradicionalmente acontece após um encontro com um líder global, o presidente norte-americano, Joe Biden, realizará amanhã uma entrevista coletiva sozinho ao final da reunião bilateral com o presidente russo, Vladimir Putin, evitando o que especialistas dizem que pode ser um momento de grande risco tanto para sua política externa como para sua política interna.

“Biden chamou Putin de um líder durão e brilhante e disse que ofereceria cooperação a um adversário digno, mas as relações entre Estados Unidos e Rússia estão no nível mais baixo da história recente”, disse o economista chefe e estrategista global da ADM Investor Services, Marc Ostwald, referindo-se ao discurso feito ontem por Biden ao final da cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), em Bruxelas.

Na ocasião, Biden disse que não gostaria de entrar em confronto com a Rússia e que era interesse do mundo que Washington e Moscou tivessem uma relação estável, mas indicou que não hesitaria em responder com firmeza a qualquer provocação russa.

Um dos principais objetivos da Casa Branca na reunião de amanhã, em Genebra, na Suíça, será mostrar que Biden transmitiu uma mensagem forte a Putin, em contraste com a relação próxima que seu antecessor Donald Trump buscou projetar em seu primeiro encontro com o líder russo.

Após a reunião em Helsinque, Finlândia, Trump optou por fazer uma entrevista coletiva conjunta com Putin e disse que confiava na palavra o líder russo sobre a da comunidade de inteligência dos Estados Unidos em relação à interferência da Rússia nas eleições de 2016. O comentário rendeu críticas de legisladores norte-americanos como o falecido senador John McCain, que acusou Trump de não querer enfrentar Putin.

“Este encontro é uma reviravolta em relação à obsessão dos democratas pela Rússia e vem depois que Biden chamou Putin de assassino em um caso de diplomacia ruim”, afirmou o estrategista sênior do Rabobank, Michael Every.

“O encontro com Putin acontece depois de um ataque cibernético russo a um oleoduto dos Estados Unidos e o roubo de um jato e poucos dias depois que os Estados Unidos permitiram que a Rússia concluísse o gasoduto Nord Stream 2 para a Alemanha”, acrescentou.

A reunião bilateral de amanhã segue três cúpulas realizadas por Biden – G-7 (grupo composto por Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá), Otan e União Europeia (UE) – dentro de uma estratégia para reforçar laços com parceiros e aliados dos Estados Unidos e conter a influência de China e Rússia.

A mensagem mais recente nesta direção veio hoje, depois que Washington e Bruxelas anunciaram hoje a resolução de uma disputa que já durava 17 anos envolvendo a Boeing e a Airbus e que prevê a suspensão de tarifas por cinco anos.

Logo após o acordo, a representante comercial dos Estados Unidos, Katherine Tai, afirmou, mencionando a China: “O presidente diz rotineiramente que somos mais fortes quando trabalhamos com nossos amigos e aliados”.

“Geoestrategicamente, esta cúpula é uma tentativa lógica de um ‘Nixon reverso’ para afastar a Rússia da China, que é claramente vista como o problema número um para os Estados Unidos”, afirmou Every, do Rabobank, acrescentando que os norte-americanos não estão fazendo “nenhum esforço para criar um novo guarda-chuva pan-europeu para tentar levar a Rússia de volta para o Ocidente”.

Por isso, o encontro de amanhã representará a chance de uma oferta de cooperação entre Washington e Moscou, já que temas como Ucrânia, Irã, clima, segurança cibernética, Síria, Afeganistão e a Península Coreana estarão em pauta, segundo o assessor do Kremlin, Yuri Ushakov.

Para o economista da Capital Economics para a Europa Emergente, Liam Peach, uma relação de cooperação com os Estados Unidos seria positiva para a recuperação da Rússia.

“[Esse encontro] é uma grande incógnita e todos os olhos estarão voltados para essa cúpula. Uma reversão das sanções impostas pelos Estados Unidos em abril parece muito improvável, mas um bom resultado para os ativos russos seria um relacionamento mais cooperativo com os norte-americanos e a redução do risco de sanções mais duras. Isso poderia ajudar a desencadear uma nova recuperação do rublo”, afirma Peach.