Aumentos das taxas de juros podem ter impacto suave e demorado na economia, diz BCE

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Eurotower, sede do Banco Central Europeu (BCE), em Frankfurt / Foto: BCE

São Paulo – Em entrevista concedida ao jornal belga De Tijd, nesta quarta-feira (7), Isabel Schnabel, membro do Conselho do Banco Central Europeu (BCE), discutiu os efeitos dos aumentos das taxas de juros na economia europeia. Segundo ela, os impactos das elevações podem ser mais suaves e levar mais tempo para se refletir na economia real do que o usual.

“Dada a atual escassez de trabalhadores, podemos esperar que a transmissão da política monetária seja mais fraca do que o normal”, disse Schnabel, que também é chefe de operações de mercado do BCE, ao jornal.

No último ano, o BCE elevou os custos dos empréstimos em 3,75 pontos percentuais (pp), com o objetivo de controlar a inflação na zona do euro. Ainda assim, segundo estimativas da própria instituição, a queda dos preços ao consumidor pode levar anos para atingir a meta de 2%.

“Dada a alta incerteza sobre a persistência da inflação, os custos de fazer muito pouco continuam a ser maiores do que os custos de fazer demais”, observou Schnabel.

Segundo ela, a transmissão da política monetária pode ser mais fraca do que o normal devido à escassez de trabalhadores. A dirigente explicou que, atualmente, os empréstimos com taxas de prazo fixo se tornaram mais predominantes, o que significa que levará mais tempo para ver os efeitos de uma política monetária mais apertada, já que os termos do empréstimo são reavaliados ao longo de vários anos.

“Dada a atual escassez de trabalhadores e o predomínio dos empréstimos com taxas de prazo fixo, pode levar mais tempo do que antes para vermos o impacto da política monetária mais apertada”, afirmou Schnabel.

Ela ressaltou que, dada a alta incerteza em relação à persistência da inflação, é mais custoso para o BCE fazer muito pouco do que fazer demais. Segundo a integrante do Conselho, se a política monetária não fosse rígida o suficiente, a inflação se enraizaria, tornando mais difícil combatê-la posteriormente.

“Os custos de fazer muito pouco continuam a ser maiores do que os custos de fazer demais. Se a política monetária não for rígida o suficiente, a inflação pode se enraizar e se tornar mais cara de ser combatida”, alertou Schnabel.

A queda recente na inflação central foi minimizada pela funcionária do BCE, que argumentou que mesmo um pico temporário no indicador não seria suficiente para declarar vitória. Schnabel enfatizou a necessidade de evidências mais convincentes de que os preços cairão para 2% em tempo hábil.

“Simplesmente um pico temporário na inflação não é suficiente para declarar vitória. Precisamos de evidências mais convincentes de que os preços voltarão a cair para 2% dentro de um prazo adequado”, afirmou.

A especialista também discutiu a precisão das projeções do banco, sugerindo que estimativas pontuais podem ser enganosas. Ela propôs a publicação de projeções com faixas de confiança para fortalecer a transparência e a credibilidade do BCE, mesmo reconhecendo que comunicar de forma clara sobre o tema é um desafio.

“Em vez de explicar constantemente a imprecisão das projeções, seria melhor para nossa credibilidade se as publicássemos com faixas de confiança. A transparência fortalecerá nossa credibilidade, embora não negue que seja um desafio comunicar com clareza sobre esse tema”, concluiu Schnabel.