Aumento no pré-sal pode compensar queda no preço do Brent

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Foto divulgação: Petrobras

São Paulo – Caso o preço do petróleo tipo Brent se mantenha, neste ano, em patamares mais baixos do que os observados ao longo de 2018, ao redor de US$ 70,00 o barril, a Petrobras pode ter dificuldades para cumprir com seu planejamento de ajuste financeiro, preveem analistas consultados pela Agência CMA.

Um relatório do UBS aponta que neste início de ano o preço médio do barril de petróleo tipo Brent caiu 18%, principalmente porque a demanda por petróleo no mercado global ficou mais fraca após o surgimento do surto de coronavírus e o temor de um crescimento mais fraco da economia chinesa, um dos países que mais consomem a commodity, pode levar a cotação a patamares próximos a US$ 60,00 por barril.

Para o analista da Ativa Investimentos, Ilan Arbetman, há uma melhora sensível nos índices qualitativos da empresa, que podem fazer com que ela sofra menos em períodos de petróleo mais barato. Contudo, o prolongamento dos patamares atuais de preço vai demandar uma revisão nas metas financeiras da estatal. “Isso certamente prejudicaria alguns planos da companhia, como a redução mais rápida do endividamento e a adoção de uma política de dividendos mais agressiva”.

Apesar disso, o analista acredita que o aumento da extração de óleo no pré-sal, onde os custos de produção são mais baixos, podem ajudar a empresa a compensar parcialmente a variação do Brent.

“Com o novo perfil, focada em Exploração e Produção, ela de fato precisa de preços altos para gerar caixa, mas ainda pode alcançar rentabilidade com o aumento de produção em áreas onde os custos são menores e trabalhar com o preço mais baixo no mercado internacional”, diz Arbetman.

O professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Edmar Luiz Fagundes de Almeida, afirma que a estatal pode compensar parcialmente a perda de receita com a redução de preços de seu principal produto, se apoiando em um aumento da participação de poços onde o custo de extração é mais baixo.

“A reestruturação que eles querem fazer tem a ver com essa questão, uma vez que o pré-sal é uma das áreas mais competitivas da indústria mundial de petróleo. Focando nela, pode melhorar sua rentabilidade”, explicou o professor.

No último trimestre de 2019, o pré-sal correspondeu a 59% do petróleo extraído pela companhia no Brasil. O custo de extração nesta área foi de US$ 3,00, fazendo com que a despesa média do período atingisse US$ 6,50 por barril, US$ 3,00 a menos do que o observado no início de 2018.

Almeida ressaltou ainda que a principal influência sobre a Petrobras será no tempo necessário para que a empresa faça a reestruturação de seu endividamento, já que os impactos da epidemia não estavam nas estimativas iniciais no plano de desalavancagem. “Ainda não se sabe qual cenário teremos. Se os impactos sobre a economia se estenderem ao longo do ano, pode significar o carregamento da dívida por mais tempo”.

De acordo com o analista da Tendências, Walter de Vitto, neste momento de flutuação o Brent não impacta tanto na empresa porque ela ainda não vendeu seus ativos de refino, o que pode ajudar a recompor margens com a venda de derivados de petróleo.

“Ela ainda não completou a mudança de perfil, o que neste momento pode ser positivo. Agora, mais adiante, quando estas transformações forem mais profundas e conforme o petróleo for maior na carteira da empresa, flutuações na cotação da commodity devem impactar no fluxo de caixa”.

Vitto destaca também que a extensão dos impactos econômicos do coronavírus sobre a economia global e sobre a China ainda são difíceis de contabilizar. “O mercado ainda trabalha com impacto no curto prazo, e a curva acabou caindo nos primeiros meses, mas pode ter retomada dos preços no final do primeiro trimestre, caso o vírus seja contido e a produção retomada”.

Neste cenário, Vitto acredita que a previsão de queda na demanda chinesa é de aproximadamente 0,2% com a redução de 170 mil barris por dia (bpd). Já a extensão do problema pode ter efeitos imprevisíveis sobre a economia global, gerando impacto maior sobre os preços da commodity e afetando o fluxo de caixa das petrolíferas.