Após BC interromper ciclo de cortes na Selic, mercado debate duração da pausa

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O presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, durante cerimônia de transmissão de cargo.

São Paulo, 17 de setembro de 2020 – O Comitê de Política Monetária (Copom) interrompeu ontem, conforme esperado, o ciclo de cortes na taxa básica de juros, mantendo-a em 2%. Diante disso, o mercado financeiro esquenta o debate sobre a duração da pausa e qual será o próximo passo na condução da Selic, após o Banco Central deixar uma fresta aberta para novos cortes, mas apontar para os riscos fiscais e inflacionários, o que poderia levar a uma reversão do movimento.

O estrategista-chefe do BB Investimentos, Roger Marçal, observa que embora tenha sinalizado expressamente “que não pretende reduzir o grau de estímulo monetário”, o Copom alertou para o risco de uma piora significativa nas projeções de inflação e também para as preocupações de cunho fiscal. “Ou seja, o BC sinalizou como necessário uma política monetária estimulativa, mas o espaço para novos ajustes se reduziu e, se houver,  dependerão da trajetória fiscal”, avalia.

Nesse sentido, há pouco espaço para novos cortes nos juros básicos, avalia o economista da Guide Investimentos, Victor Beyruti. “Esta visão corrobora a decisão de manter a Selic em patamares reduzidos por mais tempo”, afirma. Contudo, ele observa que, até o momento, o mercado financeiro doméstico não parece acreditar na manutenção da taxa em 2% ao longo de todo o ano que vem. “[As taxas dos] DIs apontam para pelo menos três altas da Selic em 2021”, pondera Beyruti.

Para o estrategista sênior do Rabobank, Maurício Une, a Selic deve seguir baixa por muito tempo, mas isso não impede altas moderadas na taxa no médio prazo, considerando-se o regime de metas de inflação. “A autoridade monetária concluiu seu ciclo de flexibilização, pois há pouco ou nenhum espaço para mais cortes. O Copom deve manter a Selic em 2,00% até o terceiro trimestre de 2021, iniciando a alta no quarto trimestre até 3,00% ao final do ano que vem”, prevê.

Já o economista-chefe de mercados emergentes da Capital Economics (CE), William Jackson, admite ter uma visão mais suave (“dovish”) em relação à precificação na curva a termo de juros futuros. “A política monetária deve ser mantida, com a taxa básica seguindo no piso histórico até 2022”, diz, acrescentando que “é muito pouco provável que o Copom eleve a Selic no ano que vem” por causa das perspectivas para a recuperação econômica.

Na mesma linha, o analista do Société Générale, Dev Ashish, também não prevê o início de um processo de aperto monetário em 2021. Em contrapartida, ele avalia que o espaço para um afrouxamento adicional ficou ainda maior. “O BC deixou espaço para uma nova queda, mas com a taxa de juros reais já negativa e o real sob pressão consistente, essa possibilidade é muito pequena, a não ser que a autoridade monetária esteja convencida de que a trajetória fiscal é completamente sustentável”, avalia.