Ainda sob o impacto da guerra na Ucrânia, como o petróleo continuará a influir nos preços globais?

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São Paulo, 3 de agosto de 2022 – O preço do petróleo, embora tenha se estabilizado em torno de US$ 100, ainda é considerado alto. E não há, no horizonte de médio prazo, possibilidade de que ele venha a ceder. A influência da commodity nas economias de todo o mundo é o assunto desta edição da Perspectiva CMA Internacional.

 

Após o início da guerra na Ucrânia, as sanções impostas à Rússia pelos Estados Unidos e Europa prejudicaram bastante o comércio entre a potência russa e os demais países europeus. Por conta disso, o preço do petróleo explodiu, chegando a picos de US$ 130.

 

“A Rússia tem se tornado um grande provedor de energia para o mundo e, agora, com Europa e Estados Unidos recusando as importações e restringindo as empresas da Rússia, temos um cenário um pouco mais arriscado”, diz Lucas Brunetti, analista de commodities na Garde Asset Management.

 

A Rússia passou a vender para a Ásia, o que ajudou a compensar grande parte das perdas, e o preço do barril deu uma acalmada. A China – aproveitando a queda nos preços – viu suas importações atingirem 2 milhões de barris por dia pela primeira vez. As importações da Índia também dispararam, chegando perto de 900 mil barris por dia em maio.

 

Segundo Brunetti, o crescente risco de recessão global, a piora da situação da Covid-19 na China e o prolongamento da guerra ampliam os riscos para o mercado de petróleo daqui para frente. De acordo com ele, a próxima rodada de sanções pode mirar os fertilizantes russos e da Bielorrússia. “O Brasil está conseguindo comprar os fertilizantes desses países, mas corre o risco de não conseguir mais”, diz.

 

Acompanhe a entrevista completa com Brunetti:

 

 

Aumento na produção dos Estados Unidos não impacta mercado mundial

 

Nos Estados Unidos, a produção de petróleo diária ainda está aquém da máxima alcançada no período pré-pandemia, quando em 2019 o país chegou a bombear 12,3 milhões de barris por dia. O tema é motivo de confronto entre o presidente Joe Biden e as petroleiras, uma vez que o alto preço da gasolina tem impactado na inflação.

 

Biden argumenta que existe capacidade para expandir a produção – o que as petroleiras negam – e reforça que elas não o fazem para continuarem lucrando com os altos preços do barril. Para o analista da Levante Investimentos, Flavio Conde, o aumento da produção não seria suficiente para conter o preço da commodity.

 

“Não faz diferença porque a Rússia exporta mais de 10 milhões de barris por dia, metade deles para a União Europeia, então um leve aumento não impacta tanto”, explica Conde. “Ao mesmo tempo que as petroleiras estão satisfeitas com a situação, tem empresa que ganha mais com o petróleo a US$ 105 do que a US$ 85”, completa.

 

Conde ainda acrescenta que o aumento na produção não acontece da noite para o dia, e os impactos não seriam vistos no curto prazo. “As mudanças entram de uma maneira vagarosa, então a saída é reduzir o consumo para evitar a possibilidade de algum racionamento”, explica.

 

 

O papel da Opep

 

Já do lado da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), o projeto de transição para energia verde deve impedir grandes investimentos e, portanto, continuar limitando sua produção de petróleo. É o que afirma a diretora de economia e mercado globais no Rabobank, Jan Lambregts.

 

Segundo ela, a Opep compreende que o atual impulso global em direção à energia sustentável provocará uma fuga da dependência de combustíveis fósseis. Assim, investir no médio e longo prazo pode não ser lucrativo no futuro, já que muitos países vão parar de comprar petróleo. Além disso, a recessão mundial iminente freia mais investimentos na produção.

 

“A inflação muito alta consome os gastos discricionários do consumidor e leva os bancos centrais de todo o mundo a apertar as condições da política monetária. Isso aumenta os riscos de uma recessão global, o que pode colocar os preços de combustível sob uma pressão significativa”.

 

Dessa forma, a situação do petróleo é delicada. “Na medida em que os países têm de ser seduzidos a investir em nova capacidade de produção, eles hesitarão em fazê-lo sem compromissos ou contratos de médio a longo prazo”, conta Lambregts.

 

Segundo a especialista, a melhor estratégia da Opep seria “firmar contratos de longo prazo com a Europa para ajudar a aliviar problemas de fornecimento de curto prazo em troca de fazer parte de um processo de transformação gradual do fornecimento energético”. Lambregts, no entanto, afirma que isso é mais fácil dizer do que fazer.

 

Darlan Azevedo, Julio Viana e Larissa Bernardes / Agência CMA

 

Edição: Dylan Della Pasqua e Vanessa Zampronho

 

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