Volta de investidor estrangeiro será gatilho para Bolsa e dólar

Por Danielle Fonseca, Flávya Pereira e Olívia Bulla

São Paulo – Após uma forte retirada de investimentos de estrangeiros na B3 ao longo do ano, há alguns sinais de que esse investidor pode estar voltando, o que seria o gatilho para um esperado rali de fim de ano da Bolsa e para o dólar encerrar 2019 abaixo de R$ 4,00, avaliam analistas.

As primeiras evidências da volta de fluxo externo surgiram no fim de outubro, já com dez dias seguidos de saldo positivo de estrangeiros no mercado secundário, de 21 de outubro a 1 de novembro.

No entanto, a avaliação é que esses investidores só voltarão com mais força quando começarem a ver indicadores macroeconômicos mais robustos e a continuidade do andamento da agenda de reformas, após a reforma da Previdência já ter sido aprovada. Também é necessário que, como pano de fundo, o cenário externo siga mais tranquilo, permitindo o aumento de aportes em mercado emergentes.

O analista da Necton Corretora, Glauco Legat, destaca que o Ibovespa já subiu 22% no acumulado no ano, até outubro, basicamente com fluxo interno. “Os estrangeiros têm tido parcela nos IPOs e follow ons, mas no mercado secundário não vem aparecendo. Vamos ver se agora voltam de maneira mais clara em um contexto de recuperação mais evidente”, disse. “O Brasil tem uma pequena fatia no market cap global, então, se fundos internacionais alocarem um pouco mais já pode dar uma chacoalhada por aqui”, completou.

Considerando não só o mercado secundário, mas também o primário, que inclui ofertas, o saldo estrangeiro está negativo em R$ 1,218 bilhão no ano até 1 de novembro, mas, quando se olha para o mercado secundário, o saldo é negativo em R$ 27,158 bilhões.

Mesmo assim, o Ibovespa não só subiu 22% no ano, como tem renovado seus recordes, chegando à máxima histórica de 109.352,12 pontos na última segunda-feira (4). A previsão da Necton é que o índice chegue a 112 mil pontos no fim do ano, com viés de alta.

O estrategista de mercado do BB Investimento, Hamilton Moreira Alves, reitera que a volta do capital externo à renda variável é fundamental para dar consistência ao movimento do Ibovespa rumo a novos topos históricos. “Precisa de dinheiro novo para não ser um falso rompimento”, avalia.

Segundo ele, a continuidade do fluxo de recursos estrangeiros vai depender de alguma sinalização por parte do governo e/ou algum indicador econômico doméstico capaz de mostrar que o Brasil está “se ajeitando”. “Precisa de algum fundamento para atrair o capital externo”, emenda. “Aí o ‘gringo’ vai olhar o Brasil e ver que o país tem potencial”, conclui.

Uma dessas sinalizações do governo foi o “pacote” do ministro da Economia, Paulo Guedes. O ministro entregou ontem ao Congresso, ao lado do presidente Jair Bolsonaro, três Propostas de Emenda à Constituição (PECs), que incluem, por exemplo, a reforma administrativa, que pode permitir mudanças nas carreiras de servidores públicos. A expectativa de Bolsonaro é que as medidas possam ser aprovadas até os meados de 2020.

“Mesmo que a resposta da economia ainda demore um pouco, o governo precisa mirar certo”, acredita o economista-chefe do banco digital Modalmais, Alvaro Bandeira, se referindo às medidas. Nesse cenário, Bandeira prevê que o Ibovespa chegue a 115 mil pontos até o fim do ano, projeção que possui desde o início do ano.

O economista ainda destaca que eventos como o leilão de excedentes da cessão onerosa, que ocorre hoje, também são bem vistos por estrangeiros e podem ser um termômetro do interesse no Brasil. O leilão da cessão onerosa está sendo considerado o maior certame de petróleo já realizado no mundo e a previsão é que possa levar a uma arrecadação de R$ 106,56 bilhões para o governo, embora algumas empresas estrangeiras como a BP e a Total, tenham desistido de participar, o que chegou a gerar algum receio.

EFEITOS NO DÓLAR

Caso se confirme a expectativa de entrada de fluxo estrangeiro, com o leilão sendo um dos atrativos, haverá também impacto no câmbio. “A expectativa é que esse leilão atraia investimentos de longo prazo, coisa grande”, diz o diretor superintendente de câmbio da Correparti, Jefferson Rugik. A entrada pontual de recursos estrangeiros já corroborou para o alívio do dólar no mercado local, o que fez a moeda recuar 3,4% em outubro.

Porém, para a analista da Toro Investimentos, Luana Nunes, a entrada de recursos deverá ser menor do que a esperada, mantendo o dólar entre R$ 3,95 e R$ 4,00 nas próximas semanas, como já sinalizado pelo relatório de mercado do Banco Central (BC), o Boletim Focus, que estima a moeda em R$ 4,00 ao fim de 2019. “Além disso, é preciso estar atento à fuga de capitais comum no fim do ano. Mas isso geralmente já é precificado”, reitera.

Edição: Eduardo Puccioni (e.puccioni@cma.com.br)

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