Volátil, ação da Méliuz chama atenção e sobe 24% em 4 dias; veja o que esperar

O papel tem tentado se recuperar em meio ao desdobramento das ações e entrada no Ibovespa, após tombo de 40% em agosto

São Paulo – As ações da empresa de cupons de desconto e cashback Méliuz (CASH3) têm chamado a atenção dos investidores por apresentar forte volatilidade nos últimos dias, com analistas apontando um movimento de correção após um tombo de 40% do papel em agosto em meio a um desdobramento das ações da companhia e da sua entrada no Ibovespa (principal índice da bolsa brasileira) em setembro.

A avaliação ainda é que, embora a empresa apresente potencial de valorização e esteja se fortalecendo com aquisições, há desafios no curto prazo, o que pode manter alguma volatilidade. No mês, até o pregão de ontem (16), o papel avança 8% e só nesta semana acumula alta de 24,28%. No ano, a valorização é de 194,80%.

A Méliuz abriu seu capital na B3 em novembro de 2020, quando levantou mais de R$ 629 milhões com os papéis fixados a R$ 10. Com o objetivo de usar parte dos recursos do oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) em aquisições, em maio, deu um novo passo ao comprar 100% das ações do banco digital Acesso, por R$ 324,5 milhões, e em julho, a Alter, especializada em negociação de criptoativos, por R$ 25,9 milhões. Também em maio fez um programa de recompra de ações. Porém, os resultados do segundo trimestre, divulgados em agosto, decepcionaram investidores, com a Méliuz apresentando prejuízo de R$ 6,692 milhões no período.

Somado a esses fatores, a companhia anunciou um desdobramento de suas ações no final de julho e que foi concluído no dia 9 de setembro, na razão de um para seis, ou seja, o valor unitário da ação da Méliuz ficou seis vezes menor, possibilitando que mais investidores, inclusive menores, comprassem os papéis e aumentando a sua liquidez. A empresa ainda chamou mais atenção ao entrar na atual carteira do índice Ibovespa, válida de setembro a dezembro.

Para o analista Luis Sales, da Guide Investimentos, depois do tombo de agosto havia muitos investidores vendidos na ação, levando outros investidores a uma corrida para zerar a reação de venda, o que pode ter provocando o movimento chamado de “short squeeze”.

“Nesse caso, acho que os fundamentos da companhia são secundários. O papel subiu muito forte, provavelmente deve ser algum fundo alavancando e zerando posições. Como houve muita queda no mercado recentemente, o papel pode ter sido penalizado nesse movimento”, comentou.

Para ele, o programa de recompra e a divisão das ações anunciadas recentemente pela companhia também podem ter colaborado para o movimento de alta dos últimos dias. “Por mais que o ‘split’ não tenha efeito tão prático, gera liquidez e ajuda o movimento de alta das ações”, avalia Sales.

Em relação aos resultados da empresa, o analista acredita que por ser uma startup, é normal apresentar algum prejuízo e citou movimentos recentes da empresa. “O investidor olha o potencial de crescimento. Antes a empresa tinha parceria com o Banco Pan e recentemente adquiriu o (banco digital) Acesso para ter operações de banking e crédito internamente, o que pode trazer um pouco de problemas no curto prazo. Mas é natural essas startups apresentarem algum prejuízo. Por outro lado, houve crescimento de receitas”, disse.

O sócio da Euroinvest, Augusto Mauricio, também acredita que o papel está sofrendo correções, com investidores aproveitando que ficaram mais baratos. “O papel está em movimento de correção devido à queda e alta grande que a ação sofreu nos últimos tempos. Os investidores acreditam em uma pechincha e estão comparando”.

CAUTELA

Apesar da valorização do papel vista este mês e de ver que a empresa tem potencial, nesta semana o Bank of America (BofA) iniciou a cobertura das ações da Méliuz com recomendação neutra e preço-alvo das ações de R$ 9, citando que pode levar um tempo para a companhia entregar o que promete.

“A Méliuz é uma empresa com uma cultura forte e uma gestão sólida, que entrega resultados em todas as frentes desde o seu IPO. A Méliuz tinha 140 funcionários durante seu IPO e hoje (10 meses depois) tem 300 (ex-fusões e aquisições) e acreditamos que pode levar algum tempo para perpetuar sua cultura em todos os canais, o que poderia impactar os resultados de curto prazo”, disse o BofA em relatório divulgado na última quarta-feira (15).

Os analistas do banco também destacam que embora o negócio principal da companhia seja o segmento de cashback, a Meliuz está cada vez mais focada no negócio fintech, especialmente após a aquisição do Acesso Bank, com o objetivo principal de rentabilizar ainda mais o seu cartão de crédito juntamente com outros produtos.

“Vemos a companhia com a estratégia correta e o alto potencial desse mercado, mas reconhecemos que pode demorar um pouco para pegar; que, juntamente com uma avaliação de 12,8x EV / Vendas 22YE, explica nossa classificação neutra”, finalizou.

Na mesma linha do banco norte-americano, a Genial Investimentos vê potencial com a integração de novos serviços, mas acredita que será difícil a Méliuz manter um forte nível de crescimento pós-pandemia.

A recomendação da corretora, porém, é de compra, com preço-alvo de R$ 12,00 para o papel em doze meses, o que representa uma valorização potencial de 60,43% em relação ao preço atual de R$ 7,48.

“Felizmente, a Méliuz foi positivamente impactada pelo crescimento do comércio eletrônico durante a pandemia e por isso e conseguiu escalar seu modelo de negócio. O crescimento foi robusto, mas deve dar uma desacelerada ao longo dos próximos anos. Não seria possível manter a mesma taxa de crescimento para o pós pandemia. Em contrapartida, acreditamos que os novos serviços e a criação de um ecossistema mais robusto para auxiliar o cliente na sua jornada de shopping e engajá-lo, como, por exemplo, a maior gama de serviços financeiros, manterá os níveis de clientes ativos cada vez mais alto”, disseram os analistas Bruno Rosolini e Eduardo Nishio, em relatório.

Edição: Danielle Fonseca (daniele.fonseca@agenciacma.com.br)