Vídeo terá efeito pequeno na relação de Bolsonaro com Congresso

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Coletiva de Imprensa do Presidente da República, Jair Bolsonaro e Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. (Foto: Isac Nóbrega/PR)

São Paulo – O vídeo da reunião ministerial de abril divulgado na sexta-feira (22) deve ter pouco efeito na relação do presidente Jair Bolsonaro com o Congresso e demonstrou que a tensão maior no cenário político ocorre entre o Executivo e o Judiciário

“O vídeo retrata que uma parcela relevante da crise política neste momento, e da instabilidade institucional, decorre das relações Executivo e Judiciário – que foi quase uma constante em diversas passagens, seja na fala do presidente ou de outros ministros, de incômodo em relação às ações do Poder Judiciário”, segundo Rafael Cortez, cientista político e sócio da Tendências Consultoria.

A reunião, segundo ele, tinha como objetivo construir um discurso, mobilizar o apoio ministerial à agenda do governo e fazer com que a mensagem chegasse à sociedade, visto que era de conhecimento dos presentes que o encontro seria gravado e poderia ser usado pela comunicação do Planalto.

Com isso, o efeito imediato do vídeo em termos políticos é dar mais corpo tanto ao bloco contrário quanto ao bloco favorável a Bolsonaro, visto que em termos processuais “o vídeo não trouxe nenhum elemento adicional a disputas de narrativa entre o presidente Bolsonaro e o ex-ministro Sergio Moro”.

Além disso, há um pano de fundo no qual o governo trabalha para mobilizar o apoio das Forças Armadas e dos partidos do “baixo clero” do Congresso e, por enquanto, isso parece suficiente para que o presidente tenha alguma segurança em seu mandato, segundo Cortez.

Silvio Cascione, diretor da Eurasia no Brasil, avalia que o mais importante para determinar o futuro do presidente é a resolução da pandemia da covid-19. A doença continua se espalhando pelo País, e na semana passada a velocidade de surgimento de novos casos aumentou.

“Provavelmente o Bolsonaro vai se manter no cargo. É difícil retirá-lo por impeachment, denúncia, porque a popularidade dele tende a se manter num nível relativamente alto em relação a presidentes que sofreram impeachment, mas a pandemia ainda está em trajetória de piora, o impacto econômico da crise sanitária ainda está no começo e a combinação dos dois ainda representa um risco”, afirmou.

Cascione aponta que a maior importância do vídeo divulgado na semana passada era a possibilidade de ele conter uma prova inquestionável de que Bolsonaro tentou interferir na Polícia Federal em benefício próprio, o que aumentaria a probabilidade de ser oferecida denúncia contra o presidente. Isso não aconteceu.

“As declarações do presidente são ainda um pouco vagas. Tem muita gente achando que a referência é muito clara, mas para muitos outros não é. Existe ambiguidade quanto a essas falas. Não deu para ter mais convicção de que essa denúncia vai ser oferecida ao presidente, pela falta de prova indiscutível contra o presidente.”

A relação de Bolsonaro com o Congresso daqui para frente – e, junto a ela, a chance de aprovação de reformas econômicas – vai depender de como o presidente lidará com as crises que estão em andamento, em particular a da saúde.

A aproximação do presidente com o chamado centrão – bloco com amplo número de assentos no Congresso, mas que não faz parte oficialmente nem da oposição nem da situação – é marcada pelo oportunismo, segundo Cortez, e baseia-se tanto na necessidade de evitar o debate sobre a interrupção de mandato quanto para preparar terreno para as eleições da presidência da Câmara e do Senado, no ano que vem.

“Os custos, as obrigações dos partidos em apoiar o governo não são muito relevantes. Na questão do Enem, agenda que governo era contrário à prorrogação, os partidos não votaram a favor do governo no Senado e o mesmo movimento poderia ocorrer na Câmara”, disse ele.

Ele diz que é possível haver outros constrangimentos políticos nas próximas semanas – convocação de ministros, por exemplo -, mas que o vídeo não deve reverter a aproximação entre o Congresso e o Planalto.

Cascione, da Eurasia, diz que se Bolsonaro ficar muito fraco, ele deve cair, mas que este não deve ser o caso.

“Com o presidente acuado, fraco, inviabilizado, não vai ter facilidade para fazer reformas estruturantes. Vai estar muito acuado, se defendendo de acusações. Esse é o ambiente de instabilidade. Com uma popularidade já mais baixa, não muito baixa, mas presidente enfraquecido pela crise. Se o presidente atravessa essa crise sem sofrer um impacto, aí a relação dele com o Congresso já é um pouco mais forte. Pode ser um ambiente parecido com o que tinha antes”, acrescentou.