Temor de volta do coronavírus faz Bolsa cair e dólar subir

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Foto: Sergio Roberto Bichara / freeimages.com

Sâo Paulo – O contínuo aumento de casos coronavírus, principalmente em estados norte-americanos, está levando a novas medidas de isolamento social e trazendo temores em relação à recuperação da economia, o que fez o Ibovespa fechar em queda de 2,23%, aos 93.834,49 pontos. Com a baixa de hoje, o índice encerrou a semana com perdas de 2,83%, depois de um aumento da volatilidade nas últimas sessões.

“O aumento de casos pode prejudicar a retomada econômica, já havia sinais de que a economia estava voltando e há medo de que possa frear de novo, já que podemos ter novas quarentenas, mesmo que mais brandas que as anteriores”, disse o sócio e head de produtos da Monte Bravo Investimentos, Rodrigo Franchini.

Franchini ressalta que os Estados Unidos já mostraram recorde no número de casos de covid-19 nas últimas 24 horas e que os números podem continuar aumentando no fim de semana, o que colaborou para a cautela hoje.

Mais cedo, o governador do Texas, Greg Abbot, ordenou o fechamento de bares e impôs restrições às reuniões entre grupos de pessoas enquanto o estado vê um aumento rápido de casos de coronavírus. Já a Flórida apresentou quase 9 mil casos em um dia, uma alta histórica, enquanto os casos na Califórnia subiram em mais de 4 mil hoje, conforme dados divulgados há pouco.

A Força-tarefa da Casa Branca para o coronavírus também voltou a realizar a sua primeira coletiva de imprensa, depois de quase dois meses, nesta tarde. Apesar dos números crescentes, o vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, que comandou a coletiva, alega que o governo está vencendo a luta contra a pandemia e que o aumento de casos está concentrado em uma parte específica do país, além de estar aumentando mais na população mais jovem.

Ainda no exterior, a China começou a enviar mensagens de alerta à Washington de que a pressão norte-americana sobre questões chinesas está fora dos limites, o que pode comprometer compras de produtos agrícolas, segundo informações da agência de notícias “Dow Jones”.

Além do cenário externo pesado, o sócio da Monte Bravo lembra que a liquidez continua elevada nos mercados e que isso colabora para movimentos mais erráticos e para a maior volatilidade, com fluxos mais fortes de compra ou venda provocando mudanças rápidas. Ele ainda destaca que o ambiente político doméstico está mais tranquilo, com o tom mais ameno entre o presidente Jair Bolsonaro e o Judiciário, o que pode favorecer o Ibovespa.

Na próxima segunda-feira, não há muitos indicadores relevantes e a pandemia, com possíveis novas medidas de isolamento, devendo continuar no foco. Para, Franchini, caso não haja uma piora no noticiário no fim de semana, mercados acionários podem abrir em alta e tentar uma recuperação.

No entanto, ao longo da semana, vários indicadores de peso, principalmente, nos Estados Unidos, devem dar mais pistas sobre o ritmo da retomada econômica, como os números de criação de vagas de emprego. O presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), Jerome Powell, também deve discursar. Já na sexta-feira, será feriado nos Estados Unidos e os mercados ficarão fechados no país, podendo reduzir a liquidez também por aqui.

O dólar comercial fechou em forte alta de 2,49% no mercado à vista, cotado a R$ 5,4630 para venda, engatando o terceiro pregão de alta e no maior valor de fechamento em mais de um mês (R$ 5,5750 de 22 de maio) em dia de forte volatilidade influenciado pela cautela de investidores no exterior preocupados com a segunda onda de contaminação por novo coronavírus nos Estados Unidos e os impactos na recuperação econômica do país.

O gerente de mesa de câmbio da Correparti, Guilherme Esquelbek, destaca que lá fora, investidores buscaram “segurança” no dólar, corroborando para a forte valorização da moeda. “Investidores estão preocupados com uma possível desaceleração da economia em função do aumento de casos de coronavírus nos Estados Unidos”, ressalta.

Ele acrescenta que, apesar de fechar no maior valor em um mês, a moeda poderia ter rompido o nível de R$ 5,50 não fosse a intervenção do Banco Central (BC), no fim da manhã, com a venda de dólares no mercado à vista, no qual colocou no mercado US$ 502,5 milhões, e “acalmou” o mercado no início da tarde.

A moeda engatou a terceira semana seguida de alta (+2,72%) influenciada por esses temores de segunda onda de contágio de coronavírus que ganhou força no meio da semana, além de volatilidade exacerbada e com a revisão baixista para as projeções da economia global pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), no qual prevê queda de 4,9% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial.

“A preocupação com a segunda onda de coronavírus foi o grande mote de volatilidade do dólar ao longo da semana”, comenta o diretor de câmbio de uma corretora nacional.

Na semana que vem, início de um novo trimestre e de semestre, as agendas devem pesar no preço dos ativos ao trazerem novos resultados dos desempenhos das economias da China, dos Estados Unidos e da Europa em junho, com a leitura de como está a recuperação econômica, principalmente, com números da atividade industrial, além dos dados do mercado de trabalho norte-americano.

“As leituras finais dos PMIs [índice dos gerentes de compras] devem confirmar retomada mais forte da economia global neste mês. Terá a divulgação da ata da última reunião do Federal Reserve [Fed, o banco central norte-americano] na qual os juros foram mantidos, mas deve trazer sinalização de que estímulos poderão ser intensificados”, avalia a equipe econômica do Bradesco.