Temor com coronavírus faz Bolsa cais 13,92% e dólar ir a R$ 5,0

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São Paulo – O pânico nos mercados, causado pela pandemia do novo coronavírus, ganhou novas proporções hoje com diversos países fechando fronteiras e reduzindo taxas de juros, o que fez o Ibovespa encerrar em queda de 13,92%, aos 71,168,08 pontos, depois de registrar um novo circuit breaker.

Na semana passada, o índice já tinha registrado quatro circuit breakers, na primeira vez na história em que o mecanismo foi acionado tantas vezes em um período tão curto de tempo. Ao longo da crise financeira mundial de 2008, o mecanismo foi acionado seis vezes.

O volume total negociado foi de R$ 52,07 bilhões, sendo que o exercício de opções sobre ações movimentou R$ 21,36 bilhões. Com a queda de hoje, o Ibovespa já recua 31,68% no acumulado do mês de março e 38,46% no acumulado do ano.

“Nunca vi algo igual, quando tento traçar algum paralelo penso que o momento que estamos vivendo não é uma crise como a de 2008, talvez pelo ineditismo, lembre o atentado do 11 de setembro. Ao reduzir os juros ontem, o Fed sinalizou que a situação pode ser mais grave e a recessão citada por Trump hoje já está no radar de todo mundo”, disse o economista da Órama Investimentos, Alexandre Espírito Santo.

Mesmo após o Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) ter cortado a taxa de juros em mais uma reunião extraordinária ontem, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse há pouco que está considerando uma recessão econômica, o que fez Bolsas ampliarem perdas e Wall Street ter a pior performance em 30 anos.

Hoje, o G-7  (grupo composto por Estados Unidos,Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá) também voltou a reiterar que o grupo está “comprometido a fazer o que for necessário” para conter a pandemia e seus impactos econômicos e que, para isso, utilizará das ferramentas fiscais e monetárias disponíveis, preparando ações coordenadas.

Ainda no exterior, diversos países seguem tomando medidas mais drásticas para evitar o aumento do contágio, como o fechamento de fronteiras, caso da França e do Canadá, além de vizinhos como Argentina e Chile.

No Brasil, também aumentam as expectativas de que o Comitê de Política Monetária (Copom) corte a Selic esta semana, o que ajuda o dólar a continuar atingir novos patamares, batendo nova máxima histórica hoje e fechando a R$ 5,0480.

Entre as ações, as quedas foram generalizadas, mas maiores entre as companhias do setor de aviação e turismo, com os papéis da Azul (AZUL4 -35,61%), da CVC (CVCB3 -31,40%) e da Smiles (SMLS3 -28.44%) mostrando as maiores perdas do Ibovespa.

O dólar comercial fechou em forte alta de 4,55% no mercado à vista, cotado a R$ 5,0480 para venda, na maior alta percentual desde o “Joesley Day”, em 18 de maio de 2017 e no maior valor da história com a moeda encerrando acima de R$ 5,00 pela primeira vez na história. O pânico voltou a tomar conta do mercado após o Fed cortar ontem, inesperadamente, a taxa de juros para a faixa entre 0% e 0,25%.

“A nova onda de pessimismo derrubou os mercados, com suspensão dos negócios [circuit breakers] nas bolsas de Nova York e aqui, além de perdas expressivas na Europa e reflexos significativos nas moedas e países emergentes e nos juros futuros”, comenta o diretor da Correparti, Ricardo Gomes, sobre mais uma sessão negativa e de “pânico” para ativos globais.

Na reta final dos negócios, a moeda norte-americana acelerou os ganhos renovando a máxima histórica intraday a R$ 5,0690 (+5,00%), exibindo forte volatilidade ao longo do pregão com oscilação de quase R$ 0,19 na sessão. “Ao jogar dinheiro na mesa, gera mais volatilidade”, diz o economista-chefe da Necton Corretora, André Perfeito, sobre a injeção de liquidez promovida pelos principais bancos centrais nos últimos dias.

À véspera da reunião do Copom, rumores de que o Banco Central (BC) poderá acompanhar a magnitude de corte do Fed e seguir com o afrouxamento monetário em 1,0 ponto percentual (pp) e no qual poderia anunciar ainda hoje, levou investidores à proteção na reta final dos negócios. “Poderia fazer o anúncio hoje, mas cremos que seria muito ousado para nossa tradição”, comenta a equipe econômica do banco Fator.

Os analistas do banco acrescentam que a cotação do dólar, nas últimas semanas, não guarda relação com “diferencial de juros”, apenas com o “risco global” e as oscilações entre as moedas fortes. “Assim, o efeito desse preço deve ter efeito zero na decisão do Copom sobre a Selic”, avaliam.

Para Perfeito, a volatilidade da moeda estrangeira ganha mais peso nesta semana, antes da decisão de política monetária. “Se o BC decide, novamente, por um corte de juros, continuará sustentando a menor atratividade do real. Taxa de juros não é remédio. Aqui, é preciso entender que as medidas para a economia vão além disso”, diz.

Amanhã, além do foco seguir nos desdobramentos do coronavírus, o mercado aguarda o anúncio de medidas econômicas prometidas pela equipe do governo federal ainda hoje, atentos se o Banco Central poderá anunciar intervenções no câmbio após a moeda fechar em patamar inédito. Na agenda de indicadores, tem o resultado da produção industrial e das vendas no varejo nos Estados Unidos em fevereiro.