Tapering de Fed deve vir em novembro; mais membros devem ver alta de juro em 2022

O presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), Jerome Powell / Foto: Fed

São Paulo – O desempenho aquém do esperado do mercado de trabalho deve levar o Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos, a manter sua política monetária inalterada na reunião de quarta-feira, e a anunciar formalmente a redução de compra de ativos em novembro, com mais membros do comitê apostando numa alta de juros em 2022, segundo especialistas consultados pela Agência CMA.

Assim, o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) manterá a taxa básica de juros entre zero e 0,25% ao ano e continuará com o programa de compra de ativos em pelo menos US$ 120 bilhões mensais.

“A cautela devido à covid-19 e os dados de emprego fracos significam que o Federal Reserve deixará a política em espera, mas com a inflação permanecendo elevada e as perspectivas de crescimento permanecendo boas, esperamos um reconhecimento mais explícito de que a redução do afrouxamento quantitativo começará este ano”, segundo os analistas do ING, James Knightley, Padhraic Garvey e Chris Turner.

Eles destacaram que, há seis semanas, vários membros do Fed estavam questionando abertamente a necessidade de estímulos via compra de ativos, incluindo o presidente da unidade do Fed de Saint Louis, James Bullard, e o líder do Fed de Dallas, Robert Kaplan.

“No entanto, o Simpósio Jackson Hole subsequente mostrou que o Conselho estava mais cauteloso devido ao ressurgimento da covid, enquanto o presidente do Fed, Jerome Powell, deixou claro que deseja ver mais progresso no aspecto de emprego de seu mandato”, disseram os analistas.

Na ocasião, Powell disse que “temos muito terreno a cobrir para atingir o máximo de emprego”. Dados do Departamento do Trabalho mostraram que a economia dos Estados Unidos criou 235 mil postos de trabalho em agosto, ante projeção de abertura de 750 mil vagas, com 5,3 milhões de pessoas a menos no trabalho do que em fevereiro de 2020.

“Depois do relatório de empregos fracos para agosto, achamos que o Fed se absterá de dar mais detalhes na próxima reunião”, segundo analistas do Danske Bank, Mikael Milhoj, Arne Rasmussen e Lars Merklin. “Esperar um pouco mais também dá ao Fed um pouco mais de tempo para analisar por que o relatório de empregos foi fraco. Foi apenas ruído ou um sinal de outra coisa?”

Para eles, o Fed está em uma situação muito difícil, na medida em que tem que decidir se combate a aceleração da inflação ou o baixo emprego. O Índice de Preços ao Consumidor (CPI, na sigla em inglês) dos Estados Unidos subiu 5,3% em agosto na comparação com o mesmo mês do ano anterior.

“Dado que a maioria dos membros do Fomc deixou claro que provavelmente seria apropriado começar o tapering antes do final do ano, não achamos que o momento exato de um anúncio seja tão importante agora”, afirmaram. “O ritmo de redução será muito mais importante”. O Danske Bank espera que o Fed reduza as compras em US$ 20 bilhões por reunião, implicando que a redução será concluída em julho de 2022.

O consenso do mercado é de nesta semana o Fed dará um aviso prévio sobre a redução de compra de ativos e fará em novembro um anúncio formal sobre o assunto. A ata da reunião do Fomc de julho mostrou que “os participantes concordaram que o Comitê vai fornecer aviso prévio antes de fazer alterações em sua política de balanço”.

GRÁFICO DE PONTOS E PROJEÇÕES

O Fed divulgará na próxima reunião suas projeções econômicas, que serão estendidas até 2024, o que implica no primeiro “gráfico de pontos”, uma compilação das previsões de cada membro do Fomc, incluindo 2024.

A medida das projeções para os juros para este ano ficou em 2,5% em junho, e em 0,6% para 2023. “Isso deixa espaço considerável para aumentos adicionais em 2024”, de acordo com o estrategista sênior do Rabobank, Philip Marey.

“Enquanto isso, o gráfico de pontos pode se aproximar de um aumento na taxa de juros em 2022”, disse ele. “Obviamente, os riscos colaterais desse cenário continuam sendo os vírus e as restrições de fornecimento”.

O gráfico atual mostra a primeira elevação na taxa em 2023, com sete entre 18 funcionários apostando em 2022 como o ponto de partida para aumentos nos juros. “Poderíamos ver mais um ou dois antecipando suas previsões para 2022”, afirmam analistas do ING, em relatório.

O consenso do mercado é de que as novas previsões do Fed devem mostrar uma leve revisão para baixo no crescimento econômico e uma revisão para cima na taxa de inflação.

“As projeções de inflação devem confirmar que o Fomc ainda pensa que a aceleração da inflação que estamos vendo agora é transitória”, de acordo com Marey, do Rabobank. “Porém, a previsão para 2022 pode nos dar uma ideia do que ‘transitório’ atualmente significa para o Fed”.

Por fim, “Powell deve repetir que o fim da redução gradual das compras de ativos não significará o início da alta de juros”, em declarações à imprensa após a decisão de política monetária.

Em Jackson Hole, Powell disse que “o momento e o ritmo da próxima redução nas compras de ativos não terão a intenção de transmitir um sinal direto em relação ao momento do aumento da taxa de juros, para o qual articulamos um teste substancialmente mais rigoroso. Temos muito terreno a percorrer para alcançar o máximo emprego, e o tempo dirá se atingimos 2% de inflação em uma base sustentável.”