Selic abaixo de 5% trará novo impulso à renda variável

Por Danielle Fonseca e Olívia Bulla

São Paulo – Muito se tem falado sobre a “nova era” de juros baixos no Brasil e o impacto na carteira de investimentos. Após o Banco Central (BC) renovar o piso histórico da Selic (taxa básica de juros) por duas vezes neste ano, e indicar que deve promover novos cortes antes do fim de 2019, especialistas afirmam que é hora dos investidores ampliarem sua exposição a ativos de maior risco, mas sem deixar a cautela de lado.

“O investidor pessoa física vai precisar tomar mais risco para ter uma alocação rentável”, afirma o analista-chefe da Toro Investimentos, Rafael Panonko. Ele lembra que o passado recente foi marcado por uma concentração de portfólio em renda fixa. “Tinha um bom retorno, mas o investidor começa a olhar com frustração, porque quer rentabilidade maior.”

Segundo o analista da Toro, o ambiente de inflação controlada e juros baixos deve perdurar. “E isso tende a engrenar uma tendência de alta da Bolsa e de queda do dólar”, observa. Já há casas que preveem que a taxa básica de juros vá abaixo de 5% neste ano, depois de ter sido cortada a 5,5% em setembro.

Para o gestor da Criteria Investimentos, Vitor Miziara, o momento que o Brasil vive é “transformacional”, com a taxa básica de juros indo a novas mínimas em breve e a Selic seguindo em um nível baixo por um período prolongado. “E as carteiras precisam ser repensadas e otimizadas para refletir este cenário. É necessário um ajuste de risco, buscando retornos reais e que valham ter o dinheiro aplicado”, diz.

O economista da Órama e professor do Ibmec, Alexandre Espírito Santo, concorda que o cenário é mais favorável a investimentos de maior risco, mas destaca que a “velha” recomendação de manter uma carteira de investimentos diversificada é essencial, mesmo com a mudança significativa de patamar da Selic. Além disso, ele avalia que não se deve abandonar completamente a renda fixa.

“Tem muita coisa boa dentro da renda fixa, mas que não tem mais a mesma ‘gordura'”, afirma o economista da Órama. Ele sugere manter 50% dos investimentos em renda fixa, 20% em renda variável e 30% em fundos multimercados. No ano passado, a recomendação era de 60% na renda fixa, 10% em renda variável e 30% em multimercados (fundos que mesclam, a depender da categoria, diversos ativos, como ações, renda fixa, câmbio e derivativos).

SINAL DE ALERTA

Outro alerta de analistas para investidores que irão começar a se arriscar em investimentos em renda variável, e mais especificamente em Bolsa, é que ganhos não são imediatos e que boa parte da queda da Selic já foi antecipada e precificada pelo Ibovespa. Com isso, o principal índice acionário tem potencial para subir mais, mas não necessariamente no mesmo ritmo.

“A alocação de fundos e portfólios mais sofisticados em Bolsa é um movimento que já ocorreu e já foi sentido pelo índice, mas ainda podemos ter uma mudança maior do comportamento dos poupadores no Brasil, tanto de pessoa física como de fundos de pensão. Só que isso não ocorre do dia para noite”, lembra o diretor de investimentos da SRM Asset, Vicente Matheus Zuffo.

O analista de investimentos do banco Daycoval, Enrico Cozzolino, acredita que para o Ibovespa dar um novo salto, buscando novos patamares depois de atingir a máxima histórica (intraday) de 106.650,12 pontos, será preciso não só o fluxo de novos investidores, mas uma melhora da economia real. “Vemos uma tendência de alta da Bolsa no curto e médio prazo com a Selic mais baixa, mas a economia precisa melhorar. Precisamos ver essa melhora na geração de empregos, investimentos em infraestrutura e, consequentemente, nas empresas”, afirma.

Para lidar com os riscos da renda variável e a volatilidade da Bolsa, o estrategista-chefe da Levante Investimentos, Rafael Bevilacqua, lembra que ter ativos ligados à variação do dólar e comprar ações no exterior podem ser maneiras de proteção, trazendo ainda diversificação geográfica às carteiras. “O dólar é o ativo que melhor possui uma correlação negativa com a Bolsa. Ou seja: quando a Bolsa sobe, o dólar cai; e quando a Bolsa cai o dólar sobe – age como se fosse um amortecedor”, explica, em relatório.

MIGRAÇÃO DE RECURSOS

Nesse contexto de juros mais baixos, o estrategista do Itaú BBA, Lucas Tambellini, acredita que um dos gatilhos no curto prazo para atrair investimentos de renda fixa para a Bolsa será o vencimento de cerca de R$ 100 bilhões em LTN (Letra do Tesouro Nacional) que ocorreu ontem, uma vez que no grande vencimento de maio (R$ 88 bilhões) foi possível observar um aumento das entradas nos fundos de ações.

“Esse vencimento pode trazer dinheiro novo para a Bolsa e diante disso os investidores acostumados com investimentos em renda fixa vão migrar para investimentos menos voláteis e mais previsíveis no mercado de ações”, disse, em vídeo a clientes. Entre esses ativos mais previsíveis, Tambellini cita os que têm geração de caixa estável e histórico de boa distribuição de dividendos, como as ações de empresas dos setores de energia, saneamento, shoppings centers e concessões.

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