Saída do Reino Unido da UE expõe disputa por centro financeiro da Europa

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Arte: Adriana Fornereto

São Paulo – A separação entre o Reino Unido e a União Europeia (UE) vai muito além de questões econômicas e comerciais: em jogo está o centro financeiro da Europa. O Brexit despertou uma corrida entre grandes cidades como Paris e Frankfurt por um posto que sempre foi ocupado por Londres, que já enfrenta uma fuga de capital e de empregos.

Embora medidas temporárias tenham sido firmadas entre a UE e o Reino Unido para assegurar a estabilidade financeira europeia, a capital britânica deve sofrer com a saída de bancos e gestores de ativos à medida que um acordo sobre a relação futura com o bloco fica cada vez mais difícil, segundo analistas consultados pela Agência CMA.

“O Reino Unido deixará o regime de passaporte europeu, que permite às instituições financeiras de um país da UE operar em qualquer outro país do bloco sem a necessidade de autorização extra”, afirma o economista chefe para Reino Unido da Capital Economics, Paul Dales.

Segundo ele, isso significaria que as instituições financeiras da UE não poderão atender seus clientes do Reino Unido e as instituições financeiras do Reino Unido não poderão atender aos clientes europeus.

“Não é da intenção de Bruxelas criar uma ruptura repentina no sistema, até porque isso prejudicaria não apenas os britânicos como também todos os membros do bloco”, afirma o economista internacional da Société Générale, Klaus Baader.

Por isso, ele explica, por enquanto, o Reino Unido aprovou uma legislação estabelecendo um regime de passaporte temporário que permite às instituições financeiras da UE continuarem a operar no Reino Unido enquanto estão em processo de obtenção de autorização total.

“E embora a UE não tenha feito o mesmo, o risco de interrupção foi minimizado pelas instituições do Reino Unido que transferiram seus clientes da UE para suas subsidiárias europeias”, acrescenta Baader.

UMA RELAÇÃO DIFÍCIL

O problema, no entanto, encontra-se no fato de que a possibilidade de um acordo entre o Reino Unido e a União Europeia torna-se cada vez mais difícil em um momento no qual o prazo de separação se aproxima. Em 31 de dezembro deste ano acaba o período de transição e os britânicos devem deixar o bloco com ou sem entendimento sobre a relação futura.

“A lei de mercado interno proposta pelo governo britânico destruiu a confiança de Bruxelas em Londres, fazendo com que as probabilidades de um bom acordo até o fim do ano sejam pequenas”, afirma o economista para Europa do Wells Fargo, Nicholas Benenbroeke.

“Agora, está claro que a cidade de Londres deve enfrentar um futuro difícil com a União Europeia”, afirma o economista sênior de mercados do Rabobank, Stefan Koopman. “Bruxelas está ativamente tentando limitar as atividades financeiras para clientes europeus que possam ser realizadas a partir de Londres”, acrescentou.

Segundo Koopman, a relação entre as duas partes deve afetar diretamente fundos de investimento e as chamadas câmaras de compensação.

Arte: Adriana Fornereto

CÂMARAS DE COMPENSAÇÃO

A chamadas câmaras de compensação são instituições financeiras que atuam como intermediárias entre vendedor e comprador para garantir uma transação, estabilizando um sistema financeiro que é negociado em euros no continente, mas precisa ser compensada em outras moedas para continuidade às operações.

Os produtos derivados ou derivativos que essas câmaras compensam incluem operações como mercado futuro, mercado de opões e swaps (troca de moeda).

“Atualmente, câmaras de compensação são um dos mais importantes organismos do sistema financeiro londrino, garantindo não só a importância da capital como também centenas de empregos”, diz Koopman, do Rabobank.

Com o objetivo de proteger a estabilidade financeira e reduzir gradualmente a exposição dos agentes europeus às câmaras, a União Europeia autorizou que bancos e outras instituições financeiras europeias recorreram às câmaras londrinas de compensação por um período de 18 meses, a partir de 1 de janeiro de 2021.

“Sabemos que a União Europeia deseja definir as regras e os padrões em torno dos quais orbita grande parte do mundo, então não seria surpreendente se, eventualmente, o bloco europeu adotar o movimento ‘estratégico’ de decidir, de uma hora para outra, a mudança imediata das câmaras para uma jurisdição europeia, especialmente se as relações Reino Unido-UE não melhorarem”, conclui ele.

FUNDOS UCITS

Além das câmaras de compensação, os fundos também estão em jogo, em especial os UCITSs (Undertaking for Collective Investment in Transferable Securities ou Empresas de Investimento Coletivo em Valores Mobiliários). Eles são fundos de investimento que a regulamentação europeia permite que atuem em toda região do bloco tendo a autorização de apenas um dos estados membro.

“UCITS são o padrão quando se fala em gestão de ativos”, diz Koopman. “Para os gestores de ativos do Reino Unido, por exemplo, o Brexit significará efetivamente a perda de autorização para administrar os fundos em toda a União Europeia, então eles terão que estabelecer subsidiárias em outro lugar no bloco ou mover fundos para subsidiárias existentes”.

“Além disso, em julho, a UE decidiu que não permitiria que os bancos londrinos oferecessem serviços de investimento por atacado a investidores e empresas europeias”, afirma Dales, da Capital Economics.

“No momento, a UE detém o poder de considerar as regras financeiras do Reino Unido equivalentes às regras europeias, o que daria permissões para o serviço, se necessário. Mas com as atuais complicações, isto se torna uma espada pairando sobre muitas atividades baseadas na cidade”, acrescenta Benenbroeke, do Wells Fargo.

“Embora não seja do interesse de Bruxelas criar essa interrupção agora, é lógico esperar um êxodo contínuo, mas gradual, da atividade da União Europeia para as jurisdições do bloco”, afirma ele.

FUTURO CENTRO FINANCEIRO

Com o êxodo de Londres, algumas das maiores metrópoles da Europa entraram em uma corrida para descobrir quem ocuparia o posto de centro financeiro europeu. No entanto, segundo os economistas, isso não será um movimento simples.

“Os requisitos regulamentares são uma grande parte disso”, disse Baader, do Société Générale. “Diferentes centros financeiros estão equipados para assumir diferentes linhas de negócios melhor do que outros”, acrescentou.

Segundo Koopman, do Rabobank, devido a regulamentações fiscais favoráveis, Dublin e Luxemburgo atraem muitos gestores de ativos. Já a ótima infraestrutura de TI atrai plataformas comerciais para 00.

“Paris e Frankfurt desejam hospedar as mesas de front-office mais tradicionais dos bancos, que estão envolvidos em vendas e negociações, por exemplo. Operações concentradas agora devem se espalhar pelo continente gradualmente”, completou.