Saída de ‘gringo’ da Bolsa e juro baixo explicam dólar a R$ 4,00

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Por: Olívia Bulla

São Paulo – As sucessivas retiradas de recursos estrangeiros da Bolsa brasileira, que já somam quase R$ 20 bilhões no ano, e a indicação do Banco Central de que a taxa básica de juros deve renovar o piso histórico atual até dezembro, após o corte de 0,50 ponto percentual (pp) na Selic no mês passado, ajudam a explicar porque o dólar rompeu a barreira dos R$ 4,00 e tem mostrado dificuldade em abandonar o novo nível.

“O BC iniciou um processo de ajuste das condições monetárias que deve jogar a Selic a 5% ou menos no fim do ano. Isto implica dizer que a entrada de dólares para especulação não se sustenta, já que o baixo diferencial entre as taxas de juros deixa o real menos atrativo contra o dólar”, explica o economista-chefe da Necton Corretora, André Perfeito.

Para ele, as operações com o simples motivo de especulação financeira, em busca de retornos atraentes, ganham relevância nesse cenário, uma vez que também se tem observado saída expressiva de capital externo da Bolsa. Dados da B3 mostram que os investidores estrangeiros retiraram quase R$ 8,5 bilhões da renda variável só neste início de mês.

Se confirmado esse montante ao final de agosto, será a maior retirada de capital externo na história da Bolsa, superando a saída recorde em maio do ano passado. E os dados do Banco Central mostram que esses recursos estão mesmo saindo do Brasil, com o fluxo financeiro negativo em US$ 13,8 bilhões no acumulado do ano até meados deste mês.

“O ‘gringo’ não comprou [o governo] Bolsonaro até agora”, afirma um operador sênior de uma corretora local, lembrando que desde as eleições presidenciais, em outubro, só em janeiro e março deste ano houve saldo estrangeiro positivo na renda variável brasileira. Segundo ele, o Ibovespa só não caiu nesse período porque o investidor institucional local e as pessoas físicas estão em busca de rentabilidade.

Esse movimento ocorre porque a taxa básica de juros no Brasil está no menor nível da história e deve buscar novas mínimas em breve. “Isso muda tudo. As carteiras precisam ser repensadas e otimizadas para refletir este cenário”, avalia o sócio e gestor da Criteria Investimentos, Vitor Miziara. Para ele, essa “nova era de juros baixos” tende a provocar uma migração em massa de recursos da renda fixa para a renda variável.

Contudo, o operador da Renascença Corretora, Luís Felipe Laudísio, avalia que a indústria de fundos, que negocia títulos públicos e seus derivativos, tende a seguir como carro-chefe. “Os DIs seguem como o principal ativo negociado na B3 e deve seguir assim, com os investidores alongando suas posições para vértices mais longos, ainda que a Selic siga caindo”, avalia.

E o dólar?

Combinados, esses fatores relacionados à saída de capital estrangeiro pela via financeira e à nova era de juros baixos têm impacto sobre o dólar, desvalorizando o real para níveis preocupantes. Tanto que na semana passada o Banco Central anunciou uma atuação diferente no mercado de câmbio, passando a ofertar dólares em leilão à vista, o que não acontecia desde 2009.

O próprio BC atribuiu, na exposição de motivos, o ambiente de juros baixos à mudança de estratégia. Especialistas citam outros motivos para a postura da autoridade monetária, como a troca de dívidas em dólar por dívidas em reais, reação dos principais bancos centrais à desaceleração econômica e à guerra comercial, além do cenário externo de maior aversão ao risco, principalmente após a eclosão da crise na Argentina.

Seja como for, o analista da Advanced Corretora, Alessandro Faganello, observa que o movimento visa, em última análise, injetar liquidez no mercado, diante dos indícios de maior demanda por dólar em espécie. “Todos esses fatores [citados acima] acabam por refletir uma maior saída de dólares do país, pressionando a cotação da moeda estrangeira”, conclui.

A ver, então, como será a reação do mercado financeiro doméstico aos leilões de swaps reversos e de dólares à vista, que o Banco Central realiza a partir desta quarta-feira. “Tecnicamente é perfeito”, avalia um operador sênior de derivativos de uma corretora estrangeira. “Mas a atuação sinaliza que está faltando ‘dinheiro vivo'”, diz.

Segundo ele, é preciso, então, estar atento à volatilidade dos mercados financeiros, que tem aumentado nos últimos dias, e aos sinais crescentes de desaceleração/recessão da economia global, o que pode elevar a pressão sobre o do BC. “Se o mercado piorar muito, os players vão para cima dele”, pondera.

Edição: Eduardo Puccioni (e.puccioni@cma.com.br)



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