Roberto Azevêdo deixará comando da OMC um ano antes de fim do mandato

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O diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevêdo / Foto: OMC

São Paulo, 14 de maio de 2020 – O brasileiro Roberto Azevêdo confirmou que deixará o comando da Organização Mundial do Comércio (OMC) um ano antes do fim de seu mandato, abrindo caminho para a reforma da instituição em um momento no qual o mundo enfrenta uma recessão e medidas protecionistas voltam a ameaçar a relação entre países.

Citando razões familiares para a decisão, Azevêdo permanecerá como diretor-geral da OMC até 31 de agosto deste ano. Ele estava à frente da organização desde 2013. Em nota, ele afirmou que quer que a OMC não se distraia com uma corrida sobre liderança no próximo ano.

“Esta é uma decisão que não tomo de ânimo leve. Entre o lockdown e minha recente cirurgia no joelho, tive mais tempo do que o habitual para refletir. E cheguei a essa decisão somente após longas discussões com minha família – minha esposa aqui em Genebra, minhas filhas e minha mãe, em Brasília. É uma decisão pessoal – uma decisão familiar – e estou convencido de que esta decisão serve os melhores interesses desta organização”, afirmou em comunicado.

Azevêdo afastou qualquer especulação sobre sua condição de saúde e não contou quais serão seus próximos passos. “Eu também quero ser claro sobre o que não é: não está relacionado à saúde (graças a Deus). Também não estou buscando oportunidades políticas. Espero que o futuro contenha novos desafios, mas, no momento, não sei quais serão”, disse.

A decisão de Azevedo ocorre em um momento no qual a crise do novo coronavírus colocou a economia global em suas circunstâncias mais perigosas e a OMC entrou em um impasse, com guerras tarifárias crescentes e brigas pelas regras da organização entre os Estados Unidos, China e União Europeia (UE).

O presidente norte-americano, Donald Trump, vem criticando a OMC, afirmando que a organização é injusta com os Estados Unidos. Ele chegou a ameaçar deixar a entidade se ela não mudar. Washington diz que o órgão fiscalizador do comércio global se desviou de seu objetivo de liberalizar e proteger os mercados, e que as condições em torno da entrada da China na OMC em 2001 levaram à perda de milhões de empregos nos Estados Unidos.

“Minha partida em agosto dará o tempo necessário para trabalhar com meu sucessor – seja ele ou ela – para definir a direção estratégica da organização e dos meses e anos seguintes”, afirmou Azevêdo na nota.

Sob as regras da OMC, todos os membros podem concordar em selecionar um novo diretor-geral nos próximos meses. O novo chefe da organização pode ser definido ainda este mês, segundo algumas informações na imprensa internacional. Se não houver novo chefe em 1 de setembro, um dos quatro vice-diretores-gerais assumirá o comando do órgão como interino. Eles incluem funcionários seniores dos Estados Unidos e da China.