Resiliência grega à pandemia supera grandes economias da Europa

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São Paulo – A Grécia completou este mês dois anos da saída do programa de resgate europeu como um dos países da zona do euro que melhor está lidando com a pandemia do novo coronavírus devido à ação antecipada aos seus efeitos. Embora veja seu crescimento desacelerar cada vez mais a partir do quarto trimestre, quando o pacote de estímulos à pandemia deve ser encerrado, Atenas continuará a ser uma dos mais resilientes à crise entre as nações europeias.

“O desempenho da Grécia durante a crise do novo coronavírus é relativamente positivo, já que o país superou seus pares da zona do euro no primeiro trimestre. Mas, ainda assim, sua economia foi atingida, principalmente no período entre abril e junho”, afirma a economista para assuntos europeus da Capital Economics, Melanie Debono.

No primeiro trimestre, o Produto Interno Bruto (PIB) da Grécia caiu 1,6% em relação ao trimestre anterior e teve queda de 0,9% em relação ao mesmo período do ano passado, de acordo com a agência de estatísticas oficial do país, a Elstat. Entre janeiro e março deste ano, o PIB da zona do euro caiu 3,6% na comparação trimestral e 3,1% em base anual, segundo dados da Eurostat.

O desempenho da economia grega acima da média em comparação com a zona do euro no primeiro trimestre se deve à implementação rápida de medidas de segurança e isolamento social, segundo a economista para Europa do Rabobank, Maartje Wijfelaars.

“A Grécia identificou cedo os primeiros pacientes e os isolou em hospitais e unidades de tratamento intensivo, limitando o alcance de um maior número de infecções para a região da capital, em Atenas”, afirma Wijfelaars.

A economista do Rabobank chama atenção, no entanto, para as vendas no varejo grego, que “despencaram mais do que em qualquer outra economia da zona do euro em abril e, apesar da forte recuperação em maio, ainda estavam 5,0% abaixo dos níveis de fevereiro”.

DA TRAGÉDIA GREGA À FORÇA

A performance grega vista no primeiro trimestre deve se refletir em todo ano. Projeções feitas pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) indicam que a economia grega deve encolher 8,0% este ano, seguida de uma recuperação de 4,5% em 2021.

Para efeito de comparação, a retração é bem menor do a projetada pela ODCE para países mais robustos do continente, como a França, que deve ver sua economia retrair 11,4%, ou a Itália, que pode ter uma contração de 11,3%.

“Embora a atividade deva se recuperar entre julho e setembro, suspeitamos que essa retomada perderá força no final do ano à medida que o esquema de empregos do governo termina e o apoio fiscal é reduzido”, disse a economista da Scotiabank Economics, Alena Bystriova.

“Como resultado, tanto o consumo quanto as exportações, que impulsionaram o crescimento do PIB em 2019, serão afetados neste ano. E o investimento vai cair devido ao colapso da demanda global”, acrescenta Debono, da Capital Economics.

A RETOMADA GREGA

Para alcançar uma recuperação adequada, o economista da Société Générale, Anatoli Annekov, afirma que “o principal desafio da Grécia será fazer com que o setor do turismo volte a funcionar a todo vapor, já que representa um quinto de sua economia”.

“Embora tenha aberto suas fronteiras para viajantes, o recente ressurgimento de casos de covid-19 pode levar outros países a impor quarentena aos turistas vindos da Grécia, em linha com a tendência que temos visto nas últimas semanas”, disse Annekov.

Debono, da Capital Economics, acrescenta que mesmo que isso não se concretize, “grande parte da temporada turística já foi perdida e as medidas de distanciamento social impedirão que o setor volte à plena capacidade até o final do ano”.

Os economistas concordam que será crítico para o governo grego o estímulo ao investimento, tanto público como privado. “Infelizmente, isso será difícil no momento, com a crise atingindo o mundo todo”, afirma Wijfelaars, do Rabobank.

“Para conquistar a confiança, que será frágil após a pandemia, a Grécia deve se esforçar para trazer as reformas estruturais – judiciais e bancárias – que vinha iniciando após a grande crise para o topo da agenda”, disse Debono, da Capital Economics.

DA INSOLVÊNCIA À AUTONOMIA

Em 23 de abril de 2010, à beira da insolvência, a Grécia pediu formalmente ajuda financeira aos seus parceiros europeus no que constituiria o início de um ciclo de resgates não só para Atenas como para outros países contaminados pela crise do euro.

Em maio de 2010, superadas as reticências iniciais da Alemanha, foi aprovado o primeiro resgate grego, no valor de 110 bilhões de euros, naquele que seria o início de uma série de programas de assistência a países da zona euro, com participação também do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Em março de 2012 foi aprovado um segundo resgate à Grécia, no valor de 130 bilhões de euros, mas Atenas falha ajustar suas contas públicas e uma crise mais profunda atinge o país em 2015, quando o partido de extrema-esquerda Syriza, de Alexis Tsipras, sobe ao poder e enfrenta os credores – famosa troika, composta por Comissão Europeia, Banco Central Europeu (FM) e FMI.

Finalmente, em agosto de 2015 é alcançado um acordo entre Atenas e os seus credores para um terceiro e derradeiro programa de assistência, em um montante máximo de 86 bilhões de euros.

Esse último resgate só foi concluído em 20 agosto de 2018, quando a Grécia pode tomar seu destino nas próprias mãos. Apesar de ter saído com sucesso desses programas, a ajuda financeira custou caro aos gregos, que viveram sob medidas de austeridade que incluíam aumento de impostos e privatizações.