Reino Unido fechará acordo em fases com UE no pós-Brexit

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The national flag of the United Kingdom next to the European flag

Por Júlio Viana

São Paulo – O Reino Unido deve firmar um acordo em fases com a União Europeia (UE) depois que deixar o bloco europeu na sexta-feira, processo conhecido como Brexit, segundo analistas consultados pela Agência CMA, que acreditam que neste ano devem ser firmados os parâmetros para o comércio de bens e, nos próximos, um tratado abrangendo circulação de pessoas, acesso ao mercado e comercialização de serviços.

Para os especialistas, a ideia será buscar primeiro um terreno comum sobre mercadorias, segurança e, o ponto mais específico, a pesca.

“A União Europeia provavelmente desejará que suas comunidades pesqueiras continuem a utilizar as águas britânicas, mas [o primeiro-ministro britânico Boris] Johnson precisa ceder algo para as comunidades escocesas, que dependem da atividade e devem querer a área para si. Isso deve ocupar grande parte das negociações neste primeiro ano”, afirma o economista chefe da Capital Economics para o Reino Unido, Paul Dales.

Depois, é esperado que seja negociado a questão de abertura a serviços e a empresas financeiras. “Também deverá ser acordado como esses temas serão negociados, o que dará maior segurança aos investidores, permitindo que os dois mercados voltem a crescer”, afirma o analista do Rabobank, Bas van Geffen.

“Claro, esse é um cenário que demorará um ou dois anos a mais do que o esperado para ser concretizado. Mas, eventualmente, os dois lados devem entrar em um acordo mais próximo do idealizado”, acrescenta Dales, da Capital Economics.

Ainda segundo os especialistas, os acordos devem seguir o padrão do pacto estabelecido entre Canadá e União Europeia, com alterações que ampliam o acesso a serviços e entre empresas financeiras.

“O período de 11 meses é pouco para abranger um tratado completo entre os dois lados, por isso, acreditamos que as partes devem acordar algo mais focado comércio de mercadorias neste período e manter o status quo dos outros itens para serem discutidos nos próximos anos”, disse Dales.

Após a separação, no próximo dia 31, haverá um período de transição que deve durar, inicialmente, até dezembro e durante o qual deverá ser negociada a primeira parte do acordo com o Reino Unido.

O MODELO CANADENSE

O analista da Société Générale, Brian Hilliard, e o vice-presidente do Scotiabank, Derek Holt, concordam que o mais provável é que tanto Londres como Bruxelas foquem em um acordo que está sendo batizado informalmente de “Canada Plus, Plus”, que se baseia no pacto entre UE e Canadá e facilita a troca de serviços e a abertura para empresas financeiras.

“O acordo de livre-comércio entre a UE e o Canadá, conhecido pela sigla Ceta, oferece trocas sem tarifas e sem atritos para mercadorias e poucos regulamentos ou responsabilidades equitativas. Já o acesso a serviços é um pouco mais fácil do que o estabelecido pelas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), além disso, o acesso das empresas financeiras não é facilitado”, afirma Hilliard, do SoGen.

Já o “Canada Plus, Plus” provê tanto o comércio-livre de mercadorias quanto as baixas regulamentações dadas no Ceta ao mesmo tempo que oferece um acesso mais fácil à troca de serviços e às empresas financeiras.

“Como a União Europeia anteriormente ofereceu tal acordo à [ex-primeira-ministra britânica] Theresa May, é isso que os dois lados buscarão. Mas, para alcançá-lo, precisarão resolver três compromissos principais”, afirma Dales, da Capital Economics.

De acordo com ele, as questões envolvem: o nível de compromisso regulatório, o tempo de negociação e a relação com os Estados Unidos.

CONCESSÕES

“O maior medo do bloco europeu é que o Reino Unido apresente ofertas mais competitivas ao mercado mundial do que ao bloco. Esse é, justamente, o grande sonho de Johnson com o Brexit”, afirma Holt, da Scotiabank.

Quanto mais responsabilidades equitativas e regulamentos compartilhados entre os dois lados, mais a União Europeia está disposta a abrir seu mercado a serviços e empresas financeiras, segundo os especialistas.

“Isso, no entanto, é algo que Johnson está tentando evitar e deverá brigar por um alívio regulatório não só com o bloco europeu, mas também com seu parlamento que, mesmo em maioria, não deve querer abrir mão de todas as normas comerciais existentes”, diz Bas van Geffen, do Rabobank.

O segundo compromisso deverá ser em relação ao tempo de negociação. “Quanto mais rápido Johnson decidir, menores serão as chances de conseguir o acordo ‘Canada Plus, Plus’. Para isso, ele precisará exercer a estratégia de tratado dividido em fases, o que acreditamos que será o mais provável”, afirma Dales, da Capital Economics.

UNIÃO EUROPEIA X ESTADOS UNIDOS

O principal ponto de contenção deve estar na relação entre Reino Unido e Estados Unidos. “Enquanto a União Europeia não deseja perder mercado, os Estados Unidos buscam ganhá-lo com a realização do Brexit”, afirma Gefeen, do Rabobank. “Isso coloca Johnson em um cabo de guerra entre as duas potências”, acrescentou.

Segundo Dales, da Capital Economics, o principal ponto é que enquanto os norte-americanos exigem uma regulamentação baixa, os europeus demandam o contrário. “As medidas regulatórias e responsabilidades equitativas dispostas pelos Estados Unidos são quase diretamente contrárias às da União Europeia. Quanto mais terreno for aberto para um, mais será fechado para o outro. Consequentemente, mais tarifas poderão ser implantadas”, afirmou.

Os economistas, no entanto, chamam a atenção para o fato de que os cenários previstos dependem da reeleição do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. “Todas essas condições são características de Trump na negociação. Uma mudança de governo pode até mesmo favorecer a União Europeia”, diz Hilliard, do Société Générale.

“O bloco europeu deve querer conservar seu mercado único ao mesmo tempo que tenta não deixar Johnson escapar para as mãos de Trump”, afirma Dales, da Capital Economics. “Ao mesmo tempo, o Reino Unido não deseja estender mais seu prazo de transição com a União Europeia ao passo que deseja um acordo. Por isso, os dois lados devem concordar em realizá-lo em partes.”