Recuperação da demanda por combustíveis só virá em 2022

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Foto: Shutterstock

São Paulo – A crise sem precedentes desencadeada pelo coronavírus, que levou ao isolamento social em várias regiões do país, fez a demanda por combustíveis reduzir quase pela metade, principalmente gasolina e etanol, utilizados em veículos leves, fazendo com que a expectativa por recuperação aconteça apenas em 2022, de acordo com a analistas consultados.

Segundo um relatório recente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), mesmo com a volta gradual das atividades econômicas, o consumo de combustíveis como a gasolina C pode ter uma redução de 8% neste ano, enquanto as vendas de etanol terão uma queda de 17%.

Utilizado em veículos pesados como caminhões e ônibus, o óleo diesel sentiu menos que os demais combustíveis os efeitos do estrangulamento da economia e pode encerrar 2020 com uma demanda 2% menor.

No entanto, especialistas do setor preveem uma diminuição ainda maior na demanda de alguns combustíveis. O argumento é que, apesar do afrouxamento nas regras de isolamento social, a tendência geral da economia é de retração, seja por questões internas ou pelo prognóstico para o mercado global.

Infográfico por Adriana Fornereto/CMA

Para o sócio da consultoria Bip Brasil, Flávio Menezes, a diminuição na demanda neste ano deve ser entre 30% e 40% já que a expectativa é que a recuperação econômica apareça apenas no quarto trimestre, enquanto em 2021 a retomada tende a ser gradual.

“O impacto será muito grande. Desde que a crise veio à tona, houve uma redução forte no consumo, principalmente de gasolina e etanol que caíram quase 50%. Hoje a previsão aponta que apenas em 2022 chegaremos no mesmo patamar pré-crise, ou seja, o que a gente tinha entre o final de 2019 e início de 2020”, diz Menezes.

Segundo o sócio-diretor da Leggio Consultoria, Marcus D’Elia, embora os efeitos mais fortes da crise sobre a demanda por combustíveis sejam sentidos neste ano, em 2021 o setor ainda terá implicações da crise econômica, segurando a aguardada recuperação nas vendas.

“A retomada não tende a ser tão forte neste ano e, em 2021, mesmo que exista algum crescimento, será sobre uma base mais baixa. Além disso, é possível que ainda haja alguma perda residual no ano que vem”.

D’Elia destacou também que em 2020 o setor de combustíveis foi impactado pela crise do coronavírus e pelo choque nos preços do petróleo, o que torna a situação das distribuidoras um pouco mais complicada. “Vai acompanhar preço do petróleo, então no período de quarentena isso é agravado, mas o problema perseguirá enquanto petróleo estiver barato”.

De acordo com o chefe de óleo e gás da INTL FCStone, Thadeu Silva, a demanda este ano certamente será pior do que a do ano passado, uma vez que o impacto no segundo trimestre foi forte e os reflexos ainda serão sentidos no restante do ano.

Indagado sobre a recuperação no curto e médio prazo, o executivo afirmou que a melhora na venda de combustíveis a partir de 2021 ainda é difícil de ser medida e dependerá do ritmo de recuperação da economia. “Essa curva de volta é mais difícil de verificar porque a crise vai gerar desemprego e dívidas para as famílias, mas é possível que em 2022 a gente ainda tenha rastro dela”.

DIESEL

Apesar das restrições para o funcionamento da maioria das atividades comerciais, o transporte de cargas foi mantido no país como um serviço essencial, o que fez com que o diesel fosse menos afetado que os demais combustíveis, o que tem ajudado na recomposição da demanda pelo produto.

Além disso, durante o isolamento social, as vendas online cresceram e criaram uma necessidade maior de transporte urbano de cargas. Por conta deste cenário, o diesel já recuperou a demanda pré-crise, segundo o presidente da BR Distribuidora, Rafael Grisolia, em uma live recente.

“O diesel é um importante antecedente do crescimento econômico, do Produto Interno Bruto (PIB), o que dá um bom indicador sobre o dinamismo da economia brasileira, mostra que ela está se movimentando”, explicou Grisolia. Em relação ao ciclo otto, a perspectiva é de uma redução de no mínimo 20% neste ano.

AVIAÇÃO

Se, por um lado, a recuperação do ciclo otto e do diesel tendem a ser mais rápidas, o mesmo não pode ser dito sobre o combustível de aviação (QAV), que teve sua venda praticamente zerada no início da pandemia.

Este tipo de combustível foi fortemente impactado pela redução na quantidade de voos nacionais e internacionais nos últimos meses.

Em função disso, as companhias aéreas começaram a passar por um momento de maior dificuldade que pode se estender por mais tempo, devido aos reflexos da crise no mercado de turismo e à diminuição da atividade econômica. “Aviação terá uma perda mais forte e terá que se estruturar”, afirmou D’Elia.