Pressão externa faz Bolsa cair e dólar subir mais de 2%

Foto: Edrod / freeimages.com

São Paulo – O Ibovespa voltou a acelerar perdas perto do fim do pregão acompanhando o movimento das Bolsas norte-americanas e fechou em queda de 1,60%, aos 95.734,82 pontos. Os papéis de ações de grandes de empresas de tecnologia voltaram a mostrar correções nos Estados Unidos, em meio ao aumento de casos de coronavírus e após novas declarações do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), Jerome Powell. Na cena doméstica, a preocupação com a situação fiscal também pesa negativamente.

“O Ibovespa está acompanhando o movimento do Dow Jones, que passou a cair mais forte agora a tarde. Os fatores continuam relacionados ao aumento de casos de covid-19 na Europa, período de eleições nos Estados Unidos e a dificuldade de entendimento entre republicanos e democratas em fechar um novo pacote de estímulo”, disse o analista da Mirae Asset Corretora, Pedro Galdi.

Galdi lembra que, mais cedo, o presidente do Fed sinalizou que a economia precisa de mais estímulos, justamente no momento em a disputa entre os dois partidos indica que o pacote de estímulos que está sendo negociado não deve ser aprovado no curto prazo.

Com esse quadro, ações como as da Amazon, Netflix e Tesla voltaram a mostrar correções depois de já terem subido bastante desde o início da pandemia, pressionando ainda mais as Bolsas em Wall Street no fim do dia, com destaque para a queda de mais de 3% no Nasdaq.

O operador de renda variável da Commcor Corretora, Ari Santos, destaca ainda que o volume de negócios está um pouco mais fraco em meio a ausência de novidades positivas e da persistente incerteza em relação ao cenário doméstico. “O cenário lá fora está dependente de estímulos, se o governo norte-americano dar um novo incentivo para a economia os mercado poderiam melhorar. Já por aqui, a questão fiscal ainda gera dúvidas e a criação de uma nova CPMF é polêmica”, disse.

O Ministério da Economia elevou a previsão de déficit fiscal do ano de R$ 787,5 para R$ 861 bilhões e notícias apontam que o governo ainda irá buscar a aprovação de um novo imposto nos moldes da CPMF junto ao “centrão”, já que o governo busca meios de ampliar a arrecadação e de financiar o programa Renda Brasil, que pode substituir o Bolsa Família.

Entre as ações, setores como os de frigoríficos pressionaram o índice, caso da Marfrig (MRFG3 -4,35%), que está entre as maiores perdas do Ibovespa. Ao lado da Marfrig, ficaram as ações da Braskem (BRKM5 -6,31%), da PetroRio (PRIO3 -4,90%) e das Lojas Renner (LREN3 -4,72%).

Na contramão, as maiores altas foram das ações da Localiza (RENT3 13,74%), que dispararam após a companhia fechar um acordo de R$ 2 bilhões para incorporar a Unidas, em operação na qual os acionistas da Unidas deterão 23,15% do capital votante na Localiza.

Na agenda de amanhã, investidores ficarão atentos ao relatório trimestral de inflação, seguido de entrevista do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Já nos Estados Unidos, Powell dará mais um depoimento e serão divulgados os pedidos de seguro-desemprego da última semana.

O dólar comercial fechou em forte alta de 2,24% no mercado à vista, cotado a R$ 5,5920 para venda, no maior valor de fechamento desde 26 de agosto e na quarta alta seguida – acumulando ganhos de 6,8% – em meio à forte aversão ao risco que prevaleceu no exterior, o que levou a moeda norte-americana a ganhar terreno de forma generalizada na sessão.

“Foi uma sessão de forte sentimento de aversão ao risco com investidores precificando uma segunda onda da pandemia do novo coronavírus na Europa e o aumento dos casos [de covid-19] nos Estados Unidos. Esse repique da pandemia amplia as incertezas sobre a recuperação da economia global e pesou no clima dos mercados”, comenta o diretor superintendente de câmbio da Correparti, Jefferson Rugik.

O analista de câmbio da mesma casa, Ricardo Gomes Filho, acrescenta que investidores reajustaram posições ao longo da sessão antecipando uma “provável nova rodada de desaquecimento” da economia global diante do crescimento do número de contaminados pela covid-19.

Amanhã, investidores locais ficarão atentos à coletiva de imprensa do presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, que comentará o resultado do Relatório Trimestral de Inflação (RTI) a ser divulgado pela autoridade monetária às 8h.

O presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), Jerome Powell, falará no Senado norte-americano. Tem ainda a decisão de política monetária do Banco de México (Banxico), no qual a aposta do mercado é de que a taxa de juros caia de 4,50% para 4,25%. Fator que levou a divisa a cair mais de 3% hoje.

Com o dólar ao redor de R$ 5,60, Rugik diz que o Banco Central pode mostrar força e atuar no mercado cambial caso a moeda fique acima desse nível, mesmo em ambiente de aversão ao risco no exterior.

Já a economista-chefe da Veedha Investimentos, Camila Abdelmalack, não acredita que a autoridade monetária intervenha no mercado “de imediato”. No mês passado, quando a moeda estrangeira chegou a operar acima dos R$ 5,67, o BC realizou leilões de venda de dólares à vista. A economista ressalta que com o ambiente de incertezas também no mercado interno diante da situação fiscal do país, ela “não vê motivos para bom humor” nos ativos amanhã.

As taxas dos contratos de juros futuros (DIs) encerraram em forte alta, acelerando a trajetória vista desde a abertura do pregão, reagindo ao resultado mais “salgado” que o esperado da prévia deste mês da inflação ao consumidor brasileiro (IPCA-15). A curva a termo também foi pressionada pelo avanço firme do dólar, que já é cotado acima de R$ 5,55, em um movimento alinhado ao exterior, além da expectativa pelo leilão de títulos, amanhã.

Ao final da sessão regular, o DI para janeiro de 2022 ficou com taxa de 2,97%, de 2,92% no ajuste anterior; o DI para janeiro de 2023 terminou projetando taxa de 4,45%, de 4,35% após o ajuste ontem; o DI para janeiro de 2025 encerrou em 6,43%, de 6,30%; e o DI para janeiro de 2027 tinha taxa de 7,40%, de 7,26%, na mesma comparação.

Os principais índices do mercado de ações fecharam em queda liderados pelas baixas nos papéis do setor de tecnologias, além das preocupações sobre as altas nos casos de coronavírus.

Confira abaixo a variação e a pontuação dos índices de ações dos Estados Unidos após o fechamento:

Dow Jones: -1,92%, 26.763,13 pontos

Nasdaq Composto: -3,02%, 10.632,985 pontos

S&P 500: -2,37%, 3.236,92 pontos