Preocupação fiscal traz mais um dia de volatilidade aos mercados

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São Paulo – Após tentar uma recuperação pela manhã, o Ibovespa voltou a acelerar perdas no fim do pregão e encerrou em queda de 1,14%, aos 93.580,35 pontos, ainda refletindo a proposta do governo de como financiar o programa Renda Cidadã, que foi vista como uma manobra fiscal por analistas. Além da manutenção do receio com a situação fiscal doméstica, as Bolsas no exterior também mostraram fraqueza de olho na corrida eleitoral presidencial norte-americana e nos casos de coronavírus.

Com a queda desta terça-feira, o índice registrou o menor patamar de fechamento desde o dia 16 de junho (93.531,17 pontos). O Ibovespa já está mais de 10 mil pontos abaixo do pico de 105.703,62 pontos que atingiu na máxima do dia 27 de julho, maior nível que conseguiu atingir desde a derrocada vista em meados de março com o início da pandemia do coronavírus. O volume total negociado hoje foi de R$ 23,9 bilhões.

“O risco aumentou e precisa ser incorporado, só o fato de o governo ter proposto uma manobra fiscal já gera maior desconfiança”, disse o sócio da RJI Gestão e Investimentos, Rafael Weber.

Ontem, o governo anunciou que pretende financiar o programa Renda Cidadã, que irá substituir o Bolsa Família, com recursos usados para pagar precatórios e parte do fundo destinado à educação, o Fundeb, que não entra na conta do teto de gastos. Mas, dada à forte receptividade negativa da proposta, houve rumores de que o governo poderia voltar atrás, o que não aconteceu.

Weber destaca que o modo proposto para custear o programa foi visto como uma “forma camuflada de tentar furar o teto de gastos”, e que usar recursos de precatórios é empurrar mais dívidas para frente. Além disso, a proposta evidenciaria a maior fraqueza do ministro da Economia, Paulo Guedes, que parece estar cedendo em pontos que antes defendia. “A tolerância do mercado está se esvaindo, se é que já não acabou”, reitera.

Para o analista de investimentos do banco Daycoval, Enrico Cozzolino, além do anúncio em si já ter sido uma notícia negativa, a falta de clareza sobre a estratégia do governo e as especulações em torno da manutenção da proposta atrapalham, ajudando o Ibovespa a negociar em patamares mais baixos. “Ninguém tem certeza do que vai acontecer e isso em um patamar delicado para

o Ibovespa, com os 97 mil pontos voltando a ser uma resistência importante”, disse.

Além da cena local de maior incerteza, o cenário externo segue inspirando cautela. As Bolsas europeias fecharam em queda no dia em que a pandemia de coronavírus ultrapassou a marca de 1 milhão de mortos no mundo, enquanto os índices norte-americanos também mostram volatilidade em meio ao receio de aumento de casos em Nova York e à intensificação das campanhas eleitorais presidenciais.

Wall Street chegou a operar em alta pela manhã após dados acima do esperado pelo mercado da confiança do consumidor em setembro, mas logo voltou a cair. Há expectativas sobre o primeiro debate entre o presidente Donald Trump e o candidato democrata Joe Biden ainda hoje.

Entre as ações, as maiores quedas do Ibovespa foram da Azul (AZUL4 -7,70%) e da Gol (GOLL4 -5,72%). O Bradesco BBI reduziu a recomendação dos papéis da Azul para neutro e os papéis do setor seguem sofrendo com os efeitos da pandemia. Na contramão, as maiores altas foram da WEG (WEGE3 3,25%), das Lojas Americanas (LAME4 2,05%) e da Natura (NTCO3 1,97%).

Amanhã, a agenda de indicadores traz uma série de dados que podem mexer com os mercados, a começar por PMIs da indústria e do setor de serviços chinês, além de dados europeus, como a taxa de desemprego da Alemanha. Além disso, a presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, fará discurso em conferência do banco.

Já nos Estados Unidos, o destaque serão os dados de emprego do setor privado e a terceira leitura do PIB do segundo trimestre, enquanto no Brasil também será conhecida a taxa de desemprego.

O dólar comercial fechou com ligeira alta de 0,05% no mercado à vista, cotado a R$ 5,6420 para venda, renovando o maior valor de fechamento desde 20 de maio – quando encerrou a R$ 5,6740 – em sessão de forte volatilidade no qual a moeda operou em boa parte do dia sem rumo único digerindo os riscos fiscais do país em meio ao programa Renda Cidadã e com o exterior à espera do primeiro debate da corrida presidencial nos Estados Unidos.

O analista de câmbio da Correparti, Ricardo Gomes Filho, comenta que após um pico de estresse inicial no câmbio, no qual a moeda renovou máximas acima de R$ 5,67, a possibilidade de o governo federal recuar em relação a estratégia de financiamento do programa Renda Cidadã por meio de precatórios e do Fundeb “injetou” um pouco de tranquilidade no mercado doméstico.

“Entretanto, as constantes indefinições em relação ao futuro do quadro fiscal do país mantêm o investidor em um estado constante de cautela”, avalia. Ele acrescenta que, no exterior, as incertezas em torno de um pacote fiscal para mitigar os efeitos da crise do novo coronavírus na economia norte-americana e a ansiedade dos investidores antes do debate presidencial, manteve ativos no vermelho.

A estrategista de câmbio do banco Ourinvest, Cristiane Quartaroli, observa que amanhã o mercado deverá reagir ao debate entre os presidenciáveis nos Estados Unidos. Mais tarde, o presidente Donald Trump e o candidato Joe Biden se enfrentam pela primeira vez. “Acho que isso tem mais força para fazer preço do que a agenda de indicadores”, diz.

Na agenda, tem os dados sobre a criação de emprego no setor privado (ADP) norte-americano, com previsão de criar 600 mil vagas. Os números são uma prévia do relatório de trabalho, o payroll, a ser divulgado na sexta-feira. Tem ainda a terceira leitura do Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos no segundo trimestre. A previsão é de queda de 31,7%. Para Quartaroli, o tombo histórico do PIB no período já está no preço.

Aqui, tem ainda a tradicional disputa pela formação de preço da taxa Ptax – média das cotações apuradas pelo Banco Central (BC) – de fim de mês, que deverá alimentar um viés de volatilidade na primeira parte dos negócios.

As taxas dos contratos de juros futuros (DIs) encerraram a sessão em alta, principalmente nos vértices curtos e intermediários, em uma sessão marcada pela volatilidade, com a curva a termo alternando altas e baixas durante boa parte do pregão. Mas o movimento de colocação de prêmios prevaleceu, diante dos crescentes riscos fiscais e após novas declarações do governo, reafirmando as fontes de financiamento do novo programa social.

Ao final da sessão regular, o DI para janeiro de 2022 ficou com taxa de 3,17%, de 3,06% no ajuste anterior; o DI para janeiro de 2023 terminou projetando taxa de 4,66%, de 4,54% após o ajuste ontem; o DI para janeiro de 2025 encerrou em 6,65%, de 6,61%; e o DI para janeiro de 2027 tinha taxa de 7,63%, de 7,62%, na mesma comparação.

Os principais índices do mercado de ações norte-americano fecharam em queda pela primeira vez em quatro sessões em meio ao aumento de casos do novo coronavírus e antes do primeiro debate para as eleições presidenciais de 3 de novembro no país.

Confira abaixo a variação e a pontuação dos principais índices de ações dos Estados Unidos no fechamento: 

Dow Jones: -0,48%, 27.452,66 pontos

Nasdaq Composto: -0,29%, 11.085,24 pontos

S&P 500: -0,48%, 3.335,47 pontos