Pragmatismo contará mais que retórica na relação Brasil x Argentina

Por Gustavo Nicoletta

Presidente Jair Bolsonaro durante encontro com lideranças empresariais e cerimônia de entrega da Ordem do Mérito Industrial São Paulo. (Foto: Alan Santos/PR)

São Paulo – Apesar de o presidente Jair Bolsonaro ter apoiado publicamente o candidato perdedor das eleições presidenciais da Argentina, Mauricio Macri, e criticado em várias ocasiões a chapa vencedora, do agora presidente-eleito argentino, Alberto Fernández, a relação do Brasil com o país vizinho deve continuar sendo regida pelo pragmatismo, segundo especialistas entrevistados pela Agência CMA.

A chapa Frente de Todos, composta por Fernández e pela ex-presidente da Argentina Cristina Kirchner, derrotou Macri nas eleições presidenciais ocorridas neste domingo, recebendo 48,1% dos votos válidos, contra 40,4% da chapa do atual presidente, a Juntos pela Mudança.

Nos últimos meses, Bolsonaro deixou claro que preferia a vitória de Macri. Em agosto, ele afirmou que Cristina Kirchner é “da mesma turma de Dilma” Rousseff, ex-presidente brasileira, e do presidente venezuelano Nicolás Maduro, e acrescentou que a vitória da candidata argentina poderia gerar uma nova frente de crise imigratória.

“Se essa esquerdalha voltar aqui na Argentina poderemos ter sim, no Rio Grande do Sul, um novo estado de Roraima, e não queremos isso. Irmãos argentinos fugindo para cá”, afirmou.

Dias depois, comentou que poderia retirar o Brasil do Mercosul se Alberto Fernández vencesse as eleições e criasse problemas. “[Fernández] já esteve vistando o [ex-presidente] Lula, já falou que é uma injustiça ele estar preso, já falou que quer rever o Mercosul. Então o Paulo Guedes, perfeitamente afinado comigo, falou que se criar problema, o Brasil sai do Mercosul, e está avalizado”, disse Bolsonaro.

Para o professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Tomaz Oliveira Paoliello, apesar da retórica de Bolsonaro, o histórico entre Brasil e Argentina sugere que a falta de proximidade ideológica entre os governos dos dois países não impediu que ambos mantivessem boas relações.

“Posso te dar como exemplo eleição do próprio Macri. Quando ele foi eleito, a presidente do Brasil era a Dilma [Rousseff]. Circulou à época que isso afetaria relações do Brasil com a Argentina. E o Macri, a primeira viagem internacional que ele fez foi ao Brasil”, afirmou Paoliello.

“Macri não era próximo ideológica ou politicamente da Dilma, mas isso não impediu que as relações do Brasil com a Argentina fossem bem. As relações não passam só pelo campo da alta política. As relações entre o Brasil e a Argentina são muito densas, principalmente as econômicas”, acrescentou.

Denilde Holzhacker, professora de relações internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e coordenadora do núcleo de estudos e negócios americanos, também destacou a interdependência econômica de Brasil e Argentina. “Há muitos interesses econômicos e comerciais que vão ser tratados dentro dessa lógica um pouco mais pragmática.”

Em outras áreas, porém, ainda há dúvidas, principalmente porque a relação pessoal entre Bolsonaro e Fernández se mostra tensa – o presidente-eleito da Argentina defendeu ontem a liberdade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, principal rival político de Bolsonaro, e o presidente brasileiro disse que não cumprimentaria Fernández pela vitória nas urnas.

“O que não se sabe é o quanto essa relação conflituosa pode gerar desgaste para a relação bilateral”, disse Holzhacker, citando particularmente a incerteza em torno da assinatura do acordo comercial fechado entre o Mercosul e a União Europeia. A professora lembra que, durante a campanha eleitoral, Fernández criticou o pacto.

“O acordo pode ser aprovado se o Brasil e outros membros aprovarem, mas de qualquer forma é um momento de preocupação e tensão”, afirmou, mencionando que o próprio funcionamento do Mercosul também é outro ponto de incerteza daqui para frente.

Daniela Campello, professora da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getulio Vargas (Ebape-FGV), avalia que a Argentina provavelmente evitará “comprar briga que puder evitar, porque a indústria brasileira precisa muito da Argentina, mas a da Argentina precisa muito mais da do Brasil.”

A preocupação maior, portanto, ficaria com as ações do governo brasileiro, que apresenta um comportamento errático principalmente na área de política externa. “Não acho totalmente impossível que o Bolsonaro mantenha essa relação de confronto, apesar de ser extremamente nefasto”, acrescentou.

Segundo ela, Bolsonaro vai sofrer muita pressão do setor industrial para manter relações estáveis com a Argentina “porque é para indústria em particular é muito ruim” um desmonte das condições atuais.

Holzhacker lembra que “o Brasil já vem sinalizando que pode fazer uma ação de distanciamento – ou isolando a Argentina ou se distanciando do bloco.” Para ela, no entanto, estas questões devem depender mais da postura de Fernández nos próximos meses.

Paoliello ressaltou que qualquer rompimento do Brasil com o Mercosul levaria tempo. “Não é processo tão complicado quanto o Brexit, mas é um processo demorado. É importante perceber que o Mercosul traz benefícios para muitos setores no Brasil. Eu destacaria a indústria automotiva”, acrescentou.

Dados do governo federal mostram que em 2019 até setembro a Argentina foi o quarto maior destino das exportações brasileiras em termos de receita, comprando o equivalente a US$ 7,48 bilhões em produtos. Em primeiro lugar aparece a China, com US$ 46,2 bilhões, seguida por Estados Unidos (US$ 21,8 bilhões) e a Holanda (US$ 8,1 bilhões).

Aproximadamente metade da corrente de comércio do Brasil com a Argentina é composta de veículos e autopeças. Em setembro, os dois países fecharam um acordo para o livre-comércio de produtos automotivos que entrará integralmente em vigor em julho de 2029. Até lá, o pacto prevê que cotas cada vez maiores de veículos e autopeças serão comercializados sem cobrança de tarifas.

ISOLAMENTO E EXPECTATIVAS

Os especialistas afirmam também que a vitória da oposição na Argentina é mais um reflexo da quebra de expectativa de crescimento e recuperação econômica do que um voto contrário ao projeto de liberalização econômica em si. No entanto, apontam que o Brasil pode ficar relativamente isolado na região por causa da questão ideológica.

“A gente teve um período de bonança longo que se reverteu. Agora está todo mundo pior do que estava na década passada”, disse Campello. Ela cita o caso do Chile, onde o governo de Sebastián Piñera, que tem um projeto econômico liberal, enfrenta protestos que resultaram em confrontos violentos entre a população e as forças de segurança.

Por volta de 2010 – quando Piñera era o presidente do país -, a economia do Chile crescia cerca de 5% ao ano, com exceção de 2009, quando o Produto Interno Bruto (PIB) encolheu atingido pela crise financeira mundial e pela derrocada no preço das commodities. Nos últimos cinco anos, o crescimento do país foi de 2% ou menos.

“Há uma frustração quando se passa por um período de bonança. Tem uma série de coisas boas que acontecem nestes períodos que aconteceram em comum”, em vários países da América Latina, disse Campello. “Existia quantidade de dinheiro suficiente porque não precisava atrair investidor”, e hoje este quadro é diferente, acrescentou.

Paoliello aponta que apenas a Argentina e o Brasil tiveram trocas significativas de governo recentemente, visto que em outros países a situação de manteve mais ou menos a mesma, inclusive no Chile. “O Uruguai já era governado pela esquerda e a Bolívia também. O Chile está numa situação muito especial, mas tem variado ao longo dos últimos anos. Tem uma alternância de governos de centro-esquerda e centro-direita.”

A prevalência de discursos antiliberais, porém, tende a deixar o governo Bolsonaro mais isolado, segundo Holzhacker. “O Brasil tende, se houver mudança no Chile, a ficar mais isolado. Se a gente olha para o governo atual no Brasil ele tem aí uma mescla de alguns temas nacionalistas muito fortes, e uma agenda de discussão mais social que também se apresenta. Tem uma dificuldade de ser liberal na prática”, afirmou.

“O Brasil e o México são os países mais complexos em termos de estrutura social e econômica. Tem maior dificuldade para poder falar se essa tendência na região vai também chegar no Brasil. Mas de qualquer forma torna a postura do governo brasileiro mais isolada, obviamente, porque todos os outros vão estar conversando e aplicando políticas menos liberalizantes”, acrescentou.

Campello citou que o governo Bolsonaro possui uma série de características de governos populistas neoliberais, menos na área macroeconômica, pois não há um incentivo à expansão desenfreada da economia, como ocorreu em governos deste tipo em outros países – Alberto Fujimori, no Peru, e Carlos Menem, na Argentina, por exemplo.

Para ela, este tipo de incentivo ao crescimento diminuiu o sofrimento e a reação das pessoas a outras políticas mais duras que foram adotadas naqueles países durante os governos populistas neoliberais. Como Bolsonaro não seguiu a mesma linha, corre mais risco de enfrentar oposição ao seu projeto.

“O Bolsonaro é uma agenda muito parecida com Menem e Fujimori. As pessoas ainda não sentiram o efeito das medidas, que são duras num cenário em que não vai ter essa folga do crescimento. Não há nenhuma surpresa no fato de ele estar perdendo popularidade”, disse Campello, afirmando que o resultado disso será uma pressão crescente sobre ele e o ministro da Economia, Paulo Guedes, para entregar os resultados econômicos prometidos.

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